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• Por Alisson Santos
Na manhã em que Augusto desapareceu, ninguém percebeu.
Isso não era exatamente surpreendente.
Ele morava sozinho, trabalhava sozinho e, por uma coincidência que sempre considerara uma qualidade, conseguira construir uma vida na qual sua ausência não provocava transtorno algum. Não havia filhos esperando por ele, amigos que soubessem seus horários, parentes que telefonassem regularmente. No escritório, seu trabalho era distribuído entre outros funcionários sempre que ele faltava.
Durante anos, Augusto havia considerado aquilo uma forma de liberdade. Naquela manhã, entretanto, descobriu que a solidão podia ser uma coisa bastante diferente quando não era escolhida.
Às oito e quinze, saiu de casa.
A rua estava vazia.
Não vazia como em um domingo ou durante um feriado. Vazia de uma maneira mais completa, quase administrativa. Não havia carros passando, cachorros latindo, pessoas caminhando para o trabalho ou o ruído distante de alguma televisão.
Augusto ficou parado na calçada por alguns segundos.
Depois olhou o relógio.
— Ainda dá tempo.
Não sabia para quê.
Seguiu até o ponto de ônibus.
Esperou vinte minutos.
Nenhum ônibus apareceu.
Então caminhou até o escritório.
A porta estava aberta.
Isso o tranquilizou.
Entrou.
As luzes estavam acesas. Os computadores ligados. A máquina de café funcionava.
Havia apenas uma coisa estranha.
Não havia ninguém.
Augusto caminhou pelos corredores chamando pelos colegas.
— Marcelo?
Nada.
— Patrícia?
Silêncio.
— Tem alguém aí?
Sua própria voz voltou do fundo do corredor.
— Tem alguém aí?
Augusto franziu a testa.
A acústica daquele prédio nunca fora boa o suficiente para produzir eco.
Foi até sua mesa.
Em cima dela havia um envelope branco.
Seu nome estava escrito à mão.
"AUGUSTO FERREIRA"
Ele abriu.
Dentro havia uma folha.
"COMUNICADO DE AUSÊNCIA
Informamos que sua ausência foi devidamente registrada.
Agradecemos a compreensão."
Augusto leu três vezes.
Depois riu.
Não porque fosse engraçado.
Riu porque não encontrou outra reação possível.
Pegou o telefone e ligou para a recepção.
O aparelho tocou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Então alguém atendeu.
— Recursos Humanos.
Augusto ficou em silêncio.
— Alô?
— Quem é?
— Recursos Humanos.
— Eu preciso falar com alguém.
— O senhor já está falando.
— Não, quero dizer... tem alguma coisa errada.
Houve uma pequena pausa.
— Qual é o seu nome?
— Augusto Ferreira.
Outra pausa.
Mais longa.
— Senhor Augusto, sua ausência já foi registrada.
— Eu estou aqui.
— Sim.
— Estou aqui no prédio.
— Isso é impossível.
Augusto sentiu um frio atravessar o corpo.
— Por quê?
— Porque o senhor não está.
A ligação caiu.
Naquele instante, ouviu uma porta bater no andar superior.
Depois outra.
E outra.
Como se alguém estivesse percorrendo os corredores.
Augusto subiu as escadas.
Não encontrou ninguém.
Mas encontrou mais envelopes.
Um em cada porta.
Todos com seu nome.
"AUGUSTO FERREIRA"
Ele abriu o primeiro.
"SEGUNDA NOTIFICAÇÃO
Constatamos que o senhor ainda não foi localizado. Favor comparecer pessoalmente para esclarecimentos."
Augusto amassou o papel.
— Eu estou aqui.
Disse aquilo em voz alta.
As palavras pareceram ridículas.
Ele abriu outro envelope.
"TERCEIRA NOTIFICAÇÃO
Sua insistência em permanecer ausente está causando inconvenientes administrativos."
Foi então que Augusto percebeu que estava com medo.
Não das cartas.
Nem do prédio vazio.
Mas da possibilidade de que houvesse alguma coisa profundamente errada com a palavra "eu".
Naquela noite, voltou para casa.
