Crítica | Sobrenatural: Agora Entre Nós - É um pandemônio ousado e caótico de ideias que atravessam diferentes portas, mas se perdem em decisões mal executadas.

Divulgação | Sony Pictures

• Por Daniel Pereira 

O retorno de Sobrenatural marca o início de um novo perigo, trazendo o mal sob uma face diferente, sem abandonar suas raízes e incrementando novos elementos em uma narrativa semelhante à primeira. Como visto no trailer, o novo capítulo promete entregar tensão e muito horror, com o objetivo de reviver o mesmo sentimento que capturou os fãs da obra anos atrás. Muito do que é esperado da obra pode ser visto em partes que moldam o começo da narrativa do filme, mas, ao longo do caminho, esses mesmos elementos deixam de se manifestar para dar espaço a uma abordagem que faça sentido à nova história apresentada.

O filme inicia nos introduzindo à história de Gemma, uma mãe solo com muitas questões mal resolvidas com seu passado e com os traumas maternos deixados pela infância que lhe foi roubada por forças que sequer estavam sob sua compreensão.
Para a introdução de Gemma, um pouco de seu passado é ilustrado nos primeiros minutos de filme, antes de sermos conduzidos a um salto temporal de vinte anos, quando conhecemos a versão adulta dessa criança que enterrou seu passado no sótão, mas ainda se recusa a aceitar o desapego. Acompanhar esses impactos na personagem, enquanto ela tenta o seu melhor para criar a própria filha longe do mesmo ciclo vicioso que viveu, é uma abordagem interessante que acrescenta camadas e não a reduz apenas a uma mulher assombrada que enlouquece ao longo da jornada, como é comum.

Justamente por Gemma ter essas boas camadas que ocultam seu trauma, acompanhar a deterioração de sua mente acaba sendo divertido, e a direção sabe como trabalhar esse detalhe muito bem.
As primeiras sequências de ação complementam o enredo, com apostas certeiras em jumpscares, ao mesmo tempo em que trabalham a sensação de agonia e repulsa com atos simples, mas que atuam diretamente no psicológico do espectador, aumentando as expectativas da narrativa.

Apesar de seu começo promissor e do respeito ao material inicial, Sobrenatural perde consistência rapidamente, deixando sua atmosfera de suspense de lado para apostar no óbvio, atrapalhando o ritmo já estabelecido de forma abrupta e afetando a conexão e a emoção do espectador. A sensação é a de estar no escuro e simplesmente acender uma luz; fica difícil voltar a enxergar o filme com os mesmos olhos, o que desperta uma estranheza desagradável. Um dos maiores erros da obra é fugir do aspecto sobrenatural para apostar em uma escala de poder que, em tese, seria vista em filmes de heróis, mas que parece simplesmente colada no filme. Poderes em filmes de terror, quando fogem da esfera sobrenatural, acabam se tornando uma muleta que pode ou não funcionar em alguns contextos e, neste caso, a abordagem poderia ser muito melhor.

Divulgação | Sony Pictures

Outro aspecto que atrapalha o desenvolvimento são os furos no roteiro, que deixam claro que nem todos os aspectos da narrativa conversam entre si, abrindo uma brecha enorme para questionamentos que destrincham a história, expondo os retalhos costurados de diferentes ideias. Mas esse conjunto se torna pior com a introdução do vilão da trama, que, por mais esforço que fosse dedicado ao personagem, ainda assim não seria possível impor a sensação de medo idealizada para ele. Comparado ao vilão do primeiro filme, o personagem de Sam Spruell, Cyrus, se mostra uma figura cômica, com uma caracterização que só pode ser dita como tenebrosa, que se assemelha a um cosplay de Ozzy Osbourne, se ele estivesse mestrando uma mesa de RPG. Falta solidez ao personagem, e suas ações perdem o sentido quando não há justificativa para a demora na execução de seu plano, tornando-o uma figura, de certa forma, burra, como um vilão de desenho animado que tenta executar um plano infalível.

Apesar de trabalhar com uma maquiagem muito eficiente em determinados personagens, isso não pode ser aplicado como regra a todos os figurantes que assumem o papel dos mortos, tornando-os um tanto caricatos, como se não estivessem em uma adaptação cinematográfica, e sim em uma atração de algum parque ou semelhante. Ainda que caminhe com muitos tropeços, Sobrenatural consegue amarrar sua história para trazer uma conclusão satisfatória e merece certa atenção graças ao trabalho de atuação de Lin Shaye e Amelia Eve, que sustentam a inconsistência narrativa.

Sobrenatural: Agora Entre Nós é um panorama ousado, marcado por um pandemônio de ideias, que atravessa diferentes portas, mas acaba se prendendo em um labirinto de decisões mal executadas, tornando esse capítulo esquecível frente à história inicial.

Sobrenatural: Agora Entre Nós estreia amanhã nos cinemas.

Avaliação - 6/10

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