Crítica | Cara de um, Focinho de Outro - Resgata a essência dos clássicos da Pixar, entregando personagens com histórias profundas sem a necessidade de se limitar a um tema exclusivamente infantil.

Divulgação | Pixar Animation Studios 

• Por William Silva 

Cara de um, Focinho de Outro
é, sem dúvida, um filme divertido e ousado que, além de entreter, também conscientiza ao adotar um tom mais sombrio para abordar temas reais e situações inesperadas. A obra se destaca como um forte representante dessa nova fase da Pixar, com uma narrativa fluida que equilibra ritmo frenético e humor ácido enquanto discute questões como a cadeia alimentar, o desmatamento e a ganância ao longo de sua história.

O filme também se destaca por apresentar personagens intensos e profundamente humanos, capazes de recorrer a qualquer artifício para alcançar seus objetivos, mesmo que isso lhes custe caro. Um exemplo claro é a protagonista Mabel, que, ao se distanciar do ideal de perfeição e vulnerabilidade, surge como uma figura obsessiva e determinada, mas simultaneamente desajeitada e impulsiva.

Essa dualidade a torna profundamente humana e gera momentos ao mesmo tempo emocionantes e cômicos, tanto em sua forma comum quanto nas sequências dentro do robô Castor. É nesse traje robótico que, por um breve instante, Mabel revela seu lado mais animalesco, passando a agir por instinto em situações como roer objetos ou reagir de forma mais impulsiva. Essa característica também é salientada na cena em que, durante uma conversa com o conselho dos animais, um gesto impensado acaba resultando na morte acidental de uma borboleta rainha, mostrando seu lado mais impulsivo e animalesco, agindo sem pensar. Esse e outros episódios servem de estopim para seu amadurecimento, levando-a a aprender com os próprios erros e a reconstruir a confiança que perdeu pelo caminho por conta dos seus atos, pois como o próprio filme diz, "confiança é que nem um dick, as vezes vaza água, mas você concerta".

Em contrapartida, o Prefeito funciona como o contraponto ideal para evidenciar a minuciosidade do diretor Daniel Chong ao retratar as falhas da humanidade. Esse personagem reflete fielmente certas figuras da nossa sociedade: alguém que projeta uma imagem de perfeição, mas que, no fundo, age apenas em benefício próprio e visa o lucro sem medir consequências. Trata-se de um antagonista plausível, do tipo que pisaria em qualquer um para subir e que poderíamos encontrar em qualquer esquina, ainda que sua verdadeira personalidade não seja evidente à primeira vista.

Divulgação | Pixar Animation Studios

No fim, Mabel e o Prefeito se revelam dois lados da mesma moeda, evidenciando como o ser humano pode ser cruel e, ao mesmo tempo, agente da própria destruição, mas ainda capaz de redenção. Mesmo inseridos em uma animação, ambos se destacam como personagens essencialmente humanos.

Tecnicamente, o filme também é um deleite visual. Embora não busque o realismo, sua estética cartunesca ainda possui uma qualidade tátil como se pudéssemos tocar em uma pintura vibrante feita à mão, mas que se desdobra de uma maneira surrealista, que nos faz lembrar daquelas obras 2D tradicionais, nas quais os personagens se esticam e exibem expressões exageradas, mas que é executado de forma tão natural que não gera estranheza, mesmo tratando-se de uma animação 3D.

E, além disso, ainda utiliza seu design de som para reforçar essa imersão, mesclando ruídos da natureza — como mastigação e respiração — com os sons tecnológicos de motores e botões, essenciais para a temática futurista de robôs e máquinas de transferência mental, que nesse filme serve para mostrar o avanço da tecnologia e ainda seus malefícios, nos conscientizando em certos aspectos da nova era da nossa sociedade.

Aliás, sua dublagem também entrega um trabalho muito orgânico e eficiente para esse imersão, fazendo com que o espectador não sinta a necessidade de buscar o áudio original e permitindo que as crianças imerjam completamente na história. 

E, dito tudo isso, posso concluir que Cara de um, Focinho de Outro é, certamente, um filme capaz de agradar a todos os públicos. Além de apresentar uma estética inovadora e uma narrativa mais densa, cheia de plot twists, a obra resgata a essência dos clássicos da Pixar, entregando personagens com histórias profundas e repletas de referências, sem a necessidade de se limitar a um tema exclusivamente infantil.

Cara de um, Focinho de Outro estreia dia 5 de março nos cinemas.

Avaliação - 9/10

Comentários

  1. Heitor Trindade2/3/26

    Gostei principalmente da forma como você destacou os temas mais sombrios e sociais, mostrando que o filme vai além do público infantil.

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  2. Hevellyn Oliveira2/3/26

    Todo mundo aclamando esse ❤️

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