(MOSTRA SP) Crítica | Tigre de Papel - Aposta na tragédia familiar em um suspense criminal tenso e melancólico.
| Divulgação | Diamond Films |
• Por Alisson Santos
Em Tigre de Papel, James Gray retorna a um território que conhece bem, explorando a relação entre ambição, violência e os limites da segurança familiar. Ambientado nos anos 80, o longa acompanha Irwin Pearl (Miles Teller), um pai de família que leva uma vida relativamente tranquila até ser envolvido pelo irmão mais velho, Gary (Adam Driver), em um negócio com criminosos russos. O que inicialmente parece uma oportunidade de prosperidade logo se transforma em uma ameaça concreta àqueles que Irwin mais deseja proteger. Sem recorrer aos excessos habituais do cinema de ação, Gray constrói um suspense em que o perigo cresce justamente porque seus protagonistas não compreendem a dimensão dos problemas que provocaram.
A relação entre os irmãos é o principal motor dramático da narrativa. Gary possui o carisma de quem parece sempre encontrar uma saída, circulando com desenvoltura por ambientes nos quais Irwin dificilmente se sentiria confortável. Sua generosidade, seu humor e sua aparente experiência despertam a confiança do irmão, mas também escondem uma irresponsabilidade que se torna cada vez mais evidente. Adam Driver aproveita essa dualidade para criar uma figura magnética, cuja segurança quase performática contrasta com a fragilidade de suas decisões. Existe algo de perigoso na facilidade com que Gary acredita conseguir negociar com pessoas que operam segundo regras muito diferentes das suas.
Miles Teller, por outro lado, encontra em Irwin um personagem ingênuo. Seu protagonista é um homem comum, preocupado com o bem-estar dos filhos e com a manutenção de uma rotina que, apesar das limitações, oferece alguma estabilidade. Quando essa tranquilidade é destruída, ele precisa confrontar não apenas a ameaça externa, mas também a própria incapacidade de compreender como chegou àquela situação. A atuação de Teller transmite essa angústia sem transformar o personagem em um herói. Irwin não é um homem preparado para enfrentar criminosos, e o filme encontra boa parte de sua força justamente em acompanhar alguém que não possui as ferramentas necessárias para lidar com a violência que invade sua vida.
Essa escolha aproxima Tigre de Papel de uma vertente do suspense criminal menos interessada em grandes demonstrações de poder do que nas consequências humanas de decisões equivocadas. Aqui, ninguém parece capaz de resolver tudo na base da força, e os conflitos não são organizados para proporcionar uma sucessão de momentos catárticos. Gray prefere explorar a sensação de impotência de personagens que tentam recuperar o controle de uma situação que se torna progressivamente mais perigosa. A ameaça aos filhos de Irwin estabelece uma mudança importante nessa dinâmica, pois transforma uma negociação aparentemente profissional em uma experiência traumática que afeta toda a família.
O olhar do diretor também encontra espaço para abordar a transformação de uma vizinhança e o desaparecimento de antigas estruturas criminosas. A presença da máfia russa representa uma mudança nas relações de poder, mas Gary parece incapaz de perceber que os códigos com os quais acredita estar familiarizado já não funcionam. Sua nostalgia por um cenário anterior revela uma contradição importante; embora se apresente como alguém experiente, ele também é ingênuo diante da dimensão da violência que decidiu explorar. Irwin e Gary são diferentes em temperamento, mas compartilham a crença de que conseguem compreender e administrar um universo que, na realidade, está muito além de seu alcance.
| Divulgação | Diamond Films |
A ambientação dos anos 80 contribui para essa atmosfera de decadência e insegurança. Em vez de transformar a época em uma coleção de referências visuais e musicais, Gray aposta em uma fotografia de tons terrosos e sombrios, conduzida por Joaquín Baca-Asay, que privilegia uma sensação de realismo e desgaste. A trilha sonora de Christopher Spelman reforça a dimensão trágica da história, afastando-se da energia frenética que costuma acompanhar narrativas sobre o crime organizado. A referência à tragédia grega não serve apenas como um ornamento intelectual, mas ajuda a enquadrar os acontecimentos como uma sucessão de escolhas cujas consequências ultrapassam as intenções de quem as tomou.
Apesar da força do conflito central, o filme não consegue desenvolver todos os seus personagens com a mesma atenção. Hester (Scarlett Johansson), esposa de Irwin, permanece menos explorada do que deveria, especialmente diante dos problemas pessoais que enfrenta paralelamente à crise familiar. Sua trajetória introduz uma camada adicional de tensão, mas nem sempre encontra espaço suficiente para se integrar organicamente ao drama dos irmãos. Essa limitação enfraquece parcialmente o retrato da família, que poderia ganhar mais complexidade caso a perspectiva de Hester tivesse maior autonomia narrativa.
Também não gosto plenamente do desfecho do Adam Driver, James Gray não consegue aproveitar plenamente a força dramática construída ao longo da narrativa. O longa desenvolve uma figura marcada pelo carisma, pela autoconfiança e pela incapacidade de reconhecer os próprios limites, mas sua conclusão deixa a sensação de que faltou um impacto emocional à altura dessa construção. A condução do desfecho soa anticlimática, enfraquecendo parcialmente a tensão acumulada e comprometendo a força da tragédia que o cineasta pretende estabelecer. É uma escolha que pode fazer sentido dentro da proposta temática do filme, mas que não encontra uma execução igualmente convincente, sobretudo porque Gary se destaca como uma das figuras mais interessantes da trama. Com isso, Tigre de Papel deixa a impressão de que poderia ter encerrado sua trajetória com muito mais força.
Ainda assim, Gray demonstra sensibilidade ao retratar as consequências da violência sem reduzir seus personagens a figuras moralmente simples. Mesmo quando tomam decisões questionáveis, eles continuam sendo pessoas reconhecíveis, movidas por desejos, inseguranças e expectativas que não desaparecem diante de seus erros. O filme não precisa justificar suas escolhas para compreender suas motivações, e essa postura confere ao suspense uma dimensão humana que vai além da disputa entre criminosos.
Tigre de Papel talvez não alcance o mesmo impacto dos melhores trabalhos de James Gray, mas confirma a capacidade do cineasta de transformar histórias criminais em dramas sobre pessoas comuns confrontadas com forças que não conseguem controlar. Seu ritmo deliberado e sua atmosfera melancólica podem frustrar quem espera um thriller mais explosivo, mas essa contenção é parte essencial de sua proposta. No fim, o longa fala sobre a ilusão de poder, a fragilidade das certezas e o preço desproporcional que uma família pode pagar por uma oportunidade aparentemente promissora. Um suspense tenso e amargo que encontra sua maior força não na violência em si, mas na maneira como ela destrói, pouco a pouco, a sensação de segurança de quem acreditava estar protegido.
Tigre de Papel está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Avaliação - 7/10
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