(MOSTRA SP) Crítica | A Casa do Vento - Constrói um retrato intimista de uma mulher que tenta impedir que a própria família se transforme em uma lembrança.
| Divulgação | Celluloid Dreams |
• Por Alisson Santos
Em A Casa do Vento, primeiro longa-metragem de ficção do cineasta camaronês Auguste Bernard Kouemo Yanghu, a casa deixa de ser apenas um espaço físico para se tornar a representação de um desejo cada vez mais difícil de realizar. Entre a distância provocada pela imigração, o envelhecimento e a necessidade de pertencimento, o filme constrói um retrato intimista de uma mulher que tenta impedir que a própria família se transforme em uma lembrança. Selecionada para a Competição Novos Diretores da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a produção também conquistou o prêmio de melhor filme de estreia e o Prêmio Especial do Júri da seção Orizzonti do Festival de Veneza de 2026.
A protagonista é Josette, uma mulher idosa que vive sozinha em Yaoundé, capital de Camarões. Enquanto seus filhos constroem suas vidas no Ocidente, ela alimenta a esperança de reuni-los novamente em seu país de origem. Para isso, incentiva-os a construir casas em Camarões, como se a existência de um endereço concreto fosse suficiente para convencê-los a regressar. A estratégia revela tanto sua determinação quanto a dificuldade de aceitar que o tempo transforma as relações e que o desejo de reunir uma família nem sempre corresponde aos planos daqueles que a integram.
O mérito do roteiro está em não transformar Josette em uma figura idealizada. Sua solidão desperta empatia, mas não apaga suas contradições, sua rigidez ou sua capacidade de tomar decisões que afetam negativamente as pessoas ao redor. É justamente nessa complexidade que a personagem ganha força. Em vez de apresentar o envelhecimento como sinônimo automático de sabedoria ou inocência, Yanghu reconhece que a experiência também pode alimentar ressentimentos, inseguranças e tentativas de controle. A protagonista não quer apenas a presença dos filhos; ela deseja recuperar um lugar que sente ter perdido na vida deles.
A chegada de Sarah, uma jovem que também enfrenta conflitos familiares, amplia essa discussão. As duas se aproximam quando Sarah pede que Josette finja ser sua mãe diante do namorado francês. O acordo, inicialmente sustentado por interesses particulares, abre espaço para uma relação que ultrapassa as diferenças de idade e temperamento. A jovem encontra uma figura materna que parece faltar em sua vida, enquanto a mulher mais velha experimenta uma forma de companhia que não depende das promessas distantes de seus filhos.
É nesse encontro que o filme encontra sua dimensão mais interessante. Josette e Sarah representam maneiras distintas de lidar com a ausência. Enquanto uma tenta recuperar os vínculos que o tempo e a distância ameaçam destruir, a outra procura construir o próprio futuro sem permanecer prisioneira das relações que a formaram. A aproximação entre elas não elimina suas dificuldades, mas evidencia que os laços afetivos também podem surgir fora dos modelos tradicionais de família. Ao mesmo tempo, Yanghu evita transformar essa relação em uma solução sentimental fácil, preservando as tensões e os interesses que a sustentam.
A direção também merece destaque pela maneira como observa o cotidiano sem recorrer a grandes excessos dramáticos. As ruas de Yaoundé, as conversas por videochamada, os deslocamentos pela cidade e os momentos de silêncio ajudam a construir a sensação de uma vida que continua acontecendo, mesmo quando a protagonista sente que está ficando para trás. A fotografia de Eva Sehet contribui para essa atmosfera, valorizando os espaços e a presença das personagens sem transformar Camarões em um cenário exótico destinado ao olhar estrangeiro. O país aparece como um lugar vivido, atravessado por questões sociais, afetivas e econômicas que interferem diretamente nas escolhas de seus habitantes.
| Divulgação | Celluloid Dreams |
Há, entretanto, momentos em que a narrativa parece avançar pouco. A observação paciente dos hábitos de Josette contribui para a autenticidade do retrato, mas algumas passagens poderiam ser mais concisas, especialmente quando o filme retorna a sentimentos e situações que já foram suficientemente estabelecidos. O ritmo contemplativo exige disponibilidade do espectador e, em determinados trechos, a delicadeza da abordagem ameaça se confundir com repetição. Além disso, a relação entre as protagonistas nem sempre encontra uma resolução emocional tão clara quanto a força de sua construção sugere. São limitações que não comprometem a proposta, mas impedem que a obra alcance a mesma intensidade em todos os momentos.
O aspecto mais doloroso de A Casa do Vento está na percepção de que o amor não garante proximidade. Os filhos de Josette podem continuar amando a mãe, mas suas vidas estão organizadas em torno de outras prioridades. A tecnologia permite que conversem, celebrem aniversários e acompanhem acontecimentos à distância, porém não substitui a presença física nem diminui completamente o peso da ausência. A casa que deveria reuni-los acaba simbolizando também a tentativa de interromper uma transformação que talvez seja inevitável. Construir paredes é relativamente simples quando comparado ao desafio de reconstruir relações.
O título, nesse sentido, carrega uma melancolia particular. Uma casa costuma representar estabilidade, proteção e permanência, enquanto o vento sugere movimento, passagem e aquilo que não pode ser controlado. Entre essas duas forças está Josette, agarrada à esperança de que ainda seja possível trazer de volta aqueles que partiram. Sua trajetória não oferece respostas confortáveis sobre envelhecimento, maternidade ou pertencimento. Em vez disso, convida a refletir sobre o preço emocional das escolhas individuais e sobre a dificuldade de aceitar que as pessoas que amamos não necessariamente permanecerão onde gostaríamos que estivessem.
Também existe uma dimensão pessoal que enriquece o resultado. Yanghu se inspirou na história de sua própria mãe para desenvolver a personagem central, embora o longa não seja inteiramente autobiográfico. Esse vínculo ajuda a compreender a atenção dedicada à rotina, às contradições e aos sentimentos que Josette nem sempre consegue expressar. O resultado funciona como uma homenagem à figura materna sem transformar a personagem em alguém irrepreensível ou idealizado.
No fim, A Casa do Vento se destaca menos pelos acontecimentos extraordinários do que pela capacidade de encontrar significado nos pequenos gestos e nas ausências cotidianas. Auguste Bernard Kouemo Yanghu constrói um drama sensível sobre mães que esperam, filhos que partem e famílias que tentam sobreviver às mudanças impostas pela vida. Apesar de algumas repetições e de um ritmo que poderia ser mais preciso, o filme encontra força na humanidade de suas personagens e na recusa de oferecer soluções fáceis para conflitos complexos. É uma obra que compreende que, às vezes, a maior tragédia não está em perder alguém definitivamente, mas em continuar amando uma pessoa cuja presença se torna cada vez mais distante.
A Casa do Vento está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Avaliação - 7/10
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