Crítica | Mestres do Universo - Um filme que nunca consegue decidir se ama sinceramente o universo que está adaptando ou se está apenas zombando dele.
| Divulgação | Sony Pictures |
• Por Alisson Santos
Existe algo profundamente fascinante em filmes que parecem nascer em guerra consigo mesmos. Obras em que cada cena transmite a sensação de que diferentes versões do roteiro continuam brigando dentro da montagem final, como se ninguém envolvido tivesse realmente decidido qual filme queria fazer. Mestres do Universo é exatamente isso; um blockbuster gigantesco, visualmente delirante e tonalmente desgovernado, que alterna constantemente entre homenagem nostálgica, sátira involuntária, aventura infantil e paródia autoconsciente.
O novo longa dirigido por Travis Knight, responsável pelo surpreendentemente sensível Bumblebee, tenta ressuscitar um dos universos mais icônicos da cultura pop dos anos 80 com uma abordagem que, ao mesmo tempo, abraça o absurdo da franquia e parece profundamente envergonhada dele. O resultado é um espetáculo caótico que dificilmente encontra um público específico — e talvez esse seja justamente seu maior problema. A grande pergunta que paira sobre o filme é simples; para quem isso foi feito?
Definitivamente não parece destinado aos fãs originais da animação clássica e da linha de brinquedos da Mattel. Embora exista um carinho evidente pela estética de Eternia, o roteiro infantiliza demais seus conflitos e transforma praticamente todos os personagens em caricaturas autoconscientes. Ao mesmo tempo, também não parece dialogar com o público jovem contemporâneo, acostumado a fantasias épicas mais sofisticadas emocionalmente ou a filmes capazes de equilibrar ironia e sinceridade com mais naturalidade. E, ironicamente, também não funciona totalmente como entretenimento infantil, principalmente por causa de sua duração excessiva, do ritmo cansativo e de algumas piadas de duplo sentido que parecem deslocadas dentro da proposta.
A sensação constante é a de assistir a um projeto construído por comitês criativos que jamais chegaram a um consenso. Isso aparece no tom, na estrutura narrativa e até na forma como os personagens são tratados. Há momentos em que o filme tenta reproduzir a grandiosidade mitológica de algo como Thor ou Duna. Em seguida, abandona qualquer solenidade para fazer humor quase pastelão envolvendo nomes como Fisto, Aríete ou o próprio He-Man, como se o longa estivesse constantemente piscando para o espectador e dizendo: “Nós sabemos que isso é ridículo”. Mas o problema é justamente esse excesso de autoconsciência.
Filmes verdadeiramente memoráveis baseados em propriedades consideradas “cafonas” geralmente funcionam porque acreditam no próprio universo. Speed Racer, das Wachowski, por exemplo, mergulhava completamente em sua estética exagerada sem jamais pedir desculpas por isso. Mestres do Universo, por outro lado, parece incapaz de decidir se quer ser uma fantasia épica sincera ou uma piada de duas horas e vinte minutos.
Narrativamente, o filme começa até de maneira promissora. O prólogo envolvendo o jovem Príncipe Adam sendo enviado à Terra durante a invasão de Eternia pelo Esqueleto sugere uma aventura clássica de fantasia pulp misturada com ficção científica. Quinze anos depois, Adam retorna ao planeta natal para liderar a resistência contra o domínio do vilão. É uma estrutura extremamente simples — quase arquetípica —, mas que poderia funcionar perfeitamente se o roteiro tivesse disciplina.
Infelizmente, o longa sofre de um problema típico de blockbusters modernos; excesso absoluto. Existem personagens demais, explicações demais e humor demais. O filme parece incapaz de respirar. Cada sequência é construída para ser mais barulhenta que a anterior, criando uma experiência visualmente exaustiva. A montagem raramente desacelera para permitir que qualquer emoção realmente exista. Quando finalmente surge um momento potencialmente dramático, ele rapidamente é interrompido por uma piada autorreferencial ou por outra explosão digital. Ainda assim, seria injusto ignorar os méritos visuais do projeto.
| Divulgação | Sony Pictures |
Travis Knight entrega talvez uma das adaptações esteticamente mais fiéis já feitas de uma linha de brinquedos dos anos 80. Eternia é absurdamente colorida, extravagante e estilizada. O design de produção abraça totalmente o exagero do desenho animado clássico e transforma o filme em um verdadeiro desfile de neon, armaduras brilhantes, castelos e criaturas bizarras. Existe algo admirável na coragem visual da produção. Em uma era dominada por blockbusters cinzentos e visualmente homogêneos, Mestres do Universo ao menos possui identidade estética. E isso faz diferença. Mesmo quando o filme desmorona narrativamente, ainda existe prazer em observar a composição visual daquele universo. Knight claramente compreende a iconografia da franquia e sabe como transformar aqueles personagens em imagens cinematográficas impactantes.
