(MOSTRA SP) Crítica | Vicentina Pede Desculpas - Um filme comovente sobre a tentativa de continuar vivendo quando a culpa parece ocupar todos os espaços disponíveis.

Divulgação | Netflix

• Por Alisson Santos 

Em Vicentina Pede Desculpas, Gabriel Martins retorna ao drama familiar com uma narrativa que transforma uma tragédia coletiva em uma investigação íntima sobre culpa, luto e a necessidade de encontrar algum sentido diante do irreparável. Depois de provocar uma ruptura na vida de diversas famílias, um acidente de ônibus em Belo Horizonte deixa Vicentina, uma professora aposentada de 75 anos, diante da morte do filho, Wesley, que conduzia o veículo. Quando surgem suspeitas de que a tragédia possa ter sido provocada intencionalmente, ela decide procurar os familiares das vítimas para pedir desculpas. É um gesto que nasce de uma dor genuína, mas também de uma tentativa de assumir uma responsabilidade que talvez não lhe pertença.

O grande mérito do filme está na maneira como Gabriel Martins compreende a culpa como uma experiência que ultrapassa os limites da responsabilidade individual. Vicentina não provocou o acidente, mas sente que precisa responder por ele, como se o amor materno a obrigasse a prestar contas pelas ações do filho. Essa contradição sustenta um drama delicado, no qual o pedido de desculpas não representa necessariamente uma busca por absolvição, mas uma tentativa de se aproximar de pessoas que compartilham uma dor impossível de mensurar. Ao percorrer diferentes casas e conhecer famílias devastadas, a protagonista encontra reações que vão da raiva à compaixão, revelando como cada pessoa lida de maneira particular com uma perda. O filme acerta ao não transformar esses encontros em uma simples jornada de redenção, preservando as ambiguidades morais e emocionais que tornam sua história tão humana.

É nesse percurso que Rejane Faria se estabelece como o coração da obra. Sua interpretação evita os excessos melodramáticos e encontra força nos pequenos gestos, nas pausas, na hesitação ao falar e na maneira como Vicentina parece carregar fisicamente o peso de sua existência. A atriz constrói uma mulher cuja vulnerabilidade não elimina sua dignidade, mesmo quando ela se coloca diante de desconhecidos para oferecer desculpas por algo que não fez. Existe uma enorme sensibilidade nessa composição, especialmente porque Faria não precisa explicar verbalmente cada sentimento da personagem. Seu corpo, seus silêncios e suas expressões revelam uma dor que nem sempre consegue encontrar palavras. A atuação confere intimidade a uma narrativa que poderia facilmente se perder em sentimentalismo.

A direção de Martins também demonstra cuidado ao situar essa experiência individual em um espaço social reconhecível. A fotografia de Leonardo Feliciano valoriza a paisagem de Belo Horizonte e as relações entre os ambientes urbanos e naturais, contribuindo para a atmosfera contemplativa do longa. Há uma atenção especial aos espaços domésticos, aos trajetos percorridos pela protagonista e à maneira como a tragédia invade a rotina de pessoas que, até então, levavam vidas completamente distintas. O acidente une essas famílias pela violência, mas não apaga as diferenças entre suas formas de compreender a morte. Nesse sentido, o filme encontra uma dimensão coletiva sem perder de vista a experiência particular de cada personagem.

Entretanto, a repetição da estrutura narrativa acaba sendo a principal limitação de Vicentina Pede Desculpas. A sucessão de visitas às famílias das vítimas estabelece um mecanismo dramático interessante, pois cada encontro oferece a possibilidade de uma reação inesperada e amplia a compreensão sobre as consequências do acidente. O problema é que, à medida que a narrativa avança, esse formato começa a demonstrar sinais de desgaste. Vicentina apresenta suas desculpas, os familiares reagem e a protagonista segue para o próximo encontro, frequentemente retomando movimentos emocionais que o filme já explorou. Embora existam diferenças importantes entre as respostas recebidas, nem todas as situações acrescentam novas camadas à personagem ou modificam significativamente o percurso dramático.

Divulgação | Netflix

Essa insistência pode ser compreendida como uma escolha temática. Afinal, o luto não acontece em linha reta, e a tentativa de encontrar respostas para uma perda pode se transformar em um movimento circular, marcado pela repetição e pela incapacidade de seguir adiante. O problema é que a coerência dessa ideia nem sempre se traduz em progressão cinematográfica. Com 2 horas e 28 minutos de duração, o longa poderia preservar sua contemplação e, ainda assim, condensar alguns encontros, permitindo que aqueles mais significativos tivessem um impacto maior. Em determinados momentos, a repetição enfraquece justamente a emoção que o filme pretende prolongar.

Ainda assim, seria injusto reduzir a experiência aos excessos de sua duração. Gabriel Martins demonstra confiança na capacidade de observar seus personagens sem julgá-los apressadamente, e essa postura é fundamental para a força moral do filme. A dúvida sobre as circunstâncias do acidente não funciona apenas como um elemento de suspense, mas como uma maneira de expor a dificuldade de conhecer verdadeiramente alguém, mesmo quando se trata de uma pessoa próxima. Vicentina precisa lidar não apenas com a morte do filho, mas também com a possibilidade de que existisse nele algo que ela desconhecia. O luto, nesse contexto, envolve a perda de uma pessoa e a reconstrução da imagem que se tinha dela.

No fim, Vicentina Pede Desculpas é um filme comovente sobre a tentativa de continuar vivendo quando a culpa parece ocupar todos os espaços disponíveis. Sua narrativa poderia ser mais enxuta, e a repetição dos encontros impede que algumas passagens alcancem toda a potência dramática que prometem. Ainda assim, a sensibilidade da direção, a riqueza das questões levantadas e, sobretudo, a atuação extraordinária de Rejane Faria sustentam uma obra que merece ser valorizada. Gabriel Martins encontra beleza na fragilidade de uma mulher que tenta reparar o irreparável, mesmo sem saber se o perdão que procura é possível. Mais do que oferecer respostas, o filme reconhece que algumas dores exigem tempo, acolhimento e a coragem de aceitar que nem toda culpa pode ser resolvida com um pedido de desculpas.

Vicentina Pede Desculpas está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O filme estreia nos cinemas brasileiros em 5 de novembro e chega à Netflix em 20 de novembro.

Avaliação - 8/10

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