(MOSTRA SP) Crítica | A Morte Não Tem Dono - Apresenta uma perspectiva interessante sobre a herança colonial e a permanência de estruturas de dominação na Venezuela contemporânea.
| Divulgação | Lucky Number |
• Por Alisson Santos
A Morte Não Tem Dono, de Jorge Thielen Armand, mistura suspense, horror e elementos de faroeste para discutir a disputa pela terra, os privilégios de classe e a violência que atravessa a história da Venezuela. O longa acompanha Caro, interpretada por Asia Argento, que retorna ao país para vender a plantação de cacau herdada do pai, mas descobre que antigos funcionários da família ocupam a propriedade e não pretendem abandoná-la. O conflito transforma uma negociação aparentemente simples em um confronto cada vez mais perturbador, no qual a noção de propriedade se torna inseparável de uma história de exploração e desigualdade.
O maior mérito de Jorge Thielen Armand está em transformar o espaço físico em uma extensão do conflito. A mansão deteriorada, a umidade, a vegetação e os sons que atravessam o ambiente contribuem para uma sensação permanente de ameaça. A fotografia de Luis Armando Arteaga e o desenho sonoro constroem um cenário sufocante, como se a própria terra guardasse as marcas de uma violência que os personagens tentam ignorar ou perpetuar. É nesse terreno sensorial que o filme encontra sua identidade mais forte.
A escolha de acompanhar Caro, uma mulher criada na Itália que retorna à Venezuela para reivindicar uma propriedade familiar, também é significativa. Em vez de apresentar a herdeira como uma protagonista convencional, o diretor expõe progressivamente sua dificuldade de reconhecer os direitos e a existência daqueles que permaneceram naquele lugar. A personagem não está apenas tentando recuperar um patrimônio, mas reafirmando uma lógica de poder herdada de sua família. O passado colonial, nesse sentido, não aparece como uma questão encerrada, e sim como uma estrutura que continua determinando quem pode ocupar a terra e quem é tratado como intruso.
Asia Argento sustenta essa figura desconfortável, enquanto Dogreika Tovar, como Sonia, oferece um contraponto importante. A relação entre as duas evidencia o abismo social que atravessa a narrativa, embora o roteiro nem sempre consiga desenvolver seus personagens para além das posições que ocupam nesse embate.
| Divulgação | Lucky Number |
O problema é que a ambição temática nem sempre encontra correspondência na construção dramática. Ao combinar horror, suspense psicológico e faroeste, Armand estabelece uma atmosfera interessante, mas nem todas as transições entre esses gêneros funcionam com a mesma precisão. Os momentos de estranhamento nem sempre aprofundam o mistério, e algumas passagens parecem excessivamente preocupadas em reforçar o simbolismo da narrativa. Com isso, o ritmo se torna irregular e o conflito perde força justamente quando deveria ganhar complexidade.
A violência, por sua vez, representa tanto a consequência da disputa quanto a expressão de um sistema que se reproduz por meio da força. O filme sugere que não existe uma resolução simples para uma história construída sobre exploração, ressentimento e desigualdade. Entretanto, sua insistência em acumular imagens perturbadoras nem sempre produz o impacto desejado. Em determinados momentos, a brutalidade parece mais eficaz como recurso visual do que como desdobramento de personagens que o roteiro poderia explorar melhor.
Ainda assim, A Morte Não Tem Dono apresenta uma perspectiva interessante sobre a herança colonial e a permanência de estruturas de dominação na Venezuela contemporânea. Jorge Thielen Armand demonstra personalidade ao combinar referências de cinema de gênero com uma reflexão política, mas a força de suas imagens acaba sendo maior do que a consistência de sua narrativa. O resultado é um filme incômodo e visualmente marcante, que encontra na atmosfera seu principal trunfo, embora não consiga transformar todas as suas ideias em um drama igualmente envolvente. A morte pode não ter dono, mas, neste universo, a disputa pelo direito de possuir a terra continua alimentando um ciclo de violência difícil de interromper.
A Morte Não Tem Dono está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Avaliação - 6/10
Comentários
Postar um comentário