Crítica | Dia D - Não é o retorno de Spielberg à ficção científica. É a prova de que ele nunca deixou de ser seu maior mestre.
| Divulgação | Universal Pictures |
• Por Alisson Santos
É fascinante assistir a um filme de Steven Spielberg sobre extraterrestres em 2026. Não porque o diretor esteja revisitando um tema que ajudou a definir sua carreira, mas porque o mundo finalmente parece ter alcançado algumas das perguntas que ele faz há quase cinquenta anos. Em uma era dominada por vazamentos governamentais, audiências sobre OVNIs e discussões cada vez mais intensas sobre vida fora da Terra, Dia D surge como uma obra estranhamente contemporânea. Não é apenas ficção científica. É um filme sobre informação, crença e sobre o impacto devastador que uma verdade pode ter quando deixa de ser hipótese para se tornar fato.
Ao contrário do que os trailers podem sugerir, Spielberg não está interessado em criar uma nova versão de Guerra dos Mundos. Quem espera destruição em massa, batalhas espaciais ou uma invasão alienígena tradicional encontrará um filme muito diferente. Dia D funciona muito mais como um suspense investigativo do que como um espetáculo de ficção científica. A ameaça aqui não é necessariamente o desconhecido. É o que acontece quando a humanidade é obrigada a encará-lo.
O roteiro de David Koepp transforma a revelação da existência extraterrestre em uma corrida contra o tempo. Há conspirações governamentais, denunciantes, empresas influentes e personagens tentando decidir quem merece conhecer a verdade. A estrutura lembra um thriller político clássico, mas Spielberg a envolve em uma atmosfera constante de mistério. Durante boa parte do filme, a sensação é a de estar observando pessoas tentando compreender algo muito maior do que elas próprias. Esse é justamente o maior trunfo da obra.
Spielberg entende que o medo mais poderoso não nasce daquilo que vemos, mas daquilo que não conseguimos compreender. Por isso, durante grande parte da narrativa, os extraterrestres permanecem como uma presença distante, quase abstrata. Eles existem nas sombras, nos relatos, nos sinais e nas consequências que provocam. O diretor transforma a curiosidade em tensão dramática.
Emily Blunt assume o centro dessa experiência com uma atuação extraordinária. Sua personagem carrega o peso emocional do filme e funciona como a ponte entre o espectador e o desconhecido. Blunt entrega uma interpretação marcada por nuances, transitando entre vulnerabilidade, medo e fascínio sem jamais perder a humanidade da personagem. Não é exagero afirmar que estamos diante de um dos melhores trabalhos de sua carreira.
Josh O'Connor encontra um excelente contraponto para ela. Seu personagem representa a busca obsessiva pela verdade, alguém disposto a desafiar instituições inteiras para revelar informações escondidas há décadas. O ator sustenta bem o aspecto mais investigativo da trama e ajuda a manter o ritmo durante os momentos em que o filme desacelera para aprofundar seus temas.
Visualmente, Spielberg continua sendo um cineasta praticamente incomparável. Poucos diretores possuem tanta confiança na linguagem cinematográfica. A forma como ele organiza personagens dentro do quadro, utiliza movimentos de câmera para revelar informações e cria tensão apenas através da encenação demonstra um domínio que continua impressionante.
| Divulgação | Universal Pictures |
A fotografia de Janusz Kamiński contribui para essa sensação de realismo quase documental. O filme frequentemente abandona a grandiosidade visual típica dos blockbusters para assumir uma aparência mais crua. Essa decisão aproxima os acontecimentos do nosso mundo e torna os eventos ainda mais inquietantes.
Naturalmente, John Williams surge como outro elemento fundamental da experiência. Em sua trigésima colaboração com Spielberg, o compositor entrega uma trilha que mistura admiração, melancolia e suspense. Não é uma música que tenta dominar as cenas; ela existe para amplificar a sensação de que estamos testemunhando algo histórico.
Ainda assim, Dia D não é uma obra perfeita. Sua duração de quase duas horas e meia cobra um preço. Há trechos em que o ritmo se torna excessivamente contemplativo, insistindo em mistérios que já foram compreendidos pelo espectador. Algumas explicações também não possuem a elegância necessária para conectar todas as peças da narrativa. Em certos momentos, o roteiro parece mais interessado em discutir suas ideias do que em encontrar a melhor forma de dramatizá-las.
Mas então chega o terceiro ato. E Spielberg lembra por que continua sendo um dos maiores cineastas vivos. Os vinte minutos finais são simplesmente arrebatadores. Não por conta de explosões ou cenas de ação grandiosas, mas porque o diretor compreende que o verdadeiro espetáculo está na emoção humana diante do impossível. É um clímax construído sobre fascínio, medo e esperança. Um clímax que faz o espectador olhar para o céu da mesma forma que os personagens olham.
Existe uma sensação genuína de maravilhamento nesses momentos finais. A mesma sensação que transformou Contatos Imediatos do Terceiro Grau em um clássico décadas atrás. Spielberg não está interessado em responder todas as perguntas. Pelo contrário. Ele utiliza as respostas apenas para criar novas dúvidas.
Quando os créditos sobem, a impressão que fica é que Dia D não é um filme sobre alienígenas. É um filme sobre humanidade. Sobre como reagimos diante do desconhecido. Sobre o quanto nossas crenças moldam nossa percepção da realidade. E sobre a necessidade quase infantil de continuar olhando para as estrelas em busca de algo maior.
Dia D estreia amanhã nos cinemas.
Avaliação - 8/10
Ótima crítica.
ResponderExcluirMuito ansioso por esse.
ResponderExcluirSou suspeito pra falar porque adoro essa temática, mas me parece que se tornará um novo clássico no futuro.
ResponderExcluirAnsiosa demais.
ResponderExcluirParabéns pela crítica. Impressionante como conseguiu transmitir tudo que eu senti com o filme, principalmente nos defeitos.
ResponderExcluirFilme impressionante. Muitos simbolismo, principalmente envolvendo religião.
ResponderExcluir