(MOSTRA SP) Crítica | Ray Gunn - É uma aventura inventiva, estilisticamente ousada e repleta de personalidade, que justifica a expectativa construída em torno de um projeto gestado durante tantos anos.
| Divulgação | Netflix |
• Por Alisson Santos
Brad Bird retorna à animação com Ray Gunn, uma aventura que combina o charme dos filmes noir clássicos com a imaginação da ficção científica retrofuturista. Desenvolvido ao longo de décadas, o projeto finalmente ganha vida com uma identidade visual marcante e uma narrativa que demonstra o quanto o diretor compreende as possibilidades da animação. Em vez de apostar em fórmulas desgastadas, o cineasta constrói um universo próprio, repleto de personalidade, no qual referências cinematográficas convivem com ideias contemporâneas. O resultado é uma obra que resgata o espírito das antigas histórias de detetives sem se limitar à nostalgia.
A trama acompanha Raymond Gunn, um investigador particular de métodos antiquados que tenta sobreviver em Metropia, uma metrópole futurista habitada por humanos e extraterrestres. Dublado por Sam Rockwell, o protagonista é um sujeito cínico, acostumado a esconder sua natureza heroica atrás de piadas e de uma postura endurecida. Ao lado de Eye Ra Kadock, seu excêntrico parceiro alienígena, ele aceita investigar Venus Nova, uma estrela pop envolvida em um misterioso caso de assassinato. Interpretada vocalmente por Scarlett Johansson, a cantora reúne os atributos de uma femme fatale clássica, alternando sedução, ambiguidade e segredos que tornam cada nova descoberta mais intrigante.
É na construção de Metropia que Ray Gunn encontra sua maior força. Brad Bird apresenta uma sociedade retrofuturista que combina elementos do cinema noir, da ficção científica e da animação clássica, criando cenários que parecem existir simultaneamente no passado e no futuro. Carros voadores, mochilas a jato, arranha-céus monumentais e criaturas extraterrestres compõem um ambiente visualmente rico, no qual cada detalhe contribui para a personalidade desse mundo. A direção de arte não funciona apenas como pano de fundo para a investigação, mas estabelece uma linguagem própria, capaz de transformar a cidade em uma extensão dos conflitos e das contradições de seus habitantes.
Essa riqueza visual encontra correspondência na maneira como Bird conduz a narrativa. Embora a tecnologia esteja presente em praticamente todos os aspectos da sociedade, Gunn continua recorrendo a métodos tradicionais, como vigilância, telefonemas e confrontos diretos. O contraste entre o investigador à moda antiga e o ambiente futurista ajuda a estabelecer o humor da produção, ao mesmo tempo que preserva características fundamentais do protagonista. A história avança com ritmo acelerado, alternando ação, mistério e momentos de humor sem perder de vista a investigação central. A montagem dinâmica e a capacidade de reinventar situações familiares impedem que as referências ao gênero policial se tornem meras repetições de fórmulas conhecidas.
| Divulgação | Netflix |
O elenco vocal também contribui para a personalidade do filme. Sam Rockwell encontra o equilíbrio entre o cinismo e a vulnerabilidade de um homem que tenta fazer o que considera correto em uma sociedade pouco interessada em recompensar a honestidade. Scarlett Johansson, por sua vez, imprime à Venus a ambiguidade necessária para sustentar o mistério em torno da personagem, enquanto Tom Waits acrescenta uma presença singular ao parceiro de Gunn. A trilha sonora de Michael Giacchino acompanha as mudanças de tom e gênero, reforçando tanto a atmosfera investigativa quanto a grandiosidade das sequências de ação.
Por trás da aventura, Ray Gunn também encontra espaço para abordar questões contemporâneas. A corrupção, a discriminação, a invasão de privacidade, os direitos de propriedade intelectual e a transformação da atenção pública em mercadoria atravessam a construção de Metropia. O ambiente futurista, nesse sentido, não representa uma fuga completa da realidade, mas uma maneira de observar problemas que continuam presentes no cotidiano. A indústria do entretenimento recebe atenção especial, com sua capacidade de fabricar imagens, controlar narrativas e transformar a vida privada em espetáculo. O mérito de Bird está em incorporar essas questões ao movimento da história, sem transformar a animação em um discurso excessivamente explicativo.
As referências a obras como "Blade Runner" e às histórias em quadrinhos de Will Eisner são perceptíveis, mas não diminuem a originalidade da proposta. Pelo contrário, o filme demonstra como diferentes tradições podem ser combinadas para produzir algo com identidade própria. Brad Bird compreende que homenagear o passado não significa reproduzi-lo mecanicamente. Ao misturar convenções do noir com a liberdade estética da animação, ele cria uma experiência que dialoga com a história do cinema sem perder de vista as possibilidades do meio.
Ray Gunn representa, assim, um dos projetos mais ambiciosos de Brad Bird, uma obra que encontra na imaginação visual e na combinação de gêneros suas principais virtudes. A riqueza de Metropia, o carisma do protagonista e o ritmo envolvente da investigação fazem da produção uma experiência particularmente estimulante para quem procura uma animação que vá além das convenções mais previsíveis do gênero. Mais do que uma homenagem ao cinema noir ou um exercício de nostalgia, o filme demonstra como referências antigas podem ganhar novos significados quando colocadas a serviço de uma visão autoral. É uma aventura inventiva, estilisticamente ousada e repleta de personalidade, que justifica a expectativa construída em torno de um projeto gestado durante tantos anos.
Ray Gunn está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O filme chega à Netflix em 18 de dezembro.
Avaliação - 9/10
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