Crítica | O Filho da Puta - A animação encontra humanidade justamente onde os valores conservadores de seu universo insistem em enxergar degradação.

Divulgação | Lança Filmes

• Por Alisson Santos 

Há uma crueldade particular em ser definido por uma condição que nunca se escolheu. Em O Filho da Puta, animação brasileira codirigida por Otto Guerra, Tania Anaya, Erica Maradona e Sávio Leite, essa violência está condensada no apelido de Ismael, um jovem que cresceu no interior de Minas Gerais carregando o estigma de ser filho de uma prostituta. O que inicialmente parece apenas uma provocação escrachada revela, pouco a pouco, uma reflexão sobre a maneira como o julgamento social pode determinar a identidade de alguém antes mesmo que essa pessoa tenha a oportunidade de construí-la.

Escrito por Carla Guimarães, o longa acompanha Ismael, dublado por Gabriel Martins, que vive nas proximidades da Casa Rosa, prostíbulo administrado por sua mãe. Inconformado com a ausência paterna e com a reputação que lhe foi imposta, ele decide abandonar sua cidade e partir em busca do homem que nunca conheceu. Ao seu lado está Bacalhau, um cachorro de três patas, interpretado vocalmente por Matheus Nachtergaele, cuja personalidade debochada oferece alguns dos momentos mais divertidos da narrativa.

A premissa é relativamente simples, mas encontra sua força na contradição que sustenta o protagonista. Ismael acredita que conhecer o pai significará finalmente compreender quem ele é. Sua busca, entretanto, nasce de uma percepção equivocada sobre a própria existência; ao atribuir tanta importância ao homem que o abandonou, acaba diminuindo o valor da mulher que efetivamente esteve presente em sua vida. Existe uma dimensão profundamente amarga nessa escolha, porque o personagem reproduz os preconceitos que o fizeram sofrer. Sua vergonha não nasce propriamente da profissão materna, mas da incapacidade de enxergar a mãe para além do julgamento dos outros.

É justamente nessa contradição que O Filho da Puta encontra sua maior inteligência dramática. A animação não precisa recorrer a discursos moralizantes para discutir maternidade, masculinidade e pertencimento. Basta observar como Ismael idealiza uma figura paterna desconhecida enquanto demonstra dificuldade em reconhecer os vínculos afetivos que já possui. O filme questiona, assim, a noção de que a legitimidade de uma família depende de sua adequação a determinados padrões sociais.

A presença de Otto Guerra, responsável por trabalhos como "Rocky & Hudson" e "Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll", é perceptível no humor grosseiro, nas figuras caricaturais e na recusa em domesticar a animação para torná-la mais palatável. Entretanto, a colaboração entre os quatro realizadores produz algo que ultrapassa a irreverência habitual do cineasta. Há uma sensibilidade particular na maneira como o absurdo convive com a melancolia, permitindo que o filme seja simultaneamente vulgar, engraçado e dolorosamente humano.

Visualmente, a produção encontra uma linguagem própria ao incorporar referências à xilogravura e à literatura de cordel. Os traços irregulares, as figuras expressivas e a composição das paisagens não procuram reproduzir o realismo, mas reinterpretar o sertão por meio de uma estética popular brasileira. A aridez dos cenários parece refletir a própria condição emocional de Ismael, enquanto a expressividade dos desenhos permite que situações banais adquiram proporções quase fabulares.

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Esse aspecto é especialmente importante porque a identidade cultural do filme não funciona como simples ornamentação. A narrativa dialoga com tradições da literatura e do cinema brasileiros, evocando o universo de Graciliano Ramos e a dimensão alegórica do sertão de Glauber Rocha. Há algo de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" na presença de figuras religiosas e nas manifestações de um imaginário popular atravessado por contradições, crenças e violência. Entretanto, em vez de reproduzir essas referências de maneira reverente, a animação as incorpora ao seu próprio universo de humor anárquico.

Bacalhau, por sua vez, representa uma escolha particularmente interessante. O cachorro não é apenas um companheiro destinado a oferecer alívio cômico. Sua condição física e sua personalidade desbocada estabelecem uma relação simbólica com o protagonista; ambos são criaturas marcadas por características que poderiam reduzi-los, aos olhos alheios, à condição de inadequados. A diferença é que Bacalhau parece conviver com sua existência de maneira muito mais espontânea, enquanto Ismael permanece aprisionado à necessidade de encontrar uma justificativa para a própria vida.

Apesar de suas qualidades, o longa apresenta algumas limitações narrativas. Sua estrutura episódica, organizada em torno dos encontros durante a viagem, nem sempre consegue atribuir a mesma relevância dramática a todas as situações. Certos acontecimentos parecem existir sobretudo para sustentar o humor ou introduzir referências culturais, enfraquecendo momentaneamente a progressão emocional do protagonista. A duração de apenas 1 hora e 12 minutos também faz com que determinadas relações e descobertas recebam menos desenvolvimento do que poderiam.

Existe ainda uma tensão entre a liberdade visual da animação e o caráter relativamente convencional de seu roteiro. Enquanto a direção experimenta com formas, exageros e mudanças de registro, a narrativa permanece próxima de uma estrutura tradicional de amadurecimento. Isso não compromete necessariamente o resultado, mas evidencia uma diferença entre a ousadia estética e as escolhas dramatúrgicas. O filme parece mais disposto a experimentar com a maneira de contar sua história do que propriamente com os caminhos que essa história percorre.

Ainda assim, essa simplicidade permite que suas questões centrais permaneçam acessíveis sem perder a complexidade. O humor sexual, os palavrões e o grotesco não anulam a ternura que existe por trás das situações. Pelo contrário, ajudam a construir um universo no qual pessoas frequentemente marginalizadas demonstram uma capacidade de acolhimento que contrasta com a moralidade daqueles que as condenam.

É significativo que a Casa Rosa, espaço socialmente associado à vergonha, também represente uma possibilidade de afeto e comunidade. A animação encontra humanidade justamente onde os valores conservadores de seu universo insistem em enxergar degradação. Dessa maneira, a trajetória de Ismael deixa de ser apenas uma procura pelo pai e passa a funcionar como uma investigação sobre os mecanismos que fazem alguém rejeitar as próprias origens.

O Filho da Puta estreia em breve nos cinemas.

Avaliação - 7/10

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