(MOSTRA SP) Crítica | O Sentido da Vida - Profundamente emocionante, "O Sentido da Vida" é um dos grandes filmes do ano.

Divulgação | Vitrine Filmes

• Por Alisson Santos 

Em O Sentido da Vida, o cineasta japonês Ryūsuke Hamaguchi volta a aquilo que atravessa boa parte de sua filmografia; a dificuldade de compreender o outro, o poder transformador da comunicação e a possibilidade de encontrar algum significado para a existência por meio dos encontros mais inesperados. Exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa de 3 horas e 16 minutos troca as estradas de Drive My Car e as tensões ambientais de O Mal Não Existe por um drama intimista ambientado na França, mas preserva o interesse do diretor pelas contradições humanas.

A narrativa acompanha Marie-Lou Fontaine (Virginie Efira), diretora de uma instituição para idosos que tenta implementar uma abordagem de cuidados baseada na escuta, na empatia e no respeito à dignidade dos residentes. A iniciativa, entretanto, encontra resistência em uma estrutura marcada por limitações financeiras, dificuldades operacionais e profissionais que nem sempre compartilham de sua visão. A situação muda quando ela conhece Mari Morisaki (Tao Okamoto), dramaturga japonesa que enfrenta um câncer em estágio avançado. A partir desse encontro, duas mulheres com trajetórias distintas estabelecem uma conexão que transforma tanto suas perspectivas individuais quanto a maneira como enxergam o mundo ao redor.

O grande mérito de Hamaguchi está em compreender que nem toda transformação precisa nascer de um acontecimento extraordinário. Às vezes, ela começa quando alguém finalmente se dispõe a escutar. Em vez de recorrer a grandes reviravoltas para justificar a aproximação entre as protagonistas, o diretor permite que a relação se desenvolva por meio de conversas, divergências e descobertas graduais. O que poderia ser apenas um drama sobre a amizade diante da morte ganha dimensões políticas e filosóficas, sobretudo quando o cuidado deixa de ser tratado como uma obrigação profissional e passa a representar uma escolha ética diante de uma sociedade que frequentemente reduz as pessoas à sua produtividade.

É nesse aspecto que O Sentido da Vida encontra seu lado mais emocional. O filme confronta uma lógica que transforma até mesmo a assistência aos mais vulneráveis em um problema de eficiência, custos e administração. Ao defender uma abordagem mais humana dentro de uma instituição atravessada por limitações materiais, Marie-Lou enfrenta uma contradição que ultrapassa os muros da casa de repouso. Como oferecer dignidade quando o próprio sistema dificulta as condições necessárias para exercê-la? Hamaguchi não ignora os obstáculos concretos dessa proposta, mas insiste que reconhecer a humanidade de alguém não deveria ser considerado um luxo.

A escolha de colocar o diálogo no centro da narrativa também aproxima o filme de outras obras do realizador, mas aqui a palavra assume uma função particularmente concreta. As personagens não conversam apenas para revelar sentimentos ou explicar suas motivações. Elas conversam para encontrar maneiras de agir sobre a realidade. O intercâmbio entre francês e japonês reforça essa proposta, sugerindo que a compreensão não depende de compartilhar a mesma origem, mas de aceitar que o outro possui experiências, referências e formas de perceber o mundo que não podem ser inteiramente reduzidas às nossas.

Essa dimensão ganha força com a presença de Mari, cuja experiência artística oferece uma perspectiva diferente sobre o trabalho de Marie-Lou. Enquanto a diretora da instituição procura modificar as práticas cotidianas de cuidado, a dramaturga encontra no teatro uma maneira de questionar as estruturas que determinam quem merece autonomia e reconhecimento. A arte, portanto, não surge como um elemento decorativo ou um refúgio distante dos problemas sociais. Ela se torna uma ferramenta para imaginar outras formas de convivência, aproximando pessoas que, em circunstâncias diferentes, talvez nunca tivessem motivos para se encontrar.

Hamaguchi também demonstra sensibilidade ao abordar a velhice e as limitações cognitivas sem transformar seus personagens em meros instrumentos para provocar lágrimas. A existência não perde seu valor quando a memória falha, a comunicação se torna difícil ou a independência diminui. Pelo contrário, o filme encontra nesses momentos uma oportunidade para questionar a maneira como a sociedade determina o que significa estar vivo, ser produtivo ou participar do mundo. Essa perspectiva se estende à doença de Mari, cuja trajetória introduz a mortalidade como uma presença incontornável, mas não permite que ela defina integralmente a personagem.

