Crítica | Protocolo de Extermínio - Funciona melhor quando assume sua natureza de espetáculo de terror.

Divulgação | Diamond Films

• Por Alisson Santos 

Adam Wingard retorna ao terreno do terror e da ação com Protocolo de Extermínio, um filme que transforma referências ao cinema de gênero dos anos 70 e 80 em uma experiência violenta, estilizada e deliberadamente exagerada. A produção combina supersoldados geneticamente modificados, uma veterana traumatizada e uma pequena comunidade transformada em campo de batalha para construir um espetáculo que alterna momentos de tensão genuína com escolhas narrativas bastante irregulares.

A premissa já deixa clara a intenção. Em uma região desértica e isolada, uma instalação militar secreta perde o controle de um experimento envolvendo supersoldados geneticamente modificados. As criaturas escapam e transformam a população local em alvo. No centro desse caos está Celeste, interpretada por Adria Arjona, uma veterana do Exército que vive afastada do mundo e precisa voltar a usar suas habilidades para proteger a filha e as pessoas ao seu redor.

É justamente essa combinação entre invasão, sobrevivência e ameaça militar que aproxima o filme do cinema de gênero que Wingard ajudou a revitalizar em trabalhos como "O Hóspede" e "Você é o Próximo". Wingard, porém, não está interessado em fazer apenas mais um filme de ação. Protocolo de Extermínio funciona melhor quando assume sua natureza de espetáculo de terror. A direção transforma o deserto em um espaço ameaçador, quase fantasmagórico, enquanto a fotografia explora ambientes áridos, corredores claustrofóbicos e uma atmosfera que parece constantemente anunciar que alguma coisa está prestes a acontecer.

A influência de John Carpenter é evidente, há ecos de "Halloween", "A Bruma Assassina" e "Fuga de Nova York" na maneira como Wingard trabalha o silêncio, a ameaça e o humor estranho. O cineasta não tenta esconder suas referências; pelo contrário, parece se divertir colocando diferentes elementos do cinema fantástico dentro do mesmo liquidificador.

Essa paixão pelo cinema de gênero aparece principalmente na construção dos antagonistas. Os supersoldados não são vilões tradicionais. Eles não precisam de discursos, explicações ou grandes motivações. Sua presença funciona justamente porque parecem máquinas humanas programadas para matar. Quando entram em cena, o filme ganha uma brutalidade quase animalesca. E é aí que Protocolo de Extermínio encontra alguns de seus melhores momentos.

Divulgação | Diamond Films

O filme entende que um inimigo realmente assustador não precisa necessariamente ser sobrenatural. Basta retirar de um ser humano qualquer vestígio de empatia, transformá-lo em uma arma e colocá-lo diante de pessoas comuns. As sequências envolvendo civis e os experimentos militares são particularmente desconfortáveis porque existe uma diferença importante entre enfrentar um monstro e perceber que aquele monstro foi criado por seres humanos.

Infelizmente, o roteiro nem sempre consegue explorar essa ideia com a mesma força com que a apresenta. Simon Barrett, colaborador frequente de Wingard, ajuda a construir um universo cheio de possibilidades, mas Protocolo de Extermínio frequentemente parece mais interessado em sugerir histórias do que desenvolvê-las. Há personagens que parecem preparados para desempenhar funções importantes e acabam subaproveitados. Dan Stevens, por exemplo, interpreta Hans Kammler com uma energia excêntrica que imediatamente chama atenção, mas o personagem poderia ter sido explorado de maneira muito mais profunda. Rebecca Hall também aparece em uma posição que promete muito mais do que o roteiro efetivamente entrega.

O mesmo acontece com Cyrus, vivido por Drew Starkey. Sua introdução é uma das mais extravagantes do longa e parece anunciar um personagem que terá papel decisivo na trama. Entretanto, sua presença acaba funcionando mais como uma engrenagem narrativa do que como alguém com uma trajetória realmente desenvolvida. É uma pena, porque o universo criado por Wingard tem personalidade suficiente para sustentar personagens mais complexos.

Quem consegue carregar o filme é Adria Arjona. Celeste poderia facilmente cair no arquétipo da heroína de ação construída apenas para empunhar armas e enfrentar inimigos, mas Arjona encontra vulnerabilidade por trás da dureza. O passado militar da personagem e suas dificuldades para lidar com a vida fora daquele ambiente ajudam a estabelecer uma mulher que não está simplesmente esperando uma desculpa para voltar à violência.

Sua relação com a filha também funciona como um contraponto importante. Quanto mais o mundo ao redor se transforma em um pesadelo, mais Celeste precisa decidir que tipo de pessoa deseja ser diante daquilo que está acontecendo. Arjona transmite essa tensão sem transformar a personagem em uma caricatura de heroína indestrutível.

Divulgação | Diamond Films

O problema é que o filme parece ter dificuldade em decidir exatamente qual história deseja contar. Em determinados momentos, Protocolo de Extermínio quer ser um terror de perseguição. Em outros, assume completamente a personalidade de um filme de ação exagerado. Também existe uma tentativa de discutir militarização, violência estatal e os perigos de transformar seres humanos em armas. Ao mesmo tempo, Wingard quer brincar com referências, humor absurdo e personagens deliberadamente extravagantes. Individualmente, essas ideias funcionam. Juntas, nem sempre.

A segunda metade deixa essa irregularidade ainda mais evidente. Depois de estabelecer seus monstros como forças praticamente imparáveis, o filme passa a desacelerar consideravelmente. A ameaça permanece, mas a sensação de urgência diminui. O suspense baseado na perseguição começa a se repetir e algumas decisões dos personagens fazem com que a narrativa pareça estar segurando deliberadamente um confronto que o público já sabe que deseja ver.

É nesse ponto que a homenagem a Carpenter se transforma em uma faca de dois gumes. O silêncio, os enquadramentos e a espera podem criar tensão quando utilizados com precisão. Quando prolongados além do necessário, entretanto, produzem o efeito contrário. O que deveria ser suspense começa a parecer hesitação.

Ainda assim, há uma qualidade admirável na maneira como Wingard abraça o exagero. Protocolo de Extermínio não tem vergonha de ser estranho, violento ou eventualmente ridículo. Há momentos em que o filme parece conscientemente interessado em recuperar aquela sensação de assistir a um cinema de gênero feito sem medo de parecer grande demais para a própria história. Essa personalidade é justamente o que impede o longa de ser descartável.

Protocolo de Extermínio estreia em 1° de outubro nos cinemas.

Avaliação - 6/10

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