Jeong Ji-hye aborda preconceito, adolescência e exposição nas redes sociais em Lua Cheia, drama sul-coreano exibido na Mostra de São Paulo
| Divulgação | MDH Entretenimento |
• Por Alisson Santos
O desejo de ser reconhecida pelos outros e o medo de revelar aquilo que se considera motivo de vergonha são sentimentos que frequentemente acompanham a adolescência. Em Lua Cheia, drama sul-coreano dirigido por Jeong Ji-hye, essas contradições ganham uma dimensão ainda mais delicada ao acompanhar Hae-mi (Jung Min-ju), uma garota de 16 anos que sonha em ocupar o centro das atenções no grupo de dança de sua escola, mas faz de tudo para esconder a própria família.
Exibido na Competição Novos Diretores da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa-metragem parte de uma situação bastante particular para construir uma reflexão sobre pertencimento, preconceito, autonomia e os conflitos emocionais que surgem durante o amadurecimento. Hae-mi vive com os pais, que possuem deficiências intelectuais, e assume responsabilidades que ultrapassam aquelas normalmente esperadas de uma adolescente. Embora tenha carinho pela família, ela teme que a condição dos pais se torne conhecida por seus colegas e prejudique a maneira como é vista socialmente.
A situação começa a sair de seu controle durante o Festival da Lua Cheia, uma celebração tradicional sul-coreana. Um acidente com seu figurino durante uma apresentação de dança provoca conflitos com as amigas e desencadeia uma série de acontecimentos que ameaçam a imagem cuidadosamente construída pela jovem. A situação se complica ainda mais quando sua mãe começa a se envolver com as redes sociais e passa a aparecer em vídeos que ganham visibilidade na internet.
Ao conversar com a MDH Entretenimento e Igor do Ó, Jeong Ji-hye explicou que a dualidade de Hae-mi foi um dos principais elementos que orientaram a construção visual e narrativa do filme. Para a cineasta, a protagonista deseja ser vista e reconhecida, mas, ao mesmo tempo, não consegue lidar com a possibilidade de que sua família também seja exposta.
A diretora encontrou nos ambientes domésticos e no palco duas representações importantes desse conflito. Enquanto a casa deveria funcionar como um lugar de acolhimento e segurança, ela também pode assumir a aparência de uma prisão emocional. Já o palco representa o desejo de Hae-mi de ocupar uma posição de destaque, ainda que essa necessidade de reconhecimento esteja diretamente relacionada às inseguranças que carrega.
Essa contradição também aparece na maneira como a personagem se relaciona com a própria apresentação. Jeong Ji-hye destacou que, em determinado momento, Hae-mi permanece embaixo do palco, em vez de ocupar o centro da estrutura. A escolha reforça a transformação da personagem e a possibilidade de encontrar outras maneiras de se reconhecer, sem depender exclusivamente da aprovação alheia.
AS REDES SOCIAIS ENTRE A EXPOSIÇÃO E O PERTENCIMENTO
Outro elemento fundamental da narrativa é a presença das redes sociais, que deixam de ser apenas um recurso contemporâneo para assumir uma função importante no desenvolvimento emocional da protagonista. A mãe de Hae-mi começa a descobrir possibilidades de interação na internet, enquanto a filha enxerga essa exposição como uma ameaça à privacidade que tanto tenta preservar.
Questionada sobre como encontrou o equilíbrio entre retratar o preconceito e apresentar as possibilidades de amizades genuínas no ambiente digital, Jeong Ji-hye explicou que as redes sociais eram indispensáveis para uma história protagonizada por adolescentes da geração atual.
Segundo a cineasta, inicialmente, Hae-mi sente vergonha da maneira como os pais se expõem na internet. Entretanto, ao longo da narrativa, a personagem começa a compreender que aquele espaço também pode proporcionar encontros com pessoas que compartilham experiências semelhantes. A internet, portanto, não é apresentada exclusivamente como um ambiente de julgamento e violência, mas também como uma possibilidade de conexão e identificação.
Essa mudança de perspectiva acompanha o amadurecimento da protagonista. Ao perceber que outras pessoas podem encontrar acolhimento nas mesmas plataformas que ela considera perigosas, Hae-mi passa a questionar suas próprias convicções e a maneira como enxerga a família.
UMA CÂMERA QUE ACOMPANHA OS SENTIMENTOS DOS PERSONAGENS
A construção visual de Lua Cheia também merece atenção. Durante a entrevista, o diretor de fotografia Jung Jin-hyeok comentou sobre as escolhas feitas para equilibrar os ambientes mais fechados da casa com os espaços abertos das apresentações e das atividades dos adolescentes.