Todas as portas dos apartamentos do prédio estavam abertas.
Nenhum vizinho.
Nenhuma televisão.
Nenhum som.
Seu apartamento era o único que parecia normal.
Ele trancou a porta.
Ligou todas as luzes.
Sentou-se na cozinha.
Durante alguns minutos, ficou olhando para as próprias mãos.
Depois recebeu uma mensagem.
"SEU PEDIDO FOI RECEBIDO."
Augusto pegou o celular.
Não havia enviado pedido algum.
Outra mensagem chegou.
"PRAZO PARA COMPARECIMENTO: 24 HORAS."
Ele desligou o aparelho.
Cinco segundos depois, o telefone tocou.
Número desconhecido.
Augusto atendeu.
— Alô?
Do outro lado, ouviu sua própria voz.
— Alô?
Ele desligou.
O telefone tocou novamente.
— Não.
Atendeu.
— Augusto?
Era uma voz feminina.
— Quem é?
— Sua esposa.
O coração dele disparou.
— Helena?
Silêncio.
— Onde você está?
— Não sei.
— Você está viva?
— Acho que sim.
Augusto apertou o telefone.
— O que está acontecendo?
— Eles estão procurando você.
— Quem?
— As pessoas.
Ele sentiu um alívio absurdo.
— Onde você está?
A mulher respirou fundo.
— Não importa.
— Claro que importa!
— Augusto, escuta. Se alguém bater na porta, não abra.
— Por quê?
— Porque eles vão perguntar se você é Augusto Ferreira.
Ele ficou em silêncio.
— E o que eu digo?
— Diga que não.
— Mas eu sou.
— Eu sei.
A ligação caiu.
Então alguém bateu na porta.
Três batidas.
Pausadas.
Educadas.
Augusto não se mexeu.
— Senhor Ferreira?
Era um homem.
— Precisamos confirmar sua identidade.
Augusto aproximou-se da porta.
— Quem é?
— Departamento de Localização.
— Não existe nenhum departamento com esse nome.
— Existe agora.
Outra batida.
— Abra, por favor.
Augusto olhou pelo olho mágico.
Havia um homem parado no corredor.
Usava terno cinza.
Era muito alto.
Alto demais.
A cabeça quase tocava o teto.
Seu rosto parecia perfeitamente normal, mas havia alguma coisa errada nele. Não na boca, nem no nariz, nem nos olhos.
Era a expressão.
Ele parecia estar imitando uma pessoa que estivesse tentando parecer preocupada.
— Senhor Ferreira?
Augusto recuou.
— Vá embora.
— Não podemos.
— Por quê?
— Porque o senhor está desaparecido.
Augusto começou a rir.
— Eu estou dentro da minha casa!
O homem permaneceu imóvel.
— Isso não altera o registro.
— Que registro?
— O senhor não existe neste endereço.
Augusto olhou ao redor.
A cozinha.
A mesa.
A geladeira.
As fotografias.
Tudo era seu.
— Eu moro aqui há nove anos.
— O senhor morava.
— Isso é absurdo.
— Concordo.
A resposta o assustou mais do que qualquer outra coisa.
— Então vá embora.
— Não posso.
— Por quê?
O homem inclinou levemente a cabeça.
— Porque agora eu também estou desaparecido.
Augusto ficou imóvel.
— O quê?
O homem deu um passo para trás.
— Boa noite, senhor Ferreira.
— Espere.
Mas o corredor estava vazio.
Na manhã seguinte, Augusto tentou sair da cidade.
Descobriu que todas as estradas levavam de volta ao mesmo lugar.
Pegou um ônibus.
Desceu duas horas depois.
Estava diante do próprio prédio.
Pegou um táxi.
O motorista não respondeu a nenhuma pergunta.
Depois de vinte minutos, parou diante de sua casa.
— Quanto?
O motorista olhou para ele pelo retrovisor.
— Nada.
— Como assim?
— O senhor já pagou.
— Quando?
O motorista sorriu.
— Amanhã.
E foi embora.
Augusto passou a caminhar.
Andou durante horas.
Encontrou uma estação de trem.
Comprou uma passagem.
