Uma carta de amor para a 50ª Mostra de São Paulo...

Igor do Ó, criador de conteúdo e parceiro da MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos 

Existem experiências que não terminam quando os créditos sobem. Algumas continuam conosco muito depois de deixarmos a sala de cinema, atravessando nossas lembranças, transformando nossa maneira de enxergar o mundo e, principalmente, as pessoas ao nosso redor. A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi uma dessas experiências. Durante três semanas, vivemos histórias que não estavam apenas nas telas, mas também nas ruas, nos corredores, nas conversas improvisadas e nos encontros que fizeram desta edição algo verdadeiramente especial.

Realizada entre os dias 15 e 29 de outubro, a edição que celebrou cinco décadas de existência do festival reuniu centenas de produções de mais de 90 países, distribuídas por 57 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista. Uma celebração da diversidade cinematográfica que transformou São Paulo em um imenso território de descobertas.

Solar Fábio Prado, um dos locais de exibição

Para nós, entretanto, a Mostra nunca foi apenas uma oportunidade de assistir a filmes antes de suas estreias comerciais. Foi, acima de tudo, uma maneira de viver o cinema em sua forma mais humana. Afinal, existe algo profundamente bonito em perceber que uma cidade tão imensa, frequentemente marcada pela pressa e pela indiferença, pode se transformar em um lugar de pertencimento quando milhares de pessoas compartilham uma mesma paixão.

Durante a cobertura, atravessamos diferentes regiões de São Paulo, conhecemos espaços de exibição, revisitamos salas que fazem parte da memória cultural da cidade e descobrimos que cada cinema possui uma personalidade própria. Entre o charme de espaços tradicionais, a movimentação dos centros culturais e a atmosfera das sessões especiais, percebemos que o caminho até uma exibição também pode ser tão significativo quanto o filme que estamos prestes a assistir.

Exibição de "London" no CineSesc

Havia algo especial na correria entre uma sessão e outra. Nos minutos calculados para chegar ao próximo cinema, nas refeições improvisadas, nas conversas sobre os filmes que acabávamos de assistir e na expectativa de descobrir o que a próxima história nos reservaria. E, por mais cansativa que pudesse ser a rotina, havia sempre alguma coisa capaz de renovar nosso entusiasmo. Talvez fosse uma cena particularmente emocionante. Talvez uma conversa com alguém que acabávamos de conhecer. Ou simplesmente a sensação de estar exatamente onde gostaríamos de estar. Porque amar o cinema também é amar tudo aquilo que acontece ao redor dele.

Lilianna Bernartt, Vitor Búrigo e Paulo Ernesto

Ao longo da cobertura, tivemos a oportunidade de conversar com profissionais que dedicam suas vidas à construção de histórias. Entre cineastas brasileiros e internacionais, nossas entrevistas permitiram conhecer perspectivas, processos criativos e sentimentos que dificilmente caberiam em uma crítica cinematográfica.

Igor do Ó e S. S. Rajamouli

Conversamos com nomes como S. S. Rajamouli, diretor de RRR, Ali Asgari, Fernanda Tovar, diretora de Chicas Tristes, e outros realizadores que compartilharam conosco um pouco de suas experiências e visões de mundo.

Igor do Ó e Fernanda Tovar

Cada entrevista representou mais do que conteúdo para nossas plataformas. Foi uma oportunidade de diminuir a distância entre quem cria e quem assiste, de compreender as inquietações por trás das obras e de reconhecer que, independentemente do país, da língua ou da cultura, o cinema nasce de sentimentos profundamente humanos.

Mas os encontros mais importantes nem sempre aconteceram diante de uma câmera. Estiveram também nas conversas com outros jornalistas, críticos, profissionais da organização, espectadores apaixonados e pessoas que cruzaram nossos caminhos durante esses dias. Algumas já faziam parte de nossa trajetória. Outras chegaram inesperadamente, como personagens que aparecem em uma história sem que saibamos, naquele momento, a importância que terão.

Raíssa Sanches e Igor do Ó 

A Mostra também nos proporcionou reencontros, aproximações e novas amizades. Pessoas com quem dividimos opiniões, risadas, expectativas e até discordâncias sobre os filmes assistidos. Porque uma das coisas mais fascinantes da experiência cinematográfica é justamente descobrir que uma mesma obra pode despertar sentimentos completamente diferentes em cada pessoa. E talvez seja isso que torne esses encontros tão preciosos; ninguém sai exatamente igual de uma boa conversa sobre cinema.

Vinícius Oliveira Rocha do Oxente Pipoca

Há uma relação particular entre a Mostra e a cidade que a acolhe. Ao contrário de festivais concentrados em poucos espaços, a programação paulistana se espalha por diferentes regiões, aproximando públicos e transformando o próprio deslocamento urbano em parte da experiência.

