É por isso que você não entende os filmes que assiste!

O cinema não ficou difícil, seu foco é que ficou frágil demais. A boa notícia é que dá 
tempo de consertar


• Por Tabatha Oliveira

Você já saiu do cinema com a sensação de que o filme era “parado demais” ou que 
“não aconteceu nada”? Talvez o problema não seja o filme. Talvez seja o seu
cérebro e o que as telas fizeram com ele. Nos últimos anos, um termo passou a circular nas universidades, nas clínicas e, 
curiosamente, entre adolescentes que passam o dia no TikTok: brain rot. Literalmente, “cérebro apodrecido”. Mas, mais do que uma gíria, é um diagnóstico 
cultural.
 
Pesquisas recentes publicadas na Brain Sciences (Yousef et al., 2025) e na New 
Media & Society (Owens, 2025) descrevem o brain rot como o esgotamento cognitivo gerado pelo consumo constante de estímulos rápidos e superficiais, ou 
seja, um bombardeio de dopamina que reprograma nosso sistema de atenção. O
resultado é um cérebro que não suporta o silêncio, que não sabe esperar, que 
precisa de algo novo a cada segundo para se sentir vivo. E o cinema, arte da espera e da presença, acaba sendo a primeira vítima desse novo tipo de mente fragmentada.
 
A experiência cinematográfica sempre dependeu de um pacto; a suspensão do tempo. O escuro da sala, o som que envolve, a tela que nos convida a mergulhar num outro mundo. Mas o espectador contemporâneo chega dopaminado e treinado para deslizar o dedo antes mesmo que a cena mude. O cérebro acostumado a vídeos de quinze segundos se desespera diante de um plano de dois minutos. O silêncio o incomoda, o ritmo lento o cansa, a ambiguidade o confunde. O que antes era convite à contemplação vira motivo de tédio. Não é a toa o crescente uso de telas dentro da sala do cinema que vem incomodando os amantes da sétima arte que ainda usufruem da imersão e esquecimento do lado externo ao assistir um filme por algumas horas. Do ponto de vista empresaria, o cinema acabou precisando se adaptar. Os grandes estúdios entenderam rápido a premissa: se o público quer estímulo constante, é isso que ele vai receber. Cortes a cada três segundos, piadas cronometradas, explosões planejadas como notificações sensoriais. O blockbuster moderno é o scroll infinito em forma de narrativa. A estética do feed virou estrutura de roteiro. Tudo é pensado para evitar o tédio e, paradoxalmente, é justamente isso que torna esses filmes tão esquecíveis. Porque o prazer imediato cobra caro: ele anestesia. A dopamina substitui a emoção genuína e a pressa substitui o envolvimento. O público, acostumado ao imediatismo, confunde velocidade com intensidade.
 
Hoje, muita gente não vai ao cinema para assistir, mas para estar lá. Tira foto da 
poltrona, posta o ingresso, comenta no story. Quer ter visto, não ver. Owens (2025) mostrou que, entre adolescentes, o termo brain rot é usado com ironia, uma forma de rir do próprio cansaço mental. Mas nas salas de cinema, essa ironia virou tragédia. A plateia não está mais ali pelo filme: está ali pelo evento de ter estado ali. O FOMO (medo de ficar de fora) substituiu a fruição. E assistir se tornou um ato performático, não estético. Isso explica por que tantas pessoas dizem que “não entenderam” o filme. Não é falta de inteligência, mas sim falta de presença. O brain rot não apenas rouba a atenção, mas acaba atrofiando a sensibilidade. A leitura simbólica se dissolve, a capacidade de decifrar imagens desaparece. Queremos filmes que nos expliquem, de forma didática quase desenhando, não filmes que nos interroguem. A metáfora virou ameaça e a ambiguidade, um defeito de roteiro. Mas o cinema não nasceu para ser entendido, nasceu para ser sentido, para ser refletido, incorporado às nossas realidades e aos nossos valores. Porém, sentir e refletir exigem entrega, demora e, principalemte, silêncio.
 
Henry David Thoreau usou a expressão brain rot em 1854, no livro Walden, para criticar uma sociedade que, mesmo sem telas, já começava a confundir ocupação com pensamento. Quase dois séculos depois, estamos no mesmo ponto, só que agora o ruído é digital e portátil. Levamos o excesso no bolso, e o cérebro nunca mais descansou. A filósofa Byung-Chul Han chama isso de “sociedade do cansaço” com um mundo onde ninguém suporta a lentidão, onde o tempo livre foi colonizado pela produtividade e o descanso virou culpa. E o cinema, que é a arte da lentidão, se torna um ato de resistência.
 
Assistir a um filme hoje é, de certo modo, um gesto político. É decidir que o tempo pode ser contemplação, não apenas consumo. É redescobrir o prazer de ver uma cena sem olhar o relógio, de ouvir o silêncio sem preencher o vazio. É reencontrar o olhar. A boa notícia é que esse olhar pode ser reeducado. A atenção é um músculo e o cinema é um de seus melhores treinadores. Experimente uma sessão sem celular. Veja um filme de Tarkóvski ou Chloé Zhao sem tentar “entender”. Repare na textura, na luz, na respiração dos personagens. Deixe que o filme te atravesse antes de tentar explicá-lo. Porque o problema não é o cinema que ficou difícil, mas é a gente que desaprendeu a olhar.
 
O brain rot é o sintoma de uma era que confunde dopamina com prazer, ruído com presença, entretenimento com experiência. E talvez o primeiro passo para curá-lo não esteja nas telas, mas no escuro de uma sala, diante de uma história que exige o que esquecemos de oferecer: tempo, paciência e alma. Da próxima vez que você sair do cinema achando que não entendeu o filme, pergunte-se: será que eu realmente vi ou só estava lá marcando presença?

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