Crítica | A Miss - Um estudo empático sobre nossos próprios espelhos sociais.

Divulgação | Olhar Filmes

• Por Alisson Santos

Mais do que um filme sobre concursos de beleza, A Miss, usa o universo cintilante das passarelas como cenário para uma reflexão profunda sobre identidade, pertencimento e as expectativas que as famílias depositam sobre seus membros. O novo longa-metragem brasileiro de Daniel Porto — exibido antes mesmo de sua estreia nacional em festivais europeus, como o Actrum International Film Festival (Espanha) e o OMOVIES Festival (Itália) — dialoga com temas sociais urgentes a partir de uma narrativa aparentemente leve, mas emocionalmente densa. 

Porto intencionalmente se afasta de uma comédia superficial ou de um melodrama simplista. A Miss opera na chamada “dramédia”, equilibrando humor ácido e momentos de crueza emocional para construir uma experiência que é ao mesmo tempo inesperadamente engraçada e profundamente comovente. A humorística inserção de cenas cotidianas com observações sociais afiadas funciona tanto como crítica quanto como espelho para a audiência — trazendo à tona as tensões entre tradição familiar, padrões estéticos e liberdade individual. 

O roteiro evita respostas fáceis — ninguém é herói puro nem vilão dedicado. Ao invés disso, vemos personagens que se moldam e se contradizem em busca de afeto, entendimento e realização pessoal, tornando a narrativa rica em ambivalências e conflitos íntimos.

Helga Nemeczyk entrega uma das performances mais marcantes do ano ao interpretar Iêda, ex-vencedora de concursos de beleza cuja vida parece ter parado no ápice de sua juventude. Mesmo guiada por um profundo amor maternal, sua obsessão por reviver a própria glória projetando expectativas na filha revela feridas que vão muito além do universo das passarelas.

A atuação é ao mesmo tempo digna de empatia e desconfortável, pois Iêda não é apenas uma figura cômica, mas uma mulher confrontada com seus próprios medos e preconceitos, convidando o público a compreender como padrões sociais moldam — e muitas vezes distorcem — o senso de valor próprio.

Divulgação | Olhar Filmes

É impossível não perceber o quanto a experiência de palco da atriz — atualmente vivendo Fafá de Belém nos musicais — contribui para a presença cênica que domina as sequências mais performáticas do filme. Ela entende o exagero do universo que interpreta, mas nunca o deixa virar caricatura completa.

Ainda assim, o roteiro por vezes simplifica o arco de Iêda. Algumas de suas motivações são sugeridas, mas não aprofundadas o suficiente. Há momentos em que a personagem poderia mergulhar em contradições mais complexas — e o filme prefere resoluções mais rápidas, quase didáticas.

Maitê Padilha, conhecida por seu trabalho em Ainda Estou Aqui, traz à Martha uma presença que oscila entre resistência e resignação. Ao recusar a tradição familiar, a filha representa uma nova geração que não apenas rejeita um legado antiquado, mas também se vê confinada por ele. Maitê trabalha muito com o olhar, com pausas, com reações sutis. Em vários momentos, sua presença sugere conflitos internos que o texto não desenvolve totalmente. É uma atuação segura, mas subaproveitada.

Se Helga é o pilar dramático, é o jovem Alan quem concentra o coração da narrativa. Em seu primeiro longa, Pedro David surpreende pela entrega emocional. Sua atuação carrega uma vulnerabilidade crua, especialmente nas cenas em que o personagem precisa justificar sua paixão por um universo tradicionalmente associado ao feminino. A dinâmica com Maitê Padilha aqui funciona muito bem, trazendo leveza, sintonia e uma troca que potencializa cada cena.

Pedro David evita o tom panfletário. Alan não é um manifesto ambulante; ele é um jovem tentando existir. Esse detalhe é crucial. O filme ganha autenticidade quando permite que o personagem apenas seja — sem discursos explicativos excessivos.

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Alexandre Lino, além de produtor, oferece uma das performances mais cativantes como Athena — tio irreverente e apoiador incansável da jornada de Alan. Sua presença introduz leveza e perspectiva crítica, funcionando quase como consciência moral do filme. Lino é a ponte entre afeto e riso, e sua entrega enriquece a narrativa com um humor que jamais subjuga o peso emocional da trama.

É evidente que A Miss opera dentro de restrições orçamentárias. E isso se manifesta principalmente na limitação de cenários e na economia de escala da produção. Grande parte da narrativa se concentra em poucos ambientes — principalmente espaços domésticos e bastidores que se repetem visualmente. Há uma sensação clara de que o filme trabalhou com número reduzido de diárias e locações, algo comum em produções de baixo orçamento. Isso impacta a sensação de mundo expandido que um filme sobre concursos de beleza poderia explorar. Não por falta de intenção estética, mas por limitações práticas. Diante da impossibilidade de expandir visualmente o espetáculo, A Miss concentra sua energia dramática no conflito geracional dentro de casa. E é ali que o filme realmente se sustenta. Ao reduzir a escala externa por necessidade, o filme amplia a escala emocional pautada na força dos seus personagens. 

Nesse aspecto, eu gosto muito da paleta vibrante e do quanto o filme bebe do ritmo emocional do cinema de Pedro Almodóvar, com uma direção de arte que usa cores saturadas, figurinos chamativos e cenografia pensada como extensão emocional dos personagens. Esse gesto estético não é apenas decorativo — ele reforça a tensão entre a teatralidade do palco e a vulnerabilidade dos momentos privados, transformando cada enquadramento em um comentário visual sobre a performance social.

A Miss não é simplesmente sobre um concurso de beleza — é sobre os concursos que todos enfrentamos para ser aceitos, compreendidos e amados. Daniel Porto constrói uma parábola cinematográfica sobre expectativas familiares, identidades fluidas e a coragem de desafiar o olhar alheio.

Com atuações potentes de Helga Nemeczyk, Maitê Padilha, Pedro David e Alexandre Lino, o filme transcende sua premissa e se torna um estudo empático sobre nossos próprios espelhos sociais. É uma obra que convida tanto ao riso quanto ao debate — uma raridade no cinema brasileiro contemporâneo que merece atenção, reconhecimento e discussão muito além de sua estreia nos cinemas. 

O filme estreia nos cinemas brasileiros em 26 de fevereiro, com distribuição da Olhar Filmes.

Avaliação - 7/10

Comentários

  1. Pietro Zanelli20/2/26

    Fiquei com vontade de assistir justamente por causa desse foco emocional.

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  2. Patty Gomes20/2/26

    A distribuição vai ser em qual escala? Porque é difícil alguns filmes brasileiros chegarem aqui onde moro.

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