Segundo ele, uma das principais preocupações durante a preparação foi não aprisionar os personagens dentro do enquadramento. Como o filme também contou com intérpretes sem experiência profissional, a equipe buscou uma abordagem que permitisse maior espontaneidade diante da câmera.
Em vez de exigir que os atores se adaptassem constantemente à posição da câmera, a proposta foi fazer com que a própria câmera acompanhasse os movimentos e as emoções dos intérpretes. Dessa maneira, a fotografia poderia preservar a naturalidade das interações e evitar que a presença do equipamento interferisse nas performances.
A escolha dialoga diretamente com a proposta de Jeong Ji-hye de construir uma história intimista, na qual os sentimentos nem sempre precisam ser verbalizados. A câmera observa as relações, acompanha os conflitos e permite que pequenos gestos revelem aquilo que os personagens têm dificuldade de expressar.
A fotografia, assinada por Jung Jin-hyeok, e a música de Lee Min-hwi também contribuem para essa atmosfera de proximidade. A própria apresentação do filme no Festival Internacional de Cinema de Busan destacou a fotografia despojada e a música como elementos que funcionam quase como uma linguagem íntima dentro da narrativa.
O SIGNIFICADO DO FESTIVAL DA LUA CHEIA
A celebração que dá título ao longa também possui um significado especial para a diretora. O Jeongwol Daeboreum é uma festividade tradicional coreana realizada na primeira lua cheia do calendário lunar, associada a desejos de prosperidade, saúde e boas energias para o início do ano.
Na entrevista, Jeong Ji-hye contou que a celebração retratada no filme foi recriada a partir de uma experiência pessoal. A cineasta utilizou como referência uma festividade realizada em sua própria cidade natal. Quando havia se mudado para aquela região, ainda se sentia como uma pessoa de fora, mas sua participação no evento fez com que experimentasse um sentimento muito forte de pertencimento à comunidade.
Essa lembrança acabou influenciando diretamente a maneira como a celebração foi incorporada à história de Hae-mi. A diretora enxergou no festival uma oportunidade de representar a relação entre indivíduo e comunidade, especialmente quando a protagonista começa a enfrentar conflitos com as amigas e com as pessoas ao seu redor.
O contraste é significativo; uma festividade que simboliza união, renovação e prosperidade se transforma no cenário de uma ruptura na vida da adolescente. É justamente nesse momento que as estruturas que sustentavam sua imagem começam a desmoronar.
O Festival da Lua Cheia, portanto, não funciona apenas como pano de fundo cultural. Ele estabelece uma relação entre a experiência individual da protagonista e os vínculos coletivos que podem oferecer acolhimento, mesmo quando ela acredita não pertencer completamente àquele ambiente.
UMA HISTÓRIA SOBRE APRENDER A NÃO ESCONDER QUEM SE AMA
O segundo longa-metragem de Jeong Ji-hye, depois de Jeongsun (2022), Lua Cheia encontra sua força na maneira como observa as contradições da adolescência sem reduzir sua protagonista a uma personagem simplesmente egoísta ou ingrata. Hae-mi deseja viver experiências comuns à sua idade, construir amizades e ser reconhecida por suas habilidades, mas carrega responsabilidades familiares que dificultam essa liberdade.
Um dos aspectos mais interessantes da história é justamente a tensão entre o desejo de proteger os pais e a necessidade de permitir que eles também tenham suas próprias experiências. A vergonha de Hae-mi não surge necessariamente da falta de amor, mas do medo de ser julgada por uma sociedade que estabelece expectativas muito rígidas sobre o que deve ser considerado uma família convencional.
Ao colocar uma adolescente no centro dessa discussão, o filme também questiona até que ponto a responsabilidade de proteger pessoas com deficiência pode acabar se transformando em uma forma de limitar sua autonomia. A mãe, por exemplo, não deseja necessariamente ser escondida; ela também quer participar do mundo, conhecer pessoas e experimentar novas possibilidades.
Essa abordagem ganha ainda mais importância quando observamos que o longa não trata as redes sociais como a única origem do preconceito, mas como um ambiente capaz de amplificar julgamentos que já existem fora das telas.
Lua Cheia propõe, assim, uma reflexão sensível sobre aceitação, amadurecimento e pertencimento. Mais do que acompanhar uma garota que deseja ocupar o centro de um palco, Jeong Ji-hye constrói uma história sobre alguém que precisa descobrir que não é necessário esconder as próprias origens para merecer reconhecimento. Afinal, encontrar seu lugar no mundo também significa permitir que as pessoas que amamos ocupem o delas.
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