(MOSTRA SP) Crítica | Chicas Tristes - Transforma uma história de violência sexual em um retrato sensível sobre amizade, amadurecimento e as diferentes maneiras de lidar com um trauma.

Divulgação | Alpha Violet

• Por Alisson Santos 

Em seu primeiro longa-metragem, a cineasta mexicana Fernanda Tovar transforma uma história de violência sexual em um retrato sensível sobre amizade, amadurecimento e as diferentes maneiras de lidar com um trauma. Premiado com o Urso de Cristal de Melhor Filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional na seção Generation 14plus do Festival de Berlim de 2026, Chicas Tristes encontra sua força justamente na recusa em transformar uma experiência dolorosa em um espetáculo de sofrimento.

Paula e La Maestra são duas adolescentes de 16 anos, melhores amigas e nadadoras que compartilham sonhos, confidências e a expectativa de participar de uma competição no Brasil. A rotina das jovens é marcada pela leveza típica dessa fase da vida, entre brincadeiras, descobertas afetivas e planos para o futuro. Entretanto, uma festa muda a relação de Paula com o próprio corpo e com o mundo ao seu redor. Depois de sofrer violência sexual por parte de um colega, ela precisa enfrentar sentimentos que nem sequer consegue compreender completamente, enquanto sua melhor amiga tenta encontrar uma maneira de ajudá-la.

O grande mérito de Tovar está em compreender que o trauma não se manifesta de maneira uniforme. Enquanto Paula deseja permanecer em silêncio, tentando assimilar o que aconteceu sem necessariamente transformar sua experiência em uma denúncia pública, La Maestra reage com indignação e um desejo de justiça que, em determinados momentos, se aproxima da vingança. O contraste entre as duas evidencia uma questão fundamental; a intenção de proteger alguém não significa, automaticamente, saber do que essa pessoa precisa. Mesmo quando nasce do afeto, a tentativa de resolver a dor alheia pode acabar se tornando mais uma fonte de conflito.

A direção também demonstra segurança ao escolher o que mostrar e, principalmente, o que deixar fora de campo. A violência não precisa ser explicitada para que suas consequências se tornem perceptíveis. Tovar desloca o olhar para silêncios desconfortáveis e as mudanças sutis no comportamento de Paula. A piscina, inicialmente associada à liberdade, à disciplina e aos sonhos compartilhados, passa a carregar outro significado, refletindo a dificuldade da jovem de retomar uma rotina que já não parece pertencer inteiramente a ela. A fotografia de Rosa Hadit Hernández contribui para essa transformação, utilizando o espaço e os corpos das protagonistas como extensões de seus estados emocionais.

Divulgação | Alpha Violet

As interpretações de Darana Álvarez e Rocío Guzmán são fundamentais para sustentar essa abordagem. Álvarez constrói Paula a partir de uma vulnerabilidade, sem transformar a personagem em uma representação unidimensional da vítima. Guzmán, por sua vez, expressa a urgência de La Maestra, uma adolescente que deseja fazer justiça, mas ainda não possui maturidade suficiente para compreender todas as contradições envolvidas em ajudar alguém que ama. A química entre as duas torna convincente a intimidade construída antes da ruptura e, consequentemente, faz com que os conflitos posteriores tenham um peso genuíno.

Entretanto, a contenção que torna o filme tão sensível também representa uma de suas limitações. Em determinados momentos, a narrativa parece permanecer tempo demais no mesmo estado emocional, fazendo com que algumas passagens percam força. A recusa em oferecer respostas fáceis é coerente com a proposta, mas nem sempre o ritmo acompanha a complexidade das questões levantadas. Além disso, a insistência em determinados recursos simbólicos ocasionalmente deixa transparecer o esforço da direção para conferir uma dimensão poética ao sofrimento das personagens.

Ainda assim, Chicas Tristes encontra seu maior acerto ao não confundir recuperação com esquecimento. A amizade entre Paula e La Maestra não funciona como uma solução mágica para o trauma, tampouco elimina as diferenças entre elas. O que existe é a possibilidade de reconstruir um vínculo que também foi afetado pelo acontecimento, reconhecendo que cuidar de alguém exige mais do que oferecer respostas ou tomar decisões em seu lugar. O desfecho preserva essa ambiguidade e evita a falsa impressão de que uma experiência tão devastadora pode ser encerrada por meio de uma única atitude.

Em sua estreia na direção de longas-metragens, Fernanda Tovar demonstra sensibilidade ao abordar a violência sexual na adolescência sem reduzir suas protagonistas à dor que experimentam. Mesmo com algumas oscilações de ritmo, a cineasta entrega um drama delicado e emocionalmente honesto, interessado menos em apontar um caminho definitivo para a superação do que em compreender a dificuldade de continuar vivendo depois de uma ruptura. No fim, Chicas Tristes é um filme sobre a necessidade de escutar antes de agir e sobre como, diante de uma dor que não pode ser desfeita, a presença de alguém disposto a permanecer ao nosso lado pode fazer toda a diferença.

Chicas Tristes está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 7/10

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