No elenco, Nicholas Galitzine faz um trabalho competente como Adam/He-Man. O ator consegue transmitir sinceridade suficiente para impedir que o protagonista se torne completamente descartável, mesmo quando o roteiro o limita a diálogos genéricos sobre destino e heroísmo. Camila Mendes funciona bem como Teela, trazendo uma energia mais pé no chão para um universo deliberadamente exagerado. Idris Elba, apesar de preso ao arquétipo do mentor alcoólatra traumatizado, empresta carisma natural ao personagem.
Mas quem realmente domina o filme é Jared Leto como Esqueleto. Curiosamente, sua performance é justamente aquilo que o restante do longa deveria ter sido; exagerada, teatral e completamente entregue ao absurdo. Leto interpreta o vilão como uma combinação improvável entre ditador cósmico e personagem saído de uma sátira dos anos 90. E, surpreendentemente, funciona. O ator compreende que um antagonista chamado “Esqueleto” não pode ser tratado com realismo sombrio excessivo. Sua atuação abraça o nonsense do universo e encontra humor genuíno nisso.
Ao lado dele, Alison Brie também se destaca como Maligna, funcionando como excelente contraponto cômico para o vilão. Sempre que os dois dividem a tela, o filme finalmente parece encontrar algum senso de identidade própria. O grande problema é que essas boas ideias estão soterradas por uma duração desnecessariamente longa. Mestres do Universo claramente precisava de uma edição mais agressiva. Existem subtramas inteiras que parecem existir apenas para inflar o tempo de tela, além de um terceiro ato interminável que repete convenções genéricas de filmes de super-herói sem acrescentar qualquer impacto dramático real. E isso é particularmente frustrante porque existe um filme interessante escondido ali.
Há momentos em que Travis Knight parece genuinamente interessado em explorar o lado mais estranho e psicodélico daquela mitologia. Em outros, parece preso às exigências industriais de um blockbuster contemporâneo que precisa simultaneamente agradar fãs nostálgicos, vender brinquedos, gerar memes e estabelecer uma franquia cinematográfica futura. O resultado final acaba parecendo menos uma obra com visão criativa definida e mais um produto tentando desesperadamente encontrar relevância comercial.
Ainda assim, mesmo em seus momentos mais equivocados, Mestres do Universo nunca é genérico no sentido visual. É um blockbuster caótico, exagerado e frequentemente constrangedor, mas raramente parece automático. Há personalidade demais — ainda que conflitante. Em uma indústria cada vez mais dominada por filmes produzidos sob fórmulas rígidas e visualmente idênticas, talvez exista algum valor em um projeto tão descontrolado quanto este.
No fim, Mestres do Universo provavelmente encontrará defensores apaixonados, como qualquer filme medíocre. Fãs nostálgicos podem se conectar com sua fidelidade estética. Crianças talvez se encantem com a explosão constante de cores e criaturas. Alguns espectadores certamente abraçarão justamente o tom exagerado que o filme adota em vários momentos. Mas como experiência cinematográfica, o longa permanece preso entre múltiplas identidades. Quer ser épico, mas ri de si mesmo o tempo inteiro. Quer ser engraçado, mas alonga excessivamente suas cenas de ação. Quer homenagear a franquia clássica, mas parece constrangido pela própria existência dela. E talvez essa seja a tragédia central de Mestres do Universo; um filme que nunca consegue decidir se ama sinceramente o universo que está adaptando ou se está apenas zombando dele.
Mestres do Universo estreia quinta-feira nos cinemas.
Avaliação - 5/10
Ihhhhhhhh
ResponderExcluirEu já achei o trailer bobo, se o filme é mais bobo que aquilo...MEU DEUS KKK
ResponderExcluirVamos ver!
ResponderExcluirQuero ver a crítica do Dalenogare desse kk
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