Nesta edição, espaços como o CineSesc, a Cinemateca Brasileira, o Centro Cultural São Paulo, o Reserva Cultural, Cine Belas Artes, Cultura Artística integraram o circuito, ao lado de equipamentos culturais que ofereceram sessões gratuitas ou a preços populares. Essa diversidade de lugares nos fez perceber São Paulo de outra maneira.

A cidade que tantas vezes parece hostil também pode ser acolhedora. A mesma avenida atravessada apressadamente em um dia comum ganha outro significado quando conduz a uma sessão aguardada durante meses. Uma praça se transforma em ponto de encontro. Um café vira espaço para discutir cinema. Uma calçada qualquer guarda a lembrança de uma conversa que gostaríamos que tivesse durado mais. Em meio ao concreto, ao trânsito e ao movimento incessante da metrópole, encontramos pequenos instantes de afeto. E, sem perceber, começamos a associar determinados lugares não apenas aos filmes que assistimos, mas às pessoas com quem estivemos. É assim que uma cidade também passa a fazer parte de nossa história.

Exibição no Espaço Petrobras de Cinema

Naturalmente, seria impossível falar dessa edição sem mencionar a força das obras que passaram pelas telas. Filmes como Tudo Pode Ser Visto, Minotauro, Pequenas Tragédias, London, O Sentido da Vida, Ray Gunn, Fjord, Rochas Vermelhas e Chicas Tristes estiveram entre as experiências que marcaram nossa cobertura, cada um por motivos particulares.

Houve histórias que nos fizeram rir, outras que nos deixaram desconfortáveis e algumas que despertaram emoções difíceis de traduzir em palavras. Também encontramos filmes que nos desafiaram, que contrariaram nossas expectativas e que nos lembraram por que a crítica cinematográfica precisa permanecer aberta ao inesperado. Entretanto, ao revisitar mentalmente esses vinte um dias, percebemos que as lembranças não estão organizadas apenas em uma lista de melhores filmes.

Lembramos dos rostos, das vozes, das salas lotadas, dos aplausos, dos olhares trocados depois de uma sessão especialmente intensa. Lembramos do cansaço ao final do dia e da felicidade quase infantil de saber que, na manhã seguinte, tudo começaria novamente. É curioso como dedicamos tanto tempo tentando registrar nossas experiências em fotografias, vídeos e textos, quando algumas das lembranças mais importantes permanecem justamente naquilo que não conseguimos documentar.

Bruno Carmelo e Vitor Búrigo

Um abraço inesperado. Uma conversa no caminho para o metrô. Uma gargalhada compartilhada. A companhia de alguém que tornou um dia exaustivo um pouco mais leve. São momentos pequenos, quase invisíveis diante da grandiosidade de um festival internacional, mas que acabam ocupando um espaço imenso em nossa memória.

Para a MDH Entretenimento e Igor do Ó, participar da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo representou mais um capítulo de uma trajetória construída com dedicação, curiosidade e, sobretudo, amor pela sétima arte. Cada crítica publicada, cada entrevista realizada e cada registro compartilhado nasceu do desejo de aproximar o público de histórias que merecem ser conhecidas. 

Mas nenhuma cobertura acontece sozinha. Por isso, encerramos essa experiência com um sentimento sincero de gratidão. À organização do festival, aos profissionais que tornaram possíveis as entrevistas e sessões, aos realizadores que generosamente compartilharam suas histórias, aos colegas de imprensa que dividiram conosco tantos momentos e a todas as pessoas que encontramos pelo caminho.

Equipe de assessoria da Mostra de São Paulo

Agradecemos também a quem acompanhou nossa cobertura, leu nossos textos, assistiu às entrevistas e encontrou em nossas publicações uma nova razão para descobrir o cinema. Celebrar os 50 anos da Mostra foi, de certa maneira, compreender que a longevidade de um festival não se mede apenas pela quantidade de filmes exibidos ou pelos grandes nomes que passaram por sua programação. Mede-se também pelas gerações de espectadores que encontraram ali um espaço para sonhar, descobrir, questionar e pertencer.

Guilherme Pontes e Raul Moreira

Agora, com as salas retomando suas programações habituais e a cidade voltando ao ritmo cotidiano, fica uma saudade difícil de explicar. Uma saudade que não é apenas dos filmes que vimos, mas da vida que levamos enquanto os assistíamos. Talvez seja essa a maior beleza da Mostra: durante alguns dias, ela nos permite viver dentro de uma história coletiva, na qual cada pessoa que encontramos acrescenta uma nova cena. E se existe algo que levamos desta 50ª edição, é a certeza de que fomos à Mostra para assistir a filmes, mas voltamos para casa com histórias que nenhum filme seria capaz de contar exatamente da mesma maneira. Porque, no fim das contas, a Mostra é sobre cinema. Mas também é sobre São Paulo, sobre encontros, sobre amizade, sobre descobrir novos lugares e, principalmente, sobre encontrar pessoas que fazem tudo valer a pena. Os créditos da 50ª Mostra já subiram. Mas, para nós, algumas das histórias mais bonitas que ela nos proporcionou ainda estão apenas começando.

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