Crítica | A Odisseia - É uma homenagem viva a uma obra que conecta deuses e homens, encontrando uma nova verdade para uma história que ainda merece ser declamada pelas Musas.

Divulgação | Universal Pictures

• Por Daniel Pereira 

Considerado por muitos como o longa-metragem mais aguardado do ano, A Odisseia chega aos cinemas com o desafio de entregar um trabalho que supere as expectativas, preserve a essência de uma obra atemporal e reafirme o talento do renomado Christopher Nolan. De diferentes maneiras, esse resultado parece ter sido alcançado, pois o filme se desprende de tudo o que engloba o imaginativo quando pensamos na história de um herói tão emblemático e no contexto mitológico que molda sua narrativa.

O olhar realista e humano de Nolan traz uma perspectiva que não é visível em outras adaptações que exploram o fundo mitológico. Tudo o que enxergamos ao longo dos anos em diferentes obras acabou por moldar uma percepção que não se enquadra na Odisseia, e justamente essa ruptura traz uma nova abordagem que faz toda essa fantasia parecer real, como se o mundo ali representado fosse parte da história da humanidade, como alguns de fato acreditam que seja.

Destrinchar a complexidade dessa obra é instigante, pois cada nova cena e cada representação das histórias vivenciadas por Odisseu apenas confirmam o motivo de tanta expectativa sobre um filme que, em tese, deveria ser simples, assim como tantos outros, mas que se molda em tantas camadas que acaba se elevando como uma reafirmação do quanto ele de fato é bom no que se propõe.

Falando diretamente sobre os cenários do filme, é nítido o impacto que uma obra tem ao usar espaços reais para realizar as cenas e, por mais que eu entenda a praticidade de uma tela verde e de edições em CGI que dão vida ao impossível, nada é capaz de substituir um cenário real que conversa com a obra, trazendo ao público a sensação de que aquilo que está sendo representado pode ser visto de perto, em uma fusão da realidade apresentada com a do espectador. Esse ponto acaba por tornar cada cena única, desde as batalhas, que não parecem simples coreografias, mas uma luta real pela vida, com soldados avançando contra a própria morte, até os diálogos, que ganham maior sentido junto com a ambientação.

Divulgação | Universal Pictures

A escolha de Nolan de trazer uma visão mais realista de deuses e monstros, deixando de lado o aspecto fantasioso, não é simplesmente um acerto, mas uma marca do filme, no qual, pela primeira vez, temos uma representação de um ciclope que foge do estereótipo dos RPGs, sendo uma criatura complexa, quase humana em alguns aspectos, e não somente um troglodita. Adaptar Polifemo da maneira como ele é apresentado no filme chega a ser belo, e uma das falas de Odisseu após descobrir a capacidade de fala do ciclope traz ainda mais sentido à sua representação, algo que faltou em outras adaptações do personagem.

Falando diretamente sobre o personagem central, Odisseu, durante todo o filme, me trouxe uma visão muito única. Ele não foi um herói, e isso não é uma crítica ou invalidação de seus atos; pelo contrário, ele mesmo se coloca nesse lugar, e isso faz sentido. Os erros de Odisseu são o que desencadeiam suas aventuras. Sua façanha ao vencer a guerra traz consequências muito maiores do que o esperado; seu ato de heroísmo se torna uma revolta, uma violação daquilo que era mais sagrado e que foi tão pregado no filme.

Odisseu é um personagem complexo, e acompanhar sua trajetória e a queda de tantas pessoas ao seu redor levanta o questionamento sobre se de fato ele seria merecedor de tamanha ajuda divina. Matt Damon entrega um trabalho incrível com a representação do personagem; um homem que se quebra ao longo do caminho e continua a juntar cada peça em busca de chegar ao seu objetivo, por mais que ele sempre escape por entre seus dedos.

