Ficção científica à brasileira; 'Yellow Cake' imagina um futuro onde o Aedes aegypti vira arma científica
![]() |
| Divulgação | Olhar Filmes |
• Por Alisson Santos
O cinema brasileiro volta a romper fronteiras ao apostar em um território pouco explorado nacionalmente; a ficção científica. Yellow Cake, novo longa do diretor Tiago Melo, surge como uma das produções mais ousadas do país nos últimos anos ao unir ciência, política, território e medo coletivo em uma narrativa que parte de um problema muito real; o Aedes aegypti.
Selecionado para estrear mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Roterdã, um dos principais palcos do cinema autoral contemporâneo, Yellow Cake coloca o Brasil no centro de um debate global ao imaginar um experimento científico radical realizado no interior da Paraíba. A proposta parece simples — erradicar o mosquito transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunya —, mas o método escolhido revela um abismo ético; o uso de urânio extraído da própria região como parte de um projeto secreto de controle biológico.
Ambientado no sertão de Picuí, o filme constrói uma atmosfera que mistura realismo social, ficção especulativa e tensão política. Quando o experimento sai do controle, o que estava restrito a um laboratório passa a afetar toda uma comunidade, expondo as fragilidades de um país acostumado a servir como campo de testes para soluções extremas. O Aedes deixa de ser apenas um vetor de doenças e passa a simbolizar algo maior; a incapacidade humana de prever as consequências de seu próprio avanço tecnológico.
Tiago Melo, já reconhecido internacionalmente por seu cinema autoral, utiliza a ficção científica não como espetáculo vazio, mas como ferramenta crítica. Yellow Cake dialoga com tradições do gênero — do sci-fi político ao horror científico — sem abandonar o olhar profundamente brasileiro. O sertão não aparece como paisagem exótica, mas como território vivo, marcado por desigualdades históricas, exploração de recursos naturais e promessas de progresso que quase nunca chegam completas.
O elenco reforça essa proposta ao unir nomes experientes e personagens enraizados no cotidiano local. Rejane Faria interpreta uma cientista dividida entre a ética e a urgência do resultado; Tânia Maria surge como uma figura-chave da comunidade, representando a memória, a desconfiança e a resistência; enquanto personagens secundários ajudam a construir um mosaico humano afetado por decisões tomadas longe dali, em centros de poder invisíveis.

Comentários
Postar um comentário