(MOSTRA SP) Crítica | Minotauro - Andrey Zvyagintsev transforma a deterioração de um casamento em uma análise incômoda das estruturas de poder que sustentam uma sociedade moralmente corrompida.
| Divulgação | Imovision |
• Por Alisson Santos
Em Minotauro, Andrey Zvyagintsev transforma a deterioração de um casamento em uma análise incômoda das estruturas de poder que sustentam uma sociedade moralmente corrompida. Ambientado na Rússia durante a invasão da Ucrânia, o longa acompanha Gleb, um empresário privilegiado que tenta manter sob controle tanto a vida doméstica quanto os negócios, até perceber que a aparente estabilidade de seu mundo está prestes a desmoronar. O diretor parte de um conflito conjugal para construir uma narrativa que ultrapassa a intimidade dos personagens e encontra na violência institucional o verdadeiro centro de sua investigação.
A crise no relacionamento entre Gleb e Galina não funciona apenas como motor dramático, mas como extensão de uma lógica baseada na posse, na vigilância e na preservação de aparências. Acostumado a exercer autoridade sobre os funcionários e a família, o protagonista reage às ameaças à sua posição como alguém que acredita ter o direito de decidir o destino dos outros. É nessa mentalidade que o filme encontra sua dimensão política. Gleb não representa simplesmente um indivíduo cruel, mas uma classe que se acostumou a confundir privilégio com impunidade e poder com legitimidade.
A alegoria que dá sentido ao título é particularmente contundente quando o protagonista recebe a tarefa de selecionar funcionários para o recrutamento militar. Nesse momento, a guerra deixa de ser um elemento distante, diluído na propaganda e nos discursos oficiais, e passa a interferir diretamente em suas decisões. A imagem do Minotauro, criatura mitológica que exige sacrifícios humanos, ganha uma interpretação sombria ao sugerir uma nação disposta a consumir seus próprios cidadãos em nome de ambições políticas. O horror não está apenas na existência de uma máquina de guerra, mas na facilidade com que seus mecanismos são incorporados à rotina de pessoas que preferem preservar os próprios privilégios.
Zvyagintsev também estabelece uma conexão perturbadora entre a violência pública e a privada. As decisões de Gleb em sua vida pessoal seguem a mesma lógica que orienta sua atuação profissional; eliminar ameaças, controlar as consequências e evitar que suas ações comprometam a posição que ocupa. Essa aproximação impede que o drama doméstico seja reduzido a uma história convencional de ciúme e traição. O que está em jogo é uma concepção de mundo na qual a vida alheia tem valor apenas enquanto serve aos interesses de quem detém o poder.
| Divulgação | Imovision |
A força dessa construção está na recusa do diretor em transformar sua crítica em um discurso explicativo. A guerra e o autoritarismo atravessam o cotidiano por meio da propaganda, das conversas e das exigências burocráticas, compondo um ambiente em que o absurdo parece ter sido normalizado. A fotografia de Mikhail Krichman reforça essa sensação com enquadramentos rigorosos e espaços marcados por uma frieza quase sufocante. Mesmo cercados pelo conforto material, os personagens parecem aprisionados em uma existência estéril, na qual o luxo não oferece liberdade, apenas mascara o vazio moral.
Com 2 horas e 15 minutos, Minotauro aposta em uma construção gradual da tensão, especialmente quando a narrativa passa a acompanhar os esforços de Gleb para administrar as consequências de suas próprias escolhas. O ritmo deliberado pode exigir paciência, mas contribui para revelar a banalidade com que a crueldade se instala em ambientes protegidos por dinheiro e influência. O humor sombrio que emerge em determinados momentos tampouco oferece alívio verdadeiro. Pelo contrário, evidencia o quanto a engrenagem social retratada pelo cineasta é absurda justamente porque continua funcionando.
O filme encontra sua dimensão mais inquietante na maneira como expõe um sistema em que a responsabilidade parece sempre destinada aos mais vulneráveis, enquanto os poderosos dispõem de recursos para escapar das consequências. Ao mesmo tempo, essa perspectiva levanta uma questão incômoda sobre a responsabilidade individual dentro de estruturas autoritárias; até que ponto a obediência a um código social pode servir de justificativa para a perpetuação da violência? Zvyagintsev não transforma essa questão em uma absolvição de seu protagonista. A familiaridade de Gleb com as regras desse universo ajuda a explicar seu comportamento, mas não apaga suas escolhas.
Minotauro é um retrato amargo de uma sociedade que converte a crueldade em procedimento e a impunidade em privilégio. Ao aproximar o colapso de uma família dos mecanismos de uma nação em guerra, Andrey Zvyagintsev constrói uma crítica política que não depende apenas da denúncia explícita, mas da percepção de que as duas esferas compartilham a mesma doença. A besta do título não precisa permanecer escondida em um labirinto mitológico; ela se manifesta em instituições, relações de poder e indivíduos convencidos de que seus interesses estão acima da vida dos outros.
Minotauro está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Avaliação - 10/10
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