As atuações de Virginie Efira e Tao Okamoto são fundamentais para sustentar essa proposta. Efira constrói Marie-Lou a partir de uma contenção que revela tanto sua determinação quanto suas dificuldades em lidar com situações que escapam ao seu controle. Já Okamoto imprime a Mari uma serenidade que não elimina a consciência da própria condição, mas tampouco reduz sua personagem à proximidade da morte. A química entre as duas não depende de sentimentalismo excessivo. É justamente na naturalidade das conversas, nos silêncios e nas pequenas mudanças de comportamento que a amizade adquire credibilidade.

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Entretanto, a confiança de Hamaguchi na força de suas ideias também representa uma das limitações do longa. Com mais de três horas de duração, O Sentido da Vida exige disponibilidade para acompanhar discussões filosóficas e políticas que, em determinados momentos, se tornam excessivamente explicativas. A crítica ao capitalismo, à organização do trabalho e à maneira como o tempo individual é consumido por sistemas econômicos surge de forma tão explícita que algumas cenas parecem interromper a naturalidade da narrativa para apresentar suas conclusões. Em vez de permitir que todas as ideias amadureçam exclusivamente por meio das ações das personagens, o roteiro ocasionalmente sente a necessidade de verbalizá-las em excesso.

O problema não está na ambição intelectual do cineasta, mas na insistência com que ele procura tornar suas convicções compreensíveis. A delicadeza das relações que constrói é, por vezes, enfraquecida pela necessidade de transformar essas mesmas relações em demonstrações de uma tese. Além disso, a generosidade com que o filme encara seus personagens faz com que alguns conflitos pareçam menos contundentes do que poderiam ser. A realidade que Hamaguchi apresenta é dura, mas sua narrativa frequentemente encontra maneiras de suavizar os obstáculos, preservando uma esperança que nem sempre corresponde à complexidade das situações discutidas.

Ainda assim, seria um equívoco confundir essa fragilidade com ingenuidade. O otimismo do diretor não nasce da crença de que boas intenções são suficientes para resolver problemas estruturais. Ele nasce da possibilidade de que pequenas mudanças nas relações humanas produzam consequências que ultrapassem seus pontos de partida. Um gesto de atenção pode modificar a experiência de alguém; uma conversa pode alterar a maneira como percebemos uma situação; uma amizade pode oferecer condições para que pessoas antes isoladas encontrem novas formas de participação. Nada disso elimina as estruturas injustas, mas impede que elas sejam tratadas como verdades imutáveis.

No fim, O Sentido da Vida é um filme sobre a responsabilidade que temos uns com os outros, mesmo quando não dispomos de respostas definitivas para as questões que nos cercam. Hamaguchi talvez confie demais na capacidade de seus personagens de transformar reflexão em ação, e sua narrativa poderia se beneficiar de maior concisão. Porém, sua aposta na escuta, na dignidade e na arte como instrumentos de transformação permanece genuína. Em um mundo que frequentemente trata o cuidado como desperdício de tempo e a vulnerabilidade como inconveniente, o cineasta encontra força na defesa de tudo aquilo que não pode ser medido por eficiência ou retorno financeiro.

Mais do que oferecer uma resposta para a pergunta de seu título, o longa sugere que o sentido da vida não é uma descoberta individual, escondida em algum lugar à espera de ser encontrada. Ele se constrói nas relações que estabelecemos, no tempo que dedicamos aos outros e na disposição de reconhecer que uma existência continua sendo valiosa mesmo quando já não pode corresponder às expectativas do mundo. É uma conclusão generosa, por vezes excessivamente didática, mas que encontra na sensibilidade de suas protagonistas uma força capaz de transcender suas limitações.

O Sentido da Vida confirma Ryūsuke Hamaguchi como um cineasta interessado em investigar não apenas o que nos separa, mas também o que ainda torna possível a convivência. Mesmo quando suas ideias se sobrepõem à sutileza dramática, o filme encontra beleza na tentativa de imaginar uma sociedade em que cuidar de alguém não seja uma exceção admirável, mas uma responsabilidade compartilhada.

O Sentido da Vida está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 9/10

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