| Divulgação | Imagem Filmes |
• Por Alisson Santos
Há filmes cuja grandiosidade está naquilo que contam, enquanto outros impressionam principalmente pela maneira como constroem seus mundos. O Bosque Selvagem, nova produção do estúdio Laika dirigida por Travis Knight, consegue reunir essas duas dimensões, ainda que com resultados desiguais. Apostando em uma fantasia sombria, repleta de criaturas extraordinárias, conflitos políticos e uma jornada de amadurecimento, o longa reafirma a capacidade do estúdio de transformar o stop-motion em uma experiência cinematográfica de escala impressionante. Mesmo quando a narrativa recorre a caminhos previsíveis, a riqueza visual e o cuidado com os personagens tornam a aventura uma experiência difícil de ignorar.
A história acompanha Prue, uma garota de 12 anos que tem sua vida transformada quando seu irmão mais novo, Mac, é sequestrado por corvos misteriosos. Determinada a resgatá-lo, ela atravessa os limites de Portland e chega a uma floresta encantada habitada por animais falantes, comunidades rivais e figuras envolvidas em uma disputa pelo poder. Acompanhada por Curtis, um colega que inicialmente parece pouco preparado para os perigos dessa jornada, Prue precisa compreender as regras daquele universo e enfrentar forças que ameaçam muito mais do que sua própria família.
A premissa recupera elementos bastante conhecidos da fantasia infantojuvenil. A protagonista que descobre um mundo oculto, as diferentes facções que disputam território e a antagonista movida por uma tragédia pessoal são componentes familiares do gênero. O problema não está em recorrer a essas convenções, mas na dificuldade que o roteiro encontra para subvertê-las. Embora o universo seja rico em possibilidades, a narrativa frequentemente segue uma trajetória previsível, conduzindo seus personagens a conflitos e alianças que raramente surpreendem. A quantidade de informações sobre a mitologia da floresta também pode tornar a experiência excessivamente carregada, especialmente quando as explicações sobre suas comunidades, profecias e relações de poder interrompem o ritmo da aventura.
Essa liberdade criativa se torna ainda mais evidente quando o filme é colocado em perspectiva com o livro homônimo de Colin Meloy, ilustrado por Carson Ellis. A adaptação não se limita a condensar os acontecimentos da obra literária para o cinema, mas toma decisões que alteram significativamente diferentes aspectos da história, inclusive sua condução e seu desfecho. Para quem conhece o material original, essas mudanças podem causar estranhamento, sobretudo porque modificam a maneira como determinados acontecimentos são apresentados e como a jornada de Prue chega à sua conclusão. A escolha de Travis Knight demonstra que a intenção não é reproduzir fielmente cada passagem do livro, mas reinterpretar esse universo para uma experiência cinematográfica própria. Ainda assim, a distância em relação à obra original pode dividir os fãs, especialmente aqueles que esperavam encontrar na tela a mesma progressão narrativa e as mesmas resoluções do texto de Meloy.
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Apesar dessas diferenças, existe uma identidade visual muito particular que impede o filme de parecer apenas mais uma fantasia derivada de referências conhecidas. A direção de Travis Knight encontra maneiras de conferir personalidade a esse universo, principalmente por meio da construção visual e da atenção dedicada aos detalhes. A floresta não funciona apenas como cenário para a jornada de Prue, mas como um ambiente com história, texturas e formas de vida que parecem existir para além dos limites da tela. Cada território apresenta características próprias, enquanto a variedade de criaturas e paisagens contribui para a sensação de que a protagonista está atravessando um mundo verdadeiramente vasto.
É nesse aspecto que O Bosque Selvagem demonstra sua maior força. O trabalho artesanal da Laika transforma folhas, galhos, pelos, expressões e movimentos em elementos fundamentais da experiência. Em vez de depender exclusivamente da grandiosidade dos cenários, o filme também encontra beleza nos gestos mais discretos. Uma hesitação, uma mudança de postura ou uma expressão quase imperceptível podem comunicar sentimentos que o diálogo não precisa explicar. Essa atenção à linguagem corporal faz com que os bonecos adquiram presença emocional, reforçando a impressão de que há personagens vivos por trás de cada movimento cuidadosamente construído.
