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• Por Tabatha Oliveira
A indústria cinematográfica de Hollywood vive, há pelo menos uma década, sob o
signo da diversidade. O termo deixou de ser uma reivindicação periférica para se tornar elemento central de discursos institucionais, campanhas de marketing e estratégias de premiação. Filmes são apresentados como marcos históricos, estúdios divulgam compromissos públicos com inclusão e cerimônias de prêmios se tornaram palcos recorrentes de declarações políticas. No entanto, a distância entre o discurso e a estrutura concreta da indústria permanece um dos pontos menos discutidos (e mais reveladores) desse processo.
Hollywood sempre operou por meio de narrativas não apenas nas telas, mas sobre si mesma. Desde o sistema clássico dos estúdios até o atual modelo corporativo globalizado, a indústria compreendeu que sua legitimidade cultural depende da forma como ela se apresenta ao público. A atual ênfase na diversidade deve ser analisada dentro dessa tradição: como parte de um esforço contínuo de controle simbólico em um contexto de pressão social crescente.
O marco contemporâneo dessa discussão costuma ser associado ao movimento #OscarsSoWhite, que, a partir de 2015, expôs de maneira incontornável a homogeneidade racial e de gênero nas principais premiações. A resposta institucional foi rápida e visível com uma ampliação do corpo de votantes da Academia, reformulação de critérios de elegibilidade, maior presença de filmes protagonizados por pessoas negras e por mulheres nas campanhas de premiação. À primeira vista, o sistema parecia reagir de forma responsável, no entanto, dados produzidos por instituições acadêmicas como UCLA e USC Annenberg revelam um padrão consistente: os avanços se concentram majoritariamente nos níveis mais visíveis da indústria, enquanto os centros reais de poder permanecem amplamente inalterados. Atores e atrizes diversos aparecem com mais frequência nas telas, mas os cargos de direção, roteiro, produção executiva e liderança de estúdios continuam sendo ocupados, em sua maioria, por homens brancos. Essa assimetria não é acidental, mas revela um limite tácito imposto à diversidade na qual ela é bem-vinda enquanto não ameaça a hierarquia decisória. O que se promove é a diversidade como imagem, não como redistribuição de poder.
Essa lógica se torna ainda mais evidente quando observada sob a perspectiva econômica. Diversos estudos demonstram que filmes com elencos diversos apresentam desempenho superior no mercado global, especialmente fora dos Estados Unidos. Ainda assim, Hollywood insiste em tratar esses projetos como exceções ou apostas específicas, e não como parte de uma reformulação estrutural do modelo de produção. A diversidade é celebrada como diferencial competitivo pontual, mas raramente incorporada como princípio organizador da indústria. Isso indica que, para muitos estúdios, a inclusão opera como um ativo reputacional. Em momentos de maior pressão social ou instabilidade política, o discurso progressista se intensifica. Filmes “importantes” são alçados à condição de símbolos morais, campanhas enfatizam compromissos éticos e a indústria se apresenta como alinhada aos valores contemporâneos. Quando esse contexto se altera, políticas de diversidade são silenciosamente reduzidas ou abandonadas, sem grandes anúncios ou explicações públicas. A inclusão, nesses casos, não é um valor permanente, mas uma resposta contingente a pressões externas.
Outro equívoco recorrente nesse debate é a confusão entre representatividade e inclusão. Representatividade diz respeito à presença visível de grupos historicamente marginalizados na tela, já a inclusão, por sua vez, implica participação efetiva nos processos de criação, decisão e controle narrativo. Um filme pode exibir diversidade estética e, ainda assim, reproduzir perspectivas limitadas, estereótipos e estruturas narrativas que reforçam desigualdades simbólicas. A recorrência de arquétipos como o “white savior” ou a exigência de que histórias de minorias sejam legitimadas por sofrimento extremo exemplificam como a inclusão superficial pode coexistir com narrativas conservadoras. As premiações desempenham um papel central nesse processo e o reconhecimento institucional raramente se baseia apenas no mérito artístico, mas em campanhas cuidadosamente elaboradas que transformam pautas sociais em narrativas vendáveis. Filmes associados a temas de diversidade frequentemente são enquadrados como “necessários” ou “urgentes”, enquanto obras semelhantes, produzidas fora do circuito dominante, não recebem o mesmo investimento promocional. O resultado é uma hierarquização simbólica da inclusão, em que certas histórias são legitimadas enquanto outras permanecem à margem.
É importante reconhecer que avanços reais existem e não devem ser descartados. Profissionais que tensionam o sistema por dentro, iniciativas independentes e mudanças graduais na formação de público indicam que o cenário não é estático. No entanto, esses avanços ainda operam dentro de um modelo que privilegia controle, previsibilidade e manutenção de hierarquias. A diversidade é aceita desde que não comprometa a lógica de concentração de poder que sustenta Hollywood há décadas. A questão central, portanto, não é se Hollywood produz filmes diversos, mas se está disposta a redefinir quem decide o que é produzido, financiado e distribuído. Diversidade estrutural implica aceitar riscos criativos, abrir mão de controle absoluto e permitir que novas vozes não apenas apareçam, mas conduzam processos. Enquanto essa redistribuição não ocorrer de forma consistente, grande parte do discurso inclusivo continuará funcionando como uma narrativa cuidadosamente construída, eficaz do ponto de vista simbólico, mas limitada em seu impacto transformador.
Avaliar a diversidade em Hollywood exige ir além da superfície visível das telas e das noites de premiação pois é necessário examinar as estruturas invisíveis que sustentam a indústria: os mecanismos de decisão, os fluxos de capital, as políticas internas e os critérios de legitimação cultural. Enquanto essas estruturas permanecerem concentradas, a inclusão seguirá sendo, em muitos casos, menos uma mudança profunda e mais uma história bem contada e Hollywood, como sempre, continuará sendo extremamente competente em contar histórias sobre si mesma.
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