O bilhete dizia:
"DESTINO: AUSÊNCIA"
— Isso não é um lugar.
A mulher atrás do balcão levantou os olhos.
— É o único lugar disponível.
— Quero outra passagem.
— Para onde?
Augusto abriu a boca.
Não conseguiu responder.
A mulher sorriu.
— Está vendo?
No quarto dia, começaram as visitas.
Pessoas apareciam na porta.
Algumas diziam ser funcionários públicos.
Outras, parentes.
Uma mulher afirmou ser sua mãe.
Sua mãe estava morta havia quinze anos.
Um homem disse ser seu filho.
Augusto nunca tivera filhos.
Uma criança apareceu certa madrugada.
— Pai?
Ele não abriu.
A criança ficou do lado de fora por horas.
— Pai?
Depois de algum tempo, a voz mudou.
Ficou mais grave.
— Augusto?
Depois mais velha.
— Senhor Ferreira?
Depois tornou-se sua própria voz.
— Abra.
Augusto sentou-se no chão.
Tapou os ouvidos.
A voz continuou.
— Você está aí.
No décimo primeiro dia, recebeu uma carta.
Dessa vez, não havia nome.
Apenas uma frase:
"FOI IDENTIFICADO UM ERRO."
Augusto leu.
No verso:
"O SENHOR NÃO DEVERIA TER SIDO ENCONTRADO."
Ele sentiu algo dentro do peito se contrair.
Pela primeira vez desde o início, sentiu esperança.
Se havia um erro, poderia ser corrigido.
Talvez tudo voltasse ao normal.
No dia seguinte, foi ao escritório.
A porta estava aberta.
Os corredores estavam cheios.
Centenas de pessoas trabalhavam.
Conversavam.
Telefonavam.
Digitavam.
Ninguém parecia notar sua presença.
Augusto caminhou até sua mesa.
Sentou.
Ligou o computador.
Havia um arquivo aberto.
"PROCESSO DE LOCALIZAÇÃO — AUGUSTO FERREIRA."
Ele começou a ler.
Data de nascimento.
Endereço.
Emprego.
Fotografia.
Tudo correto.
No final havia uma observação:
"Indivíduo apresenta comportamento incompatível com sua condição de ausência."
Augusto levantou-se.
— Eu estou aqui.
Ninguém respondeu.
Ele gritou.
— EU ESTOU AQUI!
Uma mulher levantou a cabeça.
Olhou diretamente para ele.
Por um instante, Augusto acreditou que finalmente alguém o enxergara.
Ela perguntou:
— Você é Augusto Ferreira?
Ele começou a chorar.
— Sim.
A mulher fez uma anotação.
— Então está tudo resolvido.
— O quê?
— Encontramos você.
Ela pegou um carimbo.
Pressionou-o sobre o documento.
"AUSENTE."
Augusto olhou para o papel.
— Mas eu estou aqui.
A mulher sorriu.
— Isso não muda o resultado.
Hoje faz quarenta e dois dias que Augusto Ferreira foi encontrado.
Seu apartamento continua ocupado.
Suas contas continuam sendo pagas.
Seu trabalho continua sendo realizado.
Seu nome ainda aparece nos documentos.
Existe até uma fotografia dele no escritório.
Mas ninguém sabe dizer quem é o homem na fotografia.
Ele aparece sentado à mesa.
Com uma expressão tranquila.
Como se nunca tivesse desaparecido.
Como se nunca tivesse existido.
E, todas as noites, às três e quinze, o telefone toca no apartamento vazio.
Do outro lado da linha, uma voz pergunta:
— Senhor Ferreira?
E uma segunda voz responde:
— Sim?
Então a primeira pergunta:
— Onde o senhor está?
A resposta é sempre a mesma.
— Aqui.
E, depois de uma longa pausa:
— Isso é impossível.
Na manhã seguinte, chega um novo comunicado.
"AVISO
Informamos que o senhor foi localizado. Caso continue alegando estar presente, será necessário iniciar um novo processo de busca.
Agradecemos sua colaboração."
No rodapé há uma assinatura.
Augusto Ferreira.
A letra é dele.
O problema é que Augusto não se lembra de ter assinado.
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