Obviamente, o elenco de peso já é o suficiente para sustentar o filme, mas cada um deles desempenhou um papel verdadeiramente belo e coeso em suas interpretações. O destaque de Zendaya como Atena me prendeu de muitas formas, e sua representação tão simples e humana, quando comparada às imagens da deusa da sabedoria e da estratégia em batalha, faz absoluto sentido quando entendemos que o papel da deusa não era apenas guiar, mas também levar Odisseu à reflexão sobre seus próprios atos. Essa representação dos deuses é algo que me chama a atenção, porque nenhum humano seria digno de conhecer a face dos deuses, e, por isso, eles enxergam apenas aquilo que seus corações seriam capazes de compreender.

Divulgação | Universal Pictures

Lupita Nyong’o nos apresenta uma versão do que realmente acontece com Helena após a guerra, pois o peso de tanta dor e morte repousa sobre os ombros da mulher mais bela da Grécia, e até mesmo as marcas dessa guerra estão em seu corpo, roubando aquilo que foi o causador de tamanha desgraça. Menelau não a ama; ele a enxerga como um troféu conquistado, não importa o estado em que ela esteja, e essa dinâmica de conquista e rancor funciona muito bem graças à desenvoltura de Jon Bernthal ao lado de Lupita.

Sem qualquer sombra de dúvidas, a performance de Samantha Morton como Circe foi sublime ao mostrar a magia em sua forma mais crua e ritualística, ofertando uma nova visão sobre a feiticeira mais famosa e, juntamente com Charlize Theron incorporando Calipso, o filme nos oferece uma nova leitura de personagens tão emblemáticas que tradicionalmente são tidas como vilãs.

Todo o elenco se sobressai em suas cenas, e suas aparições ganham sentido a cada novo trecho apresentado do filme, mas as cenas de Anne Hathaway e Tom Holland mostram uma sinergia indiscutível, trazendo uma naturalidade para a relação entre mãe e filho e toda a carga emocional que os anos impuseram sobre ambos, que lutam contra um destino que os engaiola e os arrasta para o precipício. O senso de dever e o peso do trono de Ítaca repousam sobre Penélope e Telêmaco, e isso se revela em momentos de explosão, nos quais o estresse transborda e expõe a vulnerabilidade de quem foi deixado para trás.

Robert Pattinson se esforça para ser detestável como Antínoo e consegue isso de maneira magistral, pois, em cada cena, eu só conseguia pensar no quão covarde e odioso era aquele personagem. Sua relação direta com Sinon (Elliot Page) apenas reforça o quão bem ele se saiu no papel. Inclusive, a participação de Elliot foi muito bem construída, e seu personagem carrega uma mensagem muito forte e positiva sobre a responsabilidade que carrega.

A adaptação das aventuras é realmente mais realista, desde a batalha contra Polifemo até a apresentação das sereias, que se relaciona diretamente com a imagem das Nereidas (filhas do deus Nereu). Apesar de positivo, isso ainda me gerou um certo incômodo com a representação de Cila, mas essa é uma questão de percepção pessoal. Dito isso, o filme tem uma construção sólida e muito bem elaborada, na qual nada é por acaso, e a identidade cultural é respeitada, assim como a obra que lhe deu origem. Os figurinos são funcionais, e não há glamour nem encantamento, apenas a realidade de uma guerra e de suas consequências em um mundo onde o impossível é apenas uma questão de crença.

A Odisseia é uma homenagem viva a uma obra que conecta deuses e homens. Mais do que uma aventura, é uma nova verdade para uma história que sobrevive e ainda merece ser declamada nos poemas das Musas.

Adaptação cinematográfica do poema de Homero estreia nos cinemas brasileiros em 16 de julho.

Avaliação - 9/10

Comentários

  1. Gabriel Miranda15/7/26

    Gostei bastante da crítica porque ela passa a sensação de que o filme vai além de uma simples adaptação da obra do Homero. O que mais me chamou atenção foi essa ideia de mostrar a mitologia de um jeito mais realista, sem perder o peso da história. Também achei interessante a forma como o texto fala do Odisseu, não como um herói perfeito, mas como alguém cheio de falhas e consequências pelas próprias escolhas.

    ResponderExcluir
  2. Tiago Pires15/7/26

    Adorei o texto. Ansioso demais por esse filme.

    ResponderExcluir
  3. Rogério Lima15/7/26

    Nolan não erra.

    ResponderExcluir

Postar um comentário