A dimensão física da animação também ganha destaque nas sequências de ação. O confronto entre os exércitos representa um dos momentos mais impressionantes da produção, combinando coreografia elaborada, cenários minuciosos e uma violência que confere peso aos acontecimentos. Os golpes não parecem meros movimentos abstratos, pois cada colisão transmite uma sensação concreta de impacto. A escolha de não suavizar completamente a brutalidade dos conflitos também diferencia o longa de muitas animações familiares mais convencionais. Embora a intensidade possa surpreender parte do público, ela contribui para estabelecer as consequências de uma disputa que não pode ser resolvida apenas com discursos sobre amizade e união.
Essa abordagem mais sombria encontra um contraponto interessante na construção da antagonista, a Governanta Viúva, interpretada vocalmente por Carey Mulligan. Marcada pela perda do filho, a personagem transforma o próprio sofrimento em instrumento de poder, assumindo uma posição que ultrapassa a figura da vilã simplesmente maligna. O luto oferece uma motivação compreensível para suas escolhas, ainda que o filme nem sempre aprofunde as contradições dessa transformação. A dor, a ambição e a corrupção aparecem como temas relevantes, mas permanecem, em determinados momentos, limitados pelas convenções de uma fantasia que precisa conduzir rapidamente seus personagens ao confronto decisivo.
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No centro de tudo está a relação de Prue com o irmão. É a urgência desse vínculo que dá sentido à travessia e impede que a mitologia do universo se torne um fim em si mesma. A protagonista precisa lidar com o medo, a insegurança e a responsabilidade de avançar por um território que não compreende. Curtis, por sua vez, acrescenta outra perspectiva à aventura, embora a dinâmica entre os dois nem sempre receba o desenvolvimento necessário para alcançar todo o seu potencial emocional. Em alguns trechos, a quantidade de acontecimentos e personagens secundários faz com que a jornada pessoal de Prue perca espaço para as exigências da construção desse mundo fantástico.
As alterações em relação ao livro também influenciam a percepção do arco dramático da protagonista. Ao modificar acontecimentos e encaminhar a conclusão por caminhos próprios, o filme estabelece outra relação entre a aventura, os conflitos que a sustentam e o amadurecimento de Prue. Essa abordagem pode funcionar para quem encara a adaptação como uma obra independente, mas também evidencia algumas fragilidades do roteiro. Quando a narrativa precisa resolver suas disputas e concluir tantas linhas dramáticas, certas passagens parecem apressadas, como se a dimensão do universo criado pela Laika exigisse mais espaço do que a história consegue oferecer.
Apesar dessas limitações, seria injusto avaliar O Bosque Selvagem apenas pela previsibilidade de seu roteiro ou pelas diferenças em relação à obra literária. A animação artesanal não funciona como um simples adorno para uma história convencional, mas como a principal ferramenta expressiva do filme. A materialidade dos cenários, as imperfeições cuidadosamente preservadas e a expressividade dos bonecos produzem uma sensação de presença que diferencia a obra de experiências visuais mais padronizadas. Não se trata de afirmar que o stop-motion é necessariamente superior à animação digital, mas de reconhecer como uma técnica específica pode imprimir personalidade a cada escolha artística.
No fim, O Bosque Selvagem é uma realização extraordinária do ponto de vista técnico e artístico, mesmo sem alcançar a mesma inventividade em sua narrativa. A previsibilidade de determinados conflitos, o excesso de informações e as mudanças significativas em relação ao livro impedem que a aventura seja tão surpreendente quanto seu universo sugere. Para os leitores de Colin Meloy, a adaptação exige disposição para aceitar uma interpretação que se afasta do material original até chegar ao final. Para os demais espectadores, essas diferenças talvez sejam menos determinantes diante da força das imagens e da fisicalidade das sequências de ação.
O Bosque Selvagem estreia em 29 de outubro nos cinemas.
Avaliação - 8/10
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