(MOSTRA SP) Crítica | Fjord - O resultado é um filme desconfortável, que exige do espectador disposição para rever suas próprias convicções sem oferecer a segurança de uma resposta simples.
| Divulgação | Diamond Films |
• Por Alisson Santos
O cineasta romeno Cristian Mungiu volta a investigar as contradições morais das sociedades contemporâneas em Fjord, um thriller jurídico que coloca uma família cristã conservadora no centro de um conflito com as instituições norueguesas de proteção à infância. Com Sebastian Stan e Renate Reinsve nos papéis principais, o longa constrói um embate no qual as fronteiras entre proteção, preconceito e abuso de poder se tornam cada vez mais difíceis de distinguir.
A história acompanha Mihai e Lisbet Gheorghiu, um casal que deixa a Romênia para viver na Noruega com os cinco filhos. A aparente tranquilidade da mudança é interrompida quando Elia, a filha mais velha, aparece na escola com hematomas. A suspeita de violência doméstica leva as autoridades a intervir, e as crianças são afastadas dos pais enquanto o caso é investigado. A partir desse momento, a narrativa ultrapassa a busca por uma explicação para as marcas e passa a questionar o quanto as diferenças culturais e religiosas podem influenciar a maneira como uma família é julgada.
Mungiu encontra força justamente nessa ampliação do conflito. Em vez de transformar o caso em um mistério convencional, no qual basta reunir evidências para chegar a uma conclusão definitiva, o diretor constrói um cenário de incerteza, no qual cada gesto pode alimentar uma suspeita e cada posicionamento parece revelar mais sobre os preconceitos de quem julga do que sobre a verdade dos acontecimentos. O resultado é um filme desconfortável, que exige do espectador disposição para rever suas próprias convicções sem oferecer a segurança de uma resposta simples.
Um dos aspectos mais interessantes de Fjord é a maneira como aborda o conflito entre uma sociedade que se apresenta como progressista e uma família cujos valores não correspondem inteiramente às normas predominantes. O filme não ignora a gravidade das suspeitas de violência infantil, mas questiona até que ponto a proteção das crianças pode se misturar à tentativa de corrigir comportamentos considerados inadequados. A religião, nesse contexto, deixa de ser apenas uma expressão da fé e se torna um elemento central na disputa por legitimidade, pertencimento e autoridade sobre a criação dos filhos.
Essa abordagem, contudo, não está livre de problemas. Ao enfatizar o preconceito contra os protagonistas, o roteiro por vezes parece mais interessado em sustentar a tensão entre diferentes sistemas de valores do que em aprofundar as evidências que motivam a investigação. As pistas que poderiam esclarecer o caso são abandonadas ou desenvolvidas de maneira insuficiente, e a ambiguidade, embora seja importante para a proposta, ocasionalmente dá a impressão de esconder informações que ajudariam a tornar o conflito mais consistente. A indefinição deixa de ser exclusivamente provocadora e se transforma, em alguns momentos, em uma limitação narrativa.
Ainda assim, o diretor demonstra habilidade ao mostrar como relações pessoais podem desmoronar diante de uma controvérsia. A proximidade entre os Gheorghiu e seus vizinhos torna o conflito particularmente doloroso, pois evidencia como a convivência e o afeto nem sempre resistem quando entram em cena julgamentos morais e pressões sociais. Pessoas que antes compartilhavam momentos cotidianos passam a enxergar a família por meio das acusações que a cercam. Nesse processo, Fjord revela uma sociedade em que a confiança pode ser substituída rapidamente pela suspeita.
| Divulgação | Diamond Films |
As atuações contribuem decisivamente para essa atmosfera. Renate Reinsve encontra em Lisbet uma figura vulnerável, mas não desprovida de convicções, enquanto Sebastian Stan entrega uma interpretação marcada pela contenção. Seu Mihai transmite frustração, tristeza e ressentimento sem precisar recorrer constantemente a explosões emocionais. Há algo de interessante na maneira como o personagem administra a própria indignação, embora essa reserva também alimente as suspeitas que recaem sobre ele. O filme se beneficia dessa ambivalência, pois seus protagonistas nunca são apresentados de maneira inteiramente confortável para o público.
A fotografia de Tudor Vladimir Panduru reforça a sensação de isolamento. As paisagens norueguesas, apesar de sua beleza, são envolvidas por uma paleta fria e acinzentada que transforma o cenário em uma extensão da hostilidade enfrentada pela família. A presença de uma montanha sujeita a avalanches, próxima à escola das crianças, funciona como uma metáfora visual para a instabilidade que atravessa a narrativa. Sob a aparência de tranquilidade daquela comunidade, existe uma ameaça constante, capaz de irromper quando menos se espera.
Entretanto, o aspecto mais perturbador de Fjord está na maneira como as crianças acabam relegadas a segundo plano justamente quando todos afirmam agir em benefício delas. Separadas dos pais e dos irmãos, Elia e as outras crianças experimentam as consequências de uma disputa conduzida por adultos convencidos da legitimidade de suas próprias posições. O filme encontra aí sua contradição mais dolorosa; enquanto autoridades e familiares tentam determinar quem está certo, aqueles que deveriam ser protegidos permanecem sujeitos a decisões que não podem compreender nem controlar.
Essa escolha dá força ao longa, mas também evidencia seus limites. Ao privilegiar o embate ideológico, Mungiu nem sempre desenvolve satisfatoriamente as consequências emocionais da separação para as crianças. A narrativa parece mais interessada naquilo que o caso representa socialmente do que na experiência íntima de seus personagens mais vulneráveis. É uma lacuna relevante, sobretudo porque o sofrimento infantil constitui o centro moral de toda a história.
No fim, Fjord é um filme que provoca mais perguntas do que oferece respostas. Sua recusa em estabelecer uma conclusão moral confortável é coerente com a proposta, ainda que algumas lacunas do roteiro enfraqueçam a investigação dramática. Cristian Mungiu constrói um retrato inquietante de uma sociedade dividida entre convicções religiosas, normas institucionais e diferentes concepções de proteção, mas nem sempre consegue equilibrar a complexidade do debate com a clareza de sua narrativa.
Fjord está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Avaliação - 8/10
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