Nathan Fielder está reinventando o documentário? O cineasta que faz da realidade um experimento perturbador
| Divulgação | MDH Entretenimento |
• Por Alisson Santos
Nathan Fielder construiu sua carreira a partir de uma ideia aparentemente simples, mas profundamente desconcertante; colocar pessoas reais em situações extraordinárias e observar o que acontece quando elas tentam agir naturalmente. O resultado frequentemente provoca gargalhadas, mas também uma sensação crescente de desconforto. Afinal, o espectador nunca sabe exatamente quanto daquilo que está assistindo foi espontâneo, planejado ou provocado pelo próprio cineasta.
Essa ambiguidade, que começou como um recurso cômico, tornou-se o centro de uma investigação cada vez mais complexa sobre o comportamento humano e a natureza das imagens. Com Tudo Pode Ser Visto, documentário codirigido por Lance Oppenheim, Fielder alcança um novo território; em vez de apenas construir situações que desafiam a percepção da realidade, passa a confrontar uma pessoa cuja trajetória pública foi marcada justamente pela fabricação de uma narrativa convincente.
A protagonista é Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, empresa que prometia revolucionar os exames de sangue e acabou protagonizando um dos maiores escândalos de fraude do Vale do Silício. Condenada por enganar investidores, Holmes permitiu que os cineastas acompanhassem sua intimidade durante os 34 dias anteriores ao início de sua pena de prisão.
O encontro parecia destinado a produzir mais um documentário sobre a ascensão e a queda de uma empresária controversa. Entretanto, nas mãos de Fielder e Oppenheim, a história se expande para algo muito mais inquietante; uma investigação sobre os limites do próprio cinema documental. A questão deixa de ser apenas se Elizabeth Holmes está dizendo a verdade. Passa a ser se a verdade pode realmente ser capturada por uma câmera.
NATHAN FOR YOU: QUANDO O ABSURDO REVELA COMPORTAMENTOS REAIS
| Divulgação | Paramount+ |
Antes de se tornar um dos nomes mais singulares do audiovisual contemporâneo, Nathan Fielder desenvolveu uma linguagem própria em Nathan for You, série exibida entre 2013 e 2017.
O programa apresentava Fielder como um consultor empresarial disposto a ajudar pequenos negócios por meio de estratégias de marketing completamente absurdas. Embora as situações fossem cuidadosamente planejadas, as reações dos participantes frequentemente escapavam a qualquer previsão. O humor surgia justamente do contraste entre a seriedade com que Fielder defendia suas propostas e o absurdo evidente de suas soluções.
Em um dos episódios mais conhecidos, ele cria uma cafeteria chamada Dumb Starbucks, que reproduzia a identidade visual da famosa rede americana sob a justificativa de funcionar como uma paródia artística. Em outro, organiza uma elaborada operação para ajudar um posto de gasolina a oferecer combustível extremamente barato, mas estabelece condições tão inconvenientes que a promoção se torna praticamente inviável.
Essas experiências ultrapassavam a lógica tradicional das pegadinhas televisivas. Fielder não estava interessado apenas em constranger seus participantes. Seu método explorava a disposição das pessoas em aceitar situações improváveis quando elas eram apresentadas com autoridade, segurança e uma aparência de legitimidade.
O próprio cineasta se tornava parte fundamental dessa dinâmica. Sua personalidade televisiva, marcada por uma expressão quase imutável e uma comunicação deliberadamente desconfortável, funcionava como um instrumento para revelar as contradições dos outros. Entretanto, a série também levantava uma questão ética importante; até que ponto é legítimo manipular circunstâncias reais para produzir entretenimento?
O que parecia apenas uma comédia sobre negócios fracassados já continha as primeiras manifestações de uma investigação sobre o poder de quem controla a situação e, principalmente, de quem controla a montagem.
O ENSAIO: A OBSESSÃO POR CONTROLAR O IMPREVISÍVEL
| Divulgação | HBO |
Se Nathan for You utilizava situações artificiais para provocar reações espontâneas, O Ensaio, lançado pela HBO em 2022, levou essa lógica a um extremo quase filosófico.
A premissa consistia em ajudar pessoas a se prepararem para momentos importantes de suas vidas por meio de simulações minuciosamente construídas. Para isso, Fielder recriava ambientes inteiros, contratava atores e desenvolvia inúmeras possibilidades de interação.
Um simples encontro poderia ser repetido diversas vezes. Uma conversa difícil ganhava versões alternativas. Até os detalhes aparentemente insignificantes de um ambiente eram reproduzidos para tornar a experiência mais convincente. A proposta partia de um desejo profundamente humano; eliminar a incerteza das relações sociais.
Entretanto, quanto mais Fielder tentava controlar as situações, mais evidente se tornava a impossibilidade de prever completamente o comportamento humano. O programa gradualmente deixava de acompanhar apenas os participantes e passava a investigar o próprio cineasta. Sua necessidade de controlar os acontecimentos, sua dificuldade de estabelecer relações espontâneas e sua posição de autoridade dentro das simulações se tornavam elementos centrais da narrativa.
