(MOSTRA SP) Crítica | A Violência de Ninguém - Um trabalho provocador, sobretudo pela maneira como aproxima morte e vida sem tratá-las como conceitos isolados.

Divulgação | Heretic

• Por Alisson Santos 

Em A Violência de Ninguém, o cineasta canadense Denis Côté parte de uma premissa perturbadora para investigar os limites da liberdade individual, a solidão e a relação humana com a morte. No filme, acompanhamos Mira, interpretada por Larissa Corriveau, ela percorre estradas e lugares isolados oferecendo assistência a pessoas que decidiram encerrar a própria vida. Seu trabalho consiste em acompanhar esses desconhecidos nos últimos instantes, transformando a morte em uma espécie de serviço clandestino. A personagem, entretanto, não se comporta como alguém que carrega uma missão grandiosa. Reservada, quase sempre impassível, ela parece existir no automático, como se a convivência constante com a morte tivesse apagado sua própria vontade de viver.

É justamente nessa figura enigmática que o filme encontra sua maior força. Corriveau constrói Mira por meio de expressões que raramente revelam o que realmente se passa em sua cabeça. A atriz compreende que explicar demais essa mulher seria diminuir o mistério que a torna tão fascinante. Em vez de transformar o sofrimento em espetáculo, sua interpretação sugere um esgotamento emocional que se manifesta na maneira como Mira observa o mundo, interage com os outros e se mantém afastada de qualquer vínculo duradouro.

Côté também demonstra sensibilidade ao abordar a morte sem recorrer a julgamentos morais simplistas. Os encontros de Mira com seus clientes apresentam diferentes relações com a finitude, lembrando que a decisão de morrer não pode ser reduzida a uma única experiência humana. Ao mesmo tempo, a existência dessa atividade clandestina levanta questões sobre a mercantilização do sofrimento e sobre o que acontece quando uma decisão profundamente íntima passa a integrar uma estrutura de trabalho. 

Visualmente, a produção reforça essa sensação de estranhamento. Filmado em película de 16 mm, o longa aposta em imagens granuladas, enquadramentos que mantêm os personagens à distância e uma montagem fragmentada, criando a impressão de que acompanhamos lembranças incompletas ou momentos que escapam à percepção convencional do tempo. Essa abordagem combina com a existência errante da protagonista e confere ao filme uma atmosfera quase onírica, na qual a realidade parece ligeiramente deslocada.

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O problema é que essa liberdade formal nem sempre encontra correspondência na construção narrativa. Quando Mira conhece outras figuras e passa a frequentar um ambiente dominado por Ludo, personagem de Philippe Rebbot, o filme desloca seu interesse para situações que enfraquecem parte da tensão construída anteriormente. A dinâmica entre os novos personagens oferece possibilidades interessantes, mas a narrativa se demora em episódios que nem sempre aprofundam Mira ou ampliam significativamente as questões propostas. O ritmo, que antes favorecia a contemplação e o desconforto, começa a parecer dispersivo.

Essa perda de foco prejudica especialmente a reta final. Depois de construir uma atmosfera sustentada pela incerteza e pela recusa em explicar tudo, Côté adota caminhos dramáticos que parecem menos orgânicos do que o restante da obra. A ambiguidade, antes uma das qualidades mais estimulantes do longa, cede espaço a resoluções que diminuem a força das perguntas levantadas ao longo da narrativa. O desfecho não chega a anular o interesse da experiência, mas tampouco corresponde à riqueza que a premissa e a primeira metade sugerem.

Ainda assim, A Violência de Ninguém permanece um trabalho provocador, sobretudo pela maneira como aproxima morte e vida sem tratá-las como conceitos isolados. Denis Côté realiza um filme visualmente singular, sustentado por uma atuação central notável e por questões filosóficas que continuam ressoando mesmo quando a narrativa perde o rumo. Sua maior virtude está em observar uma mulher que convive diariamente com a morte e começa, aos poucos, a confrontar o vazio da própria existência. Sua principal limitação é não saber preservar até o fim a delicadeza e a inquietação que tornam essa jornada tão interessante. É um filme que provoca reflexões pertinentes, mas cuja execução irregular impede que alcance todo o potencial de sua proposta.

A Violência de Ninguém vai ser exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 8/10

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