(MOSTRA SP) Crítica | I Love Boosters - Boots Riley transforma as absurdas injustiças do capitalismo em uma experiência caótica e surreal, na qual a própria realidade assume os contornos delirantes de um desenho animado.
| Divulgação | Universal Pictures |
• Por Alisson Santos
Em I Love Boosters, Boots Riley volta a demonstrar que não está interessado em contar histórias que respeitem os limites convencionais da realidade. Depois de transformar o ambiente corporativo em um pesadelo absurdo em "Sorry to Bother You", o cineasta direciona sua irreverência para a indústria da moda, o consumo desenfreado e as desigualdades que sustentam o desejo por produtos de luxo. O resultado é uma sátira que mistura assalto, ficção científica, humor grotesco e crítica política em uma experiência tão inventiva quanto irregular.
A trama acompanha Corvette (Keke Palmer), uma aspirante a estilista que, ao lado das amigas Sade (Naomi Ackie) e Mariah (Taylour Paige), ganha a vida furtando roupas de lojas e revendendo as peças por preços mais acessíveis. O grupo, conhecido como Velvet Gang, acaba entrando em rota de colisão com Christie Smith (Demi Moore), uma poderosa empresária da moda cuja arrogância transforma a disputa em algo muito maior do que uma sequência de roubos. Por trás da premissa de comédia criminal, Riley constrói uma provocação sobre quem realmente tem o direito de produzir, consumir e lucrar com a cultura.
O grande mérito do filme está em compreender que a moda não representa apenas uma questão de aparência, mas também de identidade, pertencimento e poder econômico. As roupas vendidas como símbolos de exclusividade dependem de uma estrutura de produção que explora trabalhadores e mantém determinados grupos afastados do próprio consumo que movimenta a indústria. Riley expõe essa contradição sem transformar a narrativa em um drama social convencional. Em seu universo, as injustiças do capitalismo são tão absurdas que a única resposta possível parece ser levá-las ainda mais longe, até que a realidade adquira os contornos de um desenho animado.
Essa escolha se manifesta na maneira como o diretor distorce espaços, exagera situações cotidianas e introduz elementos fantásticos para traduzir problemas concretos. A precariedade financeira, por exemplo, deixa de ser uma preocupação abstrata quando as obrigações e as contas se materializam como uma ameaça física. É uma solução visual particularmente eficiente porque transforma a ansiedade econômica em algo impossível de ignorar. O que normalmente seria tratado por meio de diálogos explicativos ganha forma, movimento e uma dimensão quase física, reafirmando a habilidade de Riley para encontrar imagens capazes de expressar aquilo que a linguagem cotidiana costuma banalizar.
A direção de Riley também encontra força na disposição de misturar linguagens sem pedir licença. A narrativa incorpora recursos de ficção científica, comédia física, animação em stop-motion e situações que parecem obedecer à lógica de um pesadelo febril. A fotografia de Natasha Braier explora cores intensas e composições extravagantes, enquanto os figurinos assumem um papel central na construção desse universo artificial, no qual a imagem de sucesso importa mais do que as condições necessárias para alcançá-lo. A trilha sonora de Tune-Yards completa a experiência com uma energia que ajuda a sustentar o ritmo frenético da obra.
Nesse cenário, Keke Palmer funciona como o principal ponto de equilíbrio. Sua Corvette é ambiciosa, carismática e consciente das contradições que a cercam. Ela deseja construir uma carreira como estilista, mas precisa sobreviver em um sistema que dificulta justamente o acesso de pessoas como ela às oportunidades que promete oferecer. A personagem não é uma revolucionária livre de contradições, e isso torna sua trajetória mais interessante. Seu conflito está em querer conquistar um espaço dentro de uma estrutura que despreza pessoas de sua origem, mesmo sabendo que o reconhecimento oferecido por essa estrutura pode exigir concessões. Palmer encontra humor e vulnerabilidade nessa dualidade, impedindo que a personagem se transforme apenas em porta-voz das ideias do diretor.
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| Divulgação | Universal Pictures |
Demi Moore, por sua vez, compõe uma antagonista que personifica a transformação da criatividade em propriedade comercial. Christie Smith não representa somente uma empresária cruel, mas uma indústria que sabe converter tendências culturais em mercadorias e, depois, vender a exclusividade como se ela fosse resultado de um talento isolado. A oposição entre as duas personagens estabelece uma das provocações mais interessantes do longa; enquanto uma tenta criar algo próprio sem conseguir acesso aos meios necessários, a outra acumula prestígio e riqueza dentro de um sistema que concentra as recompensas nas mãos de quem já detém o poder.
O problema é que I Love Boosters nem sempre consegue organizar tantas ideias em uma narrativa coesa. Riley parece tão interessado em descobrir novas maneiras de subverter as expectativas que, em determinados momentos, deixa de desenvolver adequadamente as consequências de suas próprias invenções. Subtramas surgem, personagens secundários ganham espaço e situações cada vez mais extravagantes disputam a atenção do espectador. Embora essa imprevisibilidade faça parte da identidade do cineasta, nem todas as digressões contribuem para o conjunto. Algumas piadas perdem força, determinados conflitos emocionais são abandonados cedo demais e a dinâmica entre as protagonistas nem sempre recebe a atenção necessária para que suas relações tenham o mesmo impacto que as ideias políticas ao redor delas.
Essa dispersão também enfraquece parte da crítica social. O filme identifica com clareza os mecanismos de exploração que pretende denunciar, mas nem sempre aprofunda as contradições que apresenta. Em alguns momentos, a acumulação de absurdos parece substituir o desenvolvimento das ideias, como se aumentar o volume da sátira fosse suficiente para torná-la mais contundente. A extravagância é parte essencial da proposta de Riley, mas existe uma diferença entre desafiar a lógica narrativa e perder de vista o que torna uma história emocionalmente envolvente.
Ainda assim, seria um equívoco exigir que o cineasta transforme sua inquietação política em uma narrativa perfeitamente comportada. O desconforto faz parte de seu método, assim como a recusa em separar entretenimento e provocação. Ao colocar um grupo de mulheres que vive de furtos contra uma magnata da moda, Riley questiona a moralidade de uma sociedade que condena determinadas formas de apropriação enquanto normaliza outras, desde que sejam praticadas por pessoas com dinheiro, influência e legitimidade institucional. A provocação não depende de considerar toda ação das protagonistas justificável, mas de perguntar por que as regras parecem tão diferentes conforme a posição ocupada por cada indivíduo.
No fim, I Love Boosters é uma obra que impressiona mais pela inventividade do que pela precisão. Boots Riley reúne imagens memoráveis, humor agressivo e uma visão política bastante definida, mas a multiplicidade de caminhos que escolhe percorrer impede que todas as suas ideias alcancem o mesmo potencial. "Se Sorry to Bother You" já demonstrava sua disposição para empurrar a sátira até territórios inesperados, seu novo longa reafirma essa característica com ainda menos interesse em moderação. O resultado é irregular, por vezes excessivo, mas dificilmente indiferente.
I Love Boosters está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O filme estreia nos cinemas em 19 de novembro.
Avaliação - 7/10

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