Crítica | Quarto do Pânico - Entre o medo interno e a ameaça externa, 'Quarto do Pânico' é mais interessante nas ideias do que na execução.
| Divulgação | Telecine |
• Por Alisson Santos
Quarto do Pânico, dirigido por Gabriela Amaral Almeida, parte de uma premissa conhecida para construir algo que vai além do exercício de gênero. Embora dialogue diretamente com o clássico homônimo de David Fincher, o filme brasileiro se afasta da ideia de remake literal e se afirma como uma releitura atravessada por medos muito mais próximos da realidade urbana e emocional do país.
A narrativa acompanha Mari, interpretada por Isis Valverde, uma mulher marcada pelo luto que se muda com a filha para uma casa equipada com um quarto de segurança. O que deveria representar proteção logo se revela um paradoxo cruel; o espaço blindado se transforma em armadilha, expondo a fragilidade da promessa de segurança absoluta. Gabriela Amaral Almeida explora esse contraste com precisão, usando o ambiente fechado como extensão do estado emocional da protagonista, em um jogo constante entre controle e desespero.
Isis Valverde entrega uma atuação contida e eficiente, sustentada mais por silêncios, olhares e pequenas reações do que por explosões dramáticas. Sua personagem convence justamente pela forma como o medo vai sendo metabolizado em instinto de sobrevivência. Ao seu lado, a jovem que interpreta a filha funciona como contraponto emocional, representando uma infância forçada a amadurecer diante da violência, ainda que em alguns momentos sua construção soe um pouco funcional demais ao avanço do roteiro.
Visualmente, o filme aposta em uma atmosfera sufocante, com uma câmera que privilegia planos fechados e movimentos calculados, reforçando a sensação de aprisionamento. A direção de arte e o desenho de som contribuem para esse clima constante de ameaça, embora nem sempre consigam renovar a tensão. Em determinados trechos, especialmente no segundo ato, o filme parece se apoiar excessivamente na repetição da mesma situação de perigo, fazendo o ritmo oscilar e enfraquecendo o impacto dramático de cenas que deveriam ser decisivas.
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Os invasores, interpretados por André Ramiro, Marco Pigossi, Caco Ciocler apesar de bem defendidos pelo elenco, acabam funcionando mais como engrenagens do suspense do que como personagens plenamente desenvolvidos. Falta a eles uma dimensão psicológica mais profunda, o que empobrece o embate moral que o filme sugere. Em um thriller que flerta com o horror social, essa superficialidade soa como uma oportunidade perdida de aprofundar as raízes da violência que atravessa a narrativa.
Há também momentos em que a lógica do gênero se impõe de maneira um pouco forçada. Algumas soluções ligadas à sobrevivência exigem uma suspensão de descrença maior do que o próprio tom realista do filme parece comportar, criando pequenas rupturas na imersão. Da mesma forma, o subtexto social — especialmente a crítica à ilusão da segurança privada e à vulnerabilidade feminina — por vezes surge de forma excessivamente explícita, reduzindo a sutileza que marca os melhores instantes da direção.
Ainda assim, Quarto do Pânico não é um desastre completo, ele se sustenta como um filme inquieto e relevante. Seus desequilíbrios não anulam suas virtudes; pelo contrário, revelam uma obra que prefere arriscar do que se acomodar em fórmulas seguras. Gabriela Amaral Almeida demonstra domínio do suspense e interesse genuíno em usar o gênero como ferramenta de desconforto e reflexão. No fim, o filme deixa a sensação de que o verdadeiro terror não está nos invasores, mas na constatação de que, em certos contextos, até os espaços criados para proteger podem se transformar em prisões.
Após ser exibido no Festival do Rio em 2025, Quarto do Pânico chega com exclusividade direto ao catálogo do Telecine no streaming — disponível no Globoplay, Prime Video Channels e via operadoras — no dia 13 de fevereiro. Na TV, o filme dirigido por Gabriela Amaral Almeida faz sua Superestreia no Telecine Premium no sábado (dia 14), às 22h, e será exibido novamente no domingo (dia 15), no Telecine Pipoca, às 20h.
Avaliação - 6/10
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