A segunda temporada, lançada em 2025, expandiu essa investigação para o universo da aviação, explorando as dificuldades de comunicação entre pilotos e copilotos e utilizando encenações para examinar comportamentos em ambientes profissionais de alto risco.
O que torna O Ensaio particularmente fascinante não é simplesmente sua capacidade de reproduzir a realidade, mas a maneira como demonstra que nenhuma reprodução consegue substituí-la. Fielder constrói mundos inteiros para compreender as pessoas. E, paradoxalmente, quanto mais elaboradas se tornam suas simulações, mais difícil parece alcançar alguma forma definitiva de verdade.
TUDO PODE SER VISTO: QUANDO O OBJETO DE INVESTIGAÇÃO TAMBÉM DOMINA A ENCENAÇÃO
| Divulgação | Sony Pictures |
Em Tudo Pode Ser Visto, a relação entre realidade e representação adquire uma dimensão especialmente provocadora. Elizabeth Holmes não é uma participante comum. Durante anos, a empresária construiu uma imagem pública cuidadosamente administrada, utilizando discursos inspiradores, entrevistas e aparições midiáticas para convencer investidores e jornalistas de que sua empresa estava prestes a modificar a medicina.
Sua trajetória demonstra como uma narrativa bem apresentada pode adquirir enorme influência, mesmo quando as evidências que deveriam sustentá-la são insuficientes. Ao convidar uma equipe de filmagem para acompanhar seus últimos dias em liberdade, Holmes encontra uma nova oportunidade de apresentar sua própria versão dos acontecimentos. O documentário nasce, portanto, de um conflito de interesses particularmente interessante.
De um lado, existe uma mulher que deseja modificar a maneira como é percebida. Do outro, cineastas interessados em investigar justamente os mecanismos pelos quais essa percepção é construída. A câmera se torna um território de disputa. Fielder não se comporta como um entrevistador tradicional. Em vez de organizar perguntas destinadas a reconstruir cronologicamente os fatos, ele observa comportamentos, insiste em contradições e permite que conversas aparentemente banais se prolonguem até adquirirem um significado inesperado.
O silêncio, frequentemente utilizado para preservar a naturalidade de uma entrevista, torna-se uma ferramenta de pressão. As pausas deixam espaço para que os personagens tentem reorganizar suas próprias respostas. O humor surge da incapacidade de resolver essas tensões. Há momentos em que as interações parecem pertencer a uma comédia absurda, mas a gravidade do contexto impede que o espectador encontre conforto completo no riso.
A força do filme está justamente nessa instabilidade. Não sabemos se estamos diante de uma pessoa tentando controlar sua imagem, de alguém incapaz de reconhecer suas próprias contradições ou de uma combinação complexa dessas possibilidades. E Fielder, em vez de oferecer uma explicação definitiva, parece interessado em explorar a impossibilidade de alcançá-la.
A CÂMERA NÃO É INVISÍVEL — E NATHAN FIELDER SABE DISSO
Uma das convenções mais persistentes do documentário observacional é a ideia de que a câmera pode registrar acontecimentos sem interferir significativamente neles. Naturalmente, a história do cinema documental está repleta de cineastas que questionaram essa premissa. Desde Jean Rouch e o cinema-verdade até obras contemporâneas que misturam encenação e registro, a presença do realizador sempre foi objeto de reflexão.
Fielder não inventou essa discussão. Sua contribuição está em incorporar a interferência da câmera à própria estrutura dramática de suas obras, frequentemente utilizando o humor para expor aquilo que documentários mais convencionais preferem deixar fora de quadro. Em Tudo Pode Ser Visto, essa abordagem se manifesta inclusive nas condições de produção.
Inicialmente, Fielder pretendia permanecer atrás das câmeras. Entretanto, conforme Holmes e seu companheiro, Billy Evans, passaram a interagir diretamente com ele, tornou-se impossível ignorar sua participação na dinâmica da casa. Os diretores precisaram modificar a estratégia de filmagem. A equipe passou a utilizar três câmeras operadas por duas pessoas, com lentes de longo alcance e enquadramentos capazes de registrar diferentes regiões da residência. As jornadas chegavam a aproximadamente 16 horas de gravação.
O objetivo era captar não apenas as respostas dos participantes, mas também suas reações imediatas, os gestos e os acontecimentos que poderiam surgir fora do centro da conversa. Em entrevista divulgada pela Variety, Oppenheim explicou que essa mudança aproximou a produção de uma abordagem observacional mais tradicional, apesar de o projeto nascer de realizadores conhecidos por suas intervenções elaboradas.
