Fernanda Tovar fala sobre amizade, violência de gênero e esperança em entrevista sobre "Chicas Tristes"

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos

A amizade como forma de acolhimento diante da violência, a dificuldade de encontrar palavras para experiências traumáticas e a possibilidade de reconstruir a própria vida são alguns dos temas que atravessam Chicas Tristes, filme dirigido pela cineasta mexicana Fernanda Tovar. Em entrevista à MDH Entretenimento e Igor do Ó, a realizadora falou sobre os oito anos de desenvolvimento do projeto, a construção da relação entre as protagonistas Paula e Maestra e a importância de contar uma história sobre dor sem abrir mão da esperança.

O longa parte das consequências de uma experiência de violência para investigar como duas jovens lidam com o que aconteceu e encontram apoio uma na outra. Em vez de concentrar toda a narrativa no episódio que transforma suas vidas, Tovar escolhe acompanhar os desdobramentos emocionais e a maneira como a amizade se torna fundamental para enfrentar um período difícil.

A diretora começou a escrever o roteiro cerca de oito anos antes da entrevista. Nesse intervalo, o mundo passou por mudanças significativas, incluindo a pandemia de Covid-19 e a expansão do movimento Me Too, que também ganhou força no México e repercutiu no ambiente cinematográfico do país.

Inicialmente, a cineasta pretendia abordar a violência de maneira mais direta, dando maior espaço às questões sociais e políticas envolvidas. Com o passar dos anos, porém, sua perspectiva se transformou.

“Eu percebi que queria fazer algo mais íntimo, mais pessoal”, explicou Tovar. Para ela, as relações que construímos são fundamentais nos momentos de maior dificuldade, especialmente quando as respostas institucionais não parecem suficientes para transformar a realidade das vítimas.

A mudança de abordagem não significou abandonar a dimensão política da história. Pelo contrário; a diretora passou a enxergar a intimidade e os vínculos afetivos como caminhos para discutir questões sociais sem necessariamente colocar o sistema político no centro da narrativa. A amizade, nesse sentido, também se torna uma forma de resistência.

A AMIZADE COMO CORAÇÃO DA HISTÓRIA 

Embora o roteiro tenha passado por diferentes transformações, a relação entre as duas protagonistas sempre esteve no centro do projeto. Segundo Tovar, desde o início ela sabia que a história precisava ser construída a partir da conexão entre as personagens, e não apenas em torno da violência que atravessa suas vidas.

Para alcançar essa proximidade, a diretora desenvolveu um processo de preparação com as jovens atrizes durante os três meses anteriores às filmagens. O trabalho incluiu exercícios, improvisações e situações que não estavam necessariamente previstas no roteiro.

A proposta era permitir que as intérpretes explorassem suas personagens com liberdade e, principalmente, construíssem uma história compartilhada entre elas. A cineasta considera esse passado em comum essencial para que a amizade apresentada em cena parecesse verdadeira.

“Os relacionamentos têm um passado em comum”, destacou. A preparação ajudou as atrizes a estabelecerem uma intimidade que pudesse aparecer naturalmente durante as filmagens, dando consistência aos gestos, às conversas e às reações das personagens.

O resultado dessa abordagem também está relacionado à maneira como o filme retrata a adolescência. Em vez de assumir uma postura de superioridade diante das jovens intérpretes, Tovar buscou estabelecer um diálogo horizontal, no qual as experiências e percepções de todas fossem consideradas.

A diretora revelou que inicialmente estava apreensiva sobre como conversaria com as atrizes a respeito de assuntos tão delicados. No entanto, percebeu que não precisava explicar a elas questões que já faziam parte de suas reflexões.

Segundo Tovar, os jovens de hoje são muito bem informados, o que permitiu conversas abertas sobre sentimentos e experiências. A troca entre gerações tornou-se, assim, parte importante do desenvolvimento das personagens e da abordagem do filme.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E OS LIMITES DAS PALAVRAS

Outro elemento presente em Chicas Tristes é a inteligência artificial, utilizada para refletir sobre a maneira como os jovens procuram respostas quando não conseguem compreender ou nomear aquilo que estão vivendo.

Para Tovar, a tecnologia oferece uma oposição interessante à inteligência humana. Enquanto a inteligência artificial costuma apresentar definições e respostas imediatas, as pessoas frequentemente não sabem o que dizer diante de experiências complexas.

