(MOSTRA SP) Crítica | Homem ao Mar - É um filme que provoca algumas questões pertinentes, mas parece mais interessado em multiplicar possibilidades do que em desenvolvê-las até suas últimas consequências.

Divulgação | Imovision

• Por Alisson Santos 

Em Homem ao Mar, Camilo, um salva-vidas cubano que se tornou empresário no México, vê sua vida pessoal se transformar em um terreno de instabilidade quando sua relação com Juana entra em crise. O que poderia render um drama relativamente convencional sobre separação e reconstrução familiar logo se expande para uma trama que envolve disputas políticas, conflitos trabalhistas e diferentes tentativas de transformar a vida dos personagens em espetáculo. O problema é que, ao ampliar tanto o campo de interesses, Gael García Bernal parece perder de vista aquilo que deveria sustentar o filme; a experiência emocional de seu protagonista.

A fragmentação narrativa é parte essencial da proposta. Bernal mistura referências a novelas brasileiras, filmes mexicanos de máfia e diferentes convenções cinematográficas, criando uma obra que oscila entre o absurdo, a comédia e o drama. Essa liberdade formal rende momentos curiosos, mas também provoca uma sensação persistente de dispersão. Em vez de fazer com que as mudanças de gênero aprofundem os conflitos, o filme frequentemente parece trocar de assunto antes de desenvolver satisfatoriamente as ideias que apresenta. A irregularidade não se resume à dificuldade de acompanhar uma narrativa pouco convencional, mas à impressão de que nem todas as escolhas encontram uma justificativa dramática convincente.

Existe, ainda assim, um tema relevante na maneira como a história aborda as relações de poder. Camilo ocupa uma posição desconfortável em um ambiente no qual sua origem cubana e sua condição social são constantemente utilizadas para demarcar diferenças. Ao redor dele, outros personagens tentam controlar a narrativa de suas próprias vidas, seja por meio da política, do registro documental ou da ficção cinematográfica. O filme sugere que até mesmo a intimidade pode ser apropriada por interesses alheios, transformando pessoas em personagens de histórias que elas não necessariamente desejam protagonizar. Entretanto, essa percepção perde força quando o roteiro acumula situações e personagens sem estabelecer uma hierarquia clara entre os conflitos.

Divulgação | Imovision

O próprio Camilo sofre com essa abordagem. Embora sua solidão e seu sentimento de deslocamento ofereçam um ponto de partida promissor, o protagonista acaba muitas vezes reagindo às situações que surgem ao seu redor, em vez de conduzir o desenvolvimento dramático. A multiplicidade de perspectivas também dificulta a construção de uma conexão mais profunda com os personagens secundários. Há boas ideias sobre paternidade, identidade e desigualdade, mas elas nem sempre recebem o tempo necessário para adquirir densidade emocional.

No fim, Homem ao Mar demonstra que Bernal tem interesse em explorar caminhos menos convencionais como cineasta, mas sua disposição para experimentar não garante que todas as peças funcionem juntas. A mistura de gêneros e o comentário social conferem personalidade à produção, porém a narrativa excessivamente dispersa compromete o impacto de suas reflexões. É um filme que provoca algumas questões pertinentes, mas parece mais interessado em multiplicar possibilidades do que em desenvolvê-las até suas últimas consequências. O resultado é uma obra irregular, cuja ambição acaba sendo também sua principal limitação.

Homem ao Mar está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 6/10

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