Existe uma ironia fascinante nesse processo; um cineasta conhecido por criar situações extremamente artificiais precisou recorrer a métodos documentais de observação para acompanhar pessoas que pareciam permanentemente conscientes de sua própria imagem. Ainda assim, a presença constante das câmeras não elimina a encenação. Pode até intensificá-la. Quanto mais alguém sabe que está sendo observado, maior pode ser sua preocupação com a maneira como seus gestos serão interpretados. O documentário, portanto, não registra uma realidade intocada. Registra uma realidade que se modifica porque está sendo filmada.
LANCE OPPENHEIM E A IMPORTÂNCIA DE UMA SEGUNDA PERSPECTIVA
Embora Nathan Fielder seja o nome mais imediatamente associado à proposta do filme, seria um equívoco atribuir exclusivamente a ele suas conquistas cinematográficas. Lance Oppenheim já havia desenvolvido uma carreira marcada pelo interesse em personagens excêntricos, ambientes artificiais e comunidades que constroem versões idealizadas de suas próprias existências.
Em Some Kind of Heaven (2020), investigou a vida de moradores de uma comunidade de aposentados na Flórida, revelando as contradições existentes por trás de um ambiente concebido para representar uma espécie de paraíso. Em Spermworld (2024), acompanhou um universo de relações humanas pouco convencional, aproximando-se de seus participantes sem reduzir suas experiências a simples curiosidades.
Seus trabalhos frequentemente apresentam uma fotografia elaborada, enquadramentos cuidadosamente construídos e uma sensibilidade que aproxima o registro documental da ficção. Em Tudo Pode Ser Visto, essa experiência encontra o método provocativo de Fielder.
Enquanto um cineasta parece interessado em pressionar as contradições dos personagens, o outro contribui para construir uma dimensão visual e emocional que impede que essas pessoas sejam reduzidas a objetos de ridicularização. Não se trata de afirmar que as funções dos diretores foram rigidamente divididas dessa maneira, mas de reconhecer como suas linguagens anteriores ajudam a compreender a singularidade do resultado. A parceria também revela uma qualidade fundamental do documentário; sua capacidade de permitir que a investigação mude de direção.
Segundo Oppenheim, Fielder chegou a negociar com a A24 a possibilidade de abandonar completamente o projeto caso os cineastas não encontrassem material que justificasse um novo filme sobre Holmes. Essa liberdade criativa permitiu que a produção fosse conduzida sem a obrigação de confirmar antecipadamente uma tese. O documentário não precisava provar uma hipótese previamente estabelecida. Precisava descobrir o que havia de cinematograficamente relevante naquele encontro.
O HUMOR CONSTRANGEDOR COMO FERRAMENTA DE INVESTIGAÇÃO
| Divulgação | HBO |
Existe uma diferença importante entre rir de uma pessoa e rir das contradições que surgem quando ela tenta controlar uma situação. Nathan Fielder trabalha precisamente nessa região desconfortável.
Seu humor raramente depende de piadas convencionais. Ele nasce de perguntas excessivamente literais, de respostas que não correspondem às expectativas sociais e de silêncios prolongados que tornam qualquer interação progressivamente insuportável. Em Tudo Pode Ser Visto, essa estratégia ganha uma dimensão ainda mais complexa porque os acontecimentos envolvem uma pessoa condenada por crimes financeiros, uma família prestes a enfrentar uma separação e uma história que afetou investidores e a confiança em serviços médicos.
O espectador pode rir de uma conversa absurda e, segundos depois, perceber a gravidade daquilo que está sendo discutido. Essa alternância impede uma relação confortável com os personagens. Holmes não é apresentada apenas como uma figura pública associada a um escândalo. Também aparece em situações domésticas e emocionalmente vulneráveis. Isso não anula sua responsabilidade pelos crimes pelos quais foi condenada, mas amplia a complexidade da representação.
O filme permite que duas percepções aparentemente contraditórias coexistam; reconhecer os danos provocados por suas ações e compreender que ela continua sendo uma pessoa capaz de experimentar medo, afeto e sofrimento. O humor de Fielder opera justamente nesse conflito. Ao mesmo tempo que evidencia contradições, ele desestabiliza as certezas do espectador sobre como deveria reagir. O resultado não é uma absolvição moral, tampouco uma condenação cinematográfica simplificada. É uma experiência que exige uma participação mais ativa de quem assiste.
Então Sim, Nathan Fielder está reinventando o documentário, mas não porque criou uma linguagem inteiramente nova. O que ele faz é ressignificar os limites entre realidade, ficção e encenação, utilizando o humor constrangedor, a manipulação de situações e a própria presença da câmera para questionar o que consideramos verdadeiro.
Cineastas como Jean Rouch e Abbas Kiarostami já exploravam essas fronteiras. A diferença é que Fielder atualiza essas discussões para uma sociedade obcecada pela própria imagem, na qual até a espontaneidade pode ser cuidadosamente encenada.
Comentários
Postar um comentário