A diretora quis explorar justamente essa diferença entre oferecer uma explicação e proporcionar acolhimento. Nem sempre é possível encontrar uma definição precisa para o que aconteceu, mas a presença de alguém disposto a ouvir pode fazer diferença.

Na visão da cineasta, o cuidado humano está relacionado a gestos que não podem ser substituídos por uma resposta automática, como um olhar, um toque ou simplesmente permanecer ao lado de outra pessoa.

Essa reflexão ganha força dentro de uma narrativa em que as protagonistas precisam lidar com sentimentos difíceis de traduzir em palavras. Mais do que encontrar uma resposta definitiva, elas precisam descobrir como continuar vivendo e como apoiar uma à outra.

A CANÇÃO DE ALCEU VALENÇA E A CONEXÃO COM O BRASIL

Um dos momentos mais marcantes do filme é acompanhado por uma música de Alceu Valença. A escolha surgiu de maneira espontânea durante o desenvolvimento do projeto e acabou se tornando parte importante da identidade emocional da obra.

Tovar contou que preparou uma playlist de músicas brasileiras para as atrizes, com o objetivo de aproximá-las desse universo musical. Entre as faixas selecionadas estava a canção de Valença, da qual a diretora já gostava.

Durante a montagem, o editor sugeriu utilizar a música em uma cena, inicialmente como referência. A equipe chegou a experimentar outras opções, mas nenhuma conseguiu transmitir a mesma sensação.

A diretora explicou que procurava uma canção capaz de expressar um amor profundo sem necessariamente estar associado a um relacionamento romântico. Para ela, a música carrega uma sensação de expectativa, transformação e esperança, como se algo novo estivesse prestes a acontecer.

A equipe acabou entrando em contato com a esposa do cantor, que conheceu a cena e gostou do resultado. Com o apoio da família do artista, a canção pôde integrar a trilha sonora.

A presença da música também se conecta à relação pessoal de Tovar com o Brasil. Casada com uma brasileira, a diretora explicou que o roteiro já havia sido escrito antes do casamento, mas reconheceu que sua proximidade com o país cresceu ao longo dos anos.

Ela destacou especialmente sua descoberta do cinema brasileiro, com admiração pelo trabalho de documentaristas como Eduardo Coutinho. Ao escolher o Brasil como parte do universo do filme, Tovar também buscava representar um país latino-americano que admirava, em vez de recorrer automaticamente aos Estados Unidos como referência cultural.

A recepção brasileira tem sido especialmente significativa para a realizadora. Ela afirmou que, depois do México, o Brasil era um dos países cujo público mais despertava sua curiosidade, justamente por causa da presença da música e de elementos culturais brasileiros na obra.

“É sempre um desafio falar de um país que não é o seu”, comentou, agradecendo pelo carinho recebido do público brasileir

UMA HISTÓRIA SOBRE CONTINUAR VIVENDO 

Apesar de abordar uma experiência dolorosa, Chicas Tristes não pretende apresentar a violência como o fim definitivo da vida de suas protagonistas. Para Tovar, algumas narrativas sobre esse tipo de experiência acabam transmitindo a ideia de que tudo está perdido depois do trauma.

A diretora queria seguir outro caminho. Sem minimizar a dor ou simplificar a complexidade do que as personagens enfrentam, ela procurou construir um desfecho que deixasse espaço para a possibilidade de seguir em frente.

A mensagem que gostaria de transmitir às adolescentes que se identificarem com Paula ou Maestra é a de que a vida pode continuar, mesmo quando atravessar determinadas experiências parece difícil demais.

“É difícil, mas você vai ficar bem. Confie nas pessoas ao seu redor”, afirmou a cineasta ao falar sobre a esperança que deseja deixar com o público.

A ideia sintetiza a proposta de Chicas Tristes; reconhecer a gravidade da violência sem permitir que ela defina integralmente o futuro de quem a vivencia. Nesse percurso, a amizade aparece não como uma solução mágica, mas como uma presença capaz de tornar a caminhada menos solitário.

Ao final da entrevista, Tovar convidou o público brasileiro a conhecer o longa e celebrou a recepção positiva que a produção vem encontrando no país.

Chicas Tristes tem estreia prevista nos cinemas brasileiros para março de 2027.

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