Crítica | Anaconda - Assume o trash, a nostalgia, o humor batido e constrói, a partir disso, uma comédia honesta e eficiente.

Divulgação | Sony Pictures

• Por Alisson Santos 

Há filmes que nascem para serem levados a sério, e há outros que existem justamente para zombar dessa pretensão. Anaconda, dirigido por Tom Gormican, pertence com orgulho ao segundo grupo. Desde seus primeiros minutos, embalados pela icônica e irônica “Baby Got Back”, de Sir Mix-A-Lot, o longa deixa claro que não está interessado em realismo, solenidade ou verossimilhança. O que ele quer é simples; divertir. E, surpreendentemente, consegue fazer isso com mais inteligência do que sua proposta aparentemente tola sugere.

A trama parte de uma ideia metalinguística saborosa. Um grupo de amigos que, na infância, fazia filmes caseiros se reencontra anos depois e decide refilmar Anaconda, clássico trash de 1997. O problema é que, ao se aventurarem pela Amazônia, acabam cruzando com uma anaconda de verdade — gigantesca, mortal e muito pouco disposta a colaborar com o roteiro. O que começa como um projeto nostálgico e meio patético logo se transforma em uma luta desesperada pela sobrevivência.

Essa premissa, por si só, já carrega o DNA da comédia; personagens deslocados, uma situação obviamente fadada ao desastre e a consciência de que o público sabe exatamente para onde tudo está indo. E é justamente aí que o filme encontra sua força. Anaconda não tenta surpreender no sentido tradicional. Ele aposta na previsibilidade como parte da piada. Sabemos que a cobra vai aparecer. Sabemos que tudo dará errado. A graça está em como isso acontece.

No primeiro ato, o filme se comporta como uma típica comédia de erros. Pequenos incidentes se acumulam, os diálogos são recheados de piadas fáceis e o humor nasce da frustração dos personagens diante de um projeto que desanda a cada nova tentativa de controle. A direção de Gormican aposta em um ritmo confortável, quase preguiçoso, como se estivesse aquecendo o público para o caos que virá depois.

Mas há algo além da superfície. O roteiro brinca com a própria história do cinema, com remakes desnecessários, com a nostalgia como produto e com a obsessão da indústria por reviver franquias do passado. As referências ao Anaconda original, incluindo menções a Jennifer Lopez e Ice Cube, não são apenas fan service; funcionam como comentários irônicos sobre como certos filmes sobrevivem mais como memória afetiva do que como obras propriamente boas.

Nesse jogo metalinguístico, a personagem Ana, vivida por Daniela Melchior, surge como uma figura quase enigmática. Capitã do barco e guia pelos rios amazônicos, ela parece carregar mais do que apenas a função de conduzir o grupo fisicamente. Sua presença adiciona uma camada de mistério que sustenta o interesse narrativo quando a comédia ameaça se tornar repetitiva. Mesmo sem grande aprofundamento, ela ajuda a manter a sensação de que algo maior está à espreita — e não apenas no fundo do rio.

O elenco é, sem dúvida, um dos maiores trunfos do filme. Paul Rudd assume o papel de Griff, um ator fracassado, inseguro e movido por um desejo quase infantil de recuperar a chama criativa do passado. É curioso ver Rudd, geralmente associado a personagens carismáticos e confiantes, interpretar alguém tão perdido. Ele acaba se tornando o motor emocional da história, trazendo um toque de melancolia disfarçada sob o humor. Seu Griff não quer apenas fazer um filme; ele quer provar a si mesmo que ainda é relevante.

Steve Zahn rouba muitas cenas como Kenny, um poço de neuroses e decisões equivocadas. Seu personagem funciona como catalisador do humor mais físico e exagerado, e é dele que vêm algumas das maiores gargalhadas. Zahn domina o timing cômico e constrói um tipo que, embora caricato, nunca se torna cansativo.

Divulgação | Sony Pictures

Jack Black, por sua vez, surpreende ao conter um pouco de sua energia habitual no início. Doug começa quase como o “adulto da sala”, tentando manter algum controle sobre a situação. Para quem espera o caos imediato característico de Black, isso pode soar estranho. Mas é justamente essa contenção que torna sua explosão na segunda metade do filme tão eficaz. Quando tudo desanda de vez, Black entrega o pacote completo; gritos, desespero, improvisos e aquela comédia física que beira o desenho animado.

Thandiwe Newton talvez seja quem menos tem a fazer. Sua Claire é a responsável pelas partes burocráticas da empreitada — financiamento, organização, cautela. É um papel funcional, quase ingrato, especialmente para uma atriz com tanta presença e talento. Ainda assim, Newton confere dignidade a uma personagem que poderia facilmente ser esquecível.

Outro destaque curioso do elenco é Selton Mello, que adiciona ao filme um tempero muito particular do humor brasileiro. Seu personagem é claramente pensado como um alívio cômico pontual, daqueles que entram, fazem barulho e saem de cena sem grandes consequências para a trama. É, em essência, um papel descartável dentro da engrenagem narrativa, mas Selton faz questão de aproveitá-lo ao máximo. Aguarde a cena pós-créditos.

Quando a anaconda finalmente entra em cena de forma mais explícita, o filme entrega exatamente o que promete; tensão misturada com absurdo. Não há qualquer tentativa real de terror sério. Os sustos são construídos para serem tão engraçados quanto assustadores, e a criatura, mesmo ameaçadora, carrega um ar de exagero que reforça o tom de paródia. Tudo é grande demais, barulhento demais e consciente demais de si mesmo para provocar medo genuíno.

É na segunda metade que Anaconda realmente encontra seu ritmo ideal. O caos se instala, o roteiro abandona qualquer ilusão de controle e a narrativa passa a funcionar quase como uma sequência contínua de esquete. Nesse ponto, o espectador deixa de tentar prever os acontecimentos e simplesmente se entrega à sucessão de situações cada vez mais absurdas. O filme fica mais ágil, mais engraçado e, curiosamente, mais envolvente.

Ainda assim, fica a sensação de que Anaconda não é exatamente um “filme de cinema” no sentido clássico do termo. Ele não exige tela grande, som potente ou imersão total. Funciona perfeitamente como uma experiência caseira, daquelas para assistir com amigos, rindo das mesmas piadas e comentando as cenas mais ridículas. Isso não é um defeito, mas define bem sua proposta; entretenimento leve, imediato e descartável no melhor sentido possível.

Ao final, o longa reafirma sua ideia central; a cobra é mais do que um monstro — é um símbolo. Ela representa a própria franquia, o exagero, o fascínio meio bobo por coisas grandes, perigosas e um tanto grotescas. Anaconda abraça esse espírito sem vergonha alguma. Ele sabe que está brincando com algo que nunca foi realmente bom, mas que sempre foi divertido. Tom Gormican entrega um filme que entende perfeitamente o material com que trabalha. Não tenta elevá-lo artificialmente nem transformá-lo em algo que não é. Pelo contrário; assume o trash, a nostalgia, o humor batido e constrói, a partir disso, uma comédia honesta e eficiente.

O filme estreia dia 25 de dezembro nos cinemas.

Avaliação - 6/10

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