Crítica | Mother’s Baby - É como um espelho distorcido que reflete não apenas o medo de uma mãe, mas as ansiedades mais profundas que todos nós carregamos em relação ao desconhecido e ao incontrolável.
| Divulgação | Autoral Filmes |
• Por Alisson Santos
Mother’s Baby é um filme singular e inquietante que marca mais um passo ousado da cineasta austríaca Johanna Moder na exploração dos limites do gênero thriller psicológico. A trama acompanha Julia, uma maestrina de 40 anos bem-sucedida que finalmente realiza o sonho de ser mãe, após um tratamento de fertilidade promissor. Contudo, o que começa como esperança e realização transforma-se em uma espiral de dúvida, ansiedade e horror silencioso.
Moder constrói um mundo cinematográfico onde a maternidade, normalmente associada à alegria e plenitude, se converte em território de incerteza e ansiedade. Do momento em que o bebê é retirado de Julia após o parto — sem explicações convincentes — até o retorno da criança com características que a protagonista não reconhece, a narrativa trabalha incessantemente com a tensão entre realidade e percepção. Essa oscilação entre o que é vivido pela personagem e o que é percebido pelo público serve de eixo para a construção do suspense.
Esse desconforto evocativo é intencional. Moder parece convidar o espectador a sentir aquilo que Julia sente; a inquietante sensação de que uma experiência que deveria ser natural e bela — a maternidade — pode se tornar estrangeira e aterradora. Em vez de respostas claras, somos jogados em um território nebuloso. Esse modo deliberado de narrar aproxima Mother’s Baby de filmes como O Bebê de Rosemary (1968), não pelo sobrenatural explícito, mas pela forma como a protagonista é deixada sozinho com suas dúvidas existenciais e psicológicas.
A atuação de Marie Leuenberger no papel de Julia é o coração pulsante do filme. Sua interpretação é sutil, precisando transportar uma transformação íntima — de uma mulher confiante para outra corroída por medo e insegurança — sem recorrer a gestos melodramáticos. Cada olhar, cada hesitação, constrói uma personagem que as plateias podem tanto sentir empatia quanto desconforto profundo.
Ao seu lado, Hans Löw como Georg e Claes Bang como o enigmático Dr. Vilfort desempenham papéis que se movem entre o terreno do apoio e o da ameaça velada. O marido, mais distante e pouco compreensivo, encarna, em certa medida, a incompreensão social diante das lutas internas de uma mulher. Já Vilfort — com seu comportamento ambíguo — contribui para a atmosfera clínica e opressiva que permeia grande parte do filme.
Moder faz uso de um ritmo deliberadamente desconfortável que ecoa o estado mental de sua protagonista. Não há pressa em esclarecer o que está acontecendo; ao contrário, o som, o enquadramento e a edição trabalham de modo a aumentar a sensação de estranhamento. A fotografia fria e a ambientação clínica das cenas no hospital ou na casa isolam emocionalmente o espectador, mergulhando-o no mesmo labirinto psicológico que Julia percorre.
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No entanto, é justamente nessa opção pela contenção que surgem os principais pontos negativos. O ritmo deliberadamente lento, que em muitos momentos amplifica a tensão, também pode gerar frustração. Há sequências que se estendem além do necessário, reiterando a mesma sensação de desconfiança sem acrescentar novas camadas dramáticas. A ambiguidade, embora sofisticada, às vezes parece mais um mecanismo de evasão do que uma escolha narrativa plenamente desenvolvida.
Um recurso recorrente — como a presença simbólica de axolotes em tanques — funciona como metáfora visual para a regeneração e a transformação, mas também para a ideia perturbadora de algo que parece vivo e natural, mas que é estranho à experiência humana comum.
O maior triunfo de Mother’s Baby está em sua coragem de abordar questões complexas como depressão pós-parto, expectativas sociais sobre maternidade e a fragilidade da identidade feminina. Ao invés de oferecer conforto narrativo, o filme levanta perguntas sobre como a sociedade trata a experiência feminina e a percepção de instinto materno — muitas vezes romantizada e idealizada.
Essa abordagem transforma a obra de Moder em mais do que um thriller; torna-a uma reflexão profunda — e por vezes perturbadora — sobre o medo, a perda de controle e a difícil conciliação entre o desejo de criar e o peso das expectativas culturais.
Nesse ponto, o filme é um estudo psicológico que desafia o espectador a confrontar seus próprios padrões de confiança, realidade e amor. Ao evitar respostas fáceis e abraçar a ambiguidade, a diretora Johanna Moder nos oferece uma peça cinematográfica que ecoa muito depois que os créditos finais rolam — como um espelho distorcido que reflete não apenas o medo de uma mãe, mas as ansiedades mais profundas que todos nós carregamos em relação ao desconhecido e ao incontrolável.
Mother’s Baby estreia dia 5 de março nos cinemas.
Avaliação - 7/10
Adorei a crítica. Vi recentemente, Se eu Tivesse Pernas eu te Chutaria, esse filme me parece abordar temas parecidos mais de uma forma mais contida.
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