Entre a selva da alma e a aquarela da memória; Gorillaz alcança o sublime em 'The Mountain, The Moon Cave & The Sad God'
| Divulgação | Gorillaz |
• Por Alisson Santos
Entre o delírio tropical de Apocalypse Now e a delicadeza artesanal da animação 2D dos anos 60, o Gorillaz entrega talvez seu projeto audiovisual mais ambicioso e intimista; The Mountain, The Moon Cave & The Sad God. O curta de oito minutos, produzido pela Kong Studios e animado pelo estúdio londrino The Line, não é apenas um complemento visual para o novo álbum da banda, The Mountain — é uma meditação sobre luto, espiritualidade e permanência.
Dirigido por Jamie Hewlett, Tim McCourt e Max Taylor, o filme acompanha 2D, Noodle, Russel e Murdoc em uma jornada pelas selvas da Índia rumo a uma montanha enigmática. No caminho, serpentes insinuantes, vendedores místicos e deuses melancólicos em canoas de dentes ensanguentados compõem uma iconografia que mistura psicodelia, fábula oriental e pesadelo bélico. A referência à obra-prima de Francis Ford Coppola não é apenas estética; é atmosférica. A selva aqui é menos geográfica e mais espiritual — um território de confronto interior.
O contexto pessoal do projeto o torna ainda mais denso. O curta nasce após a morte dos pais de Damon Albarn e Hewlett, o que confere à narrativa um peso existencial raramente visto na trajetória do grupo. O Gorillaz sempre transitou entre ironia pop e comentário social, mas aqui há uma exposição mais crua da vulnerabilidade criativa. A jornada até o topo da montanha assume contornos de ritual de passagem, guiada por conceitos da filosofia oriental e da reencarnação. O “Deus Triste” do título não é um antagonista tradicional — é uma metáfora do vazio, da ausência e da tentativa humana de dar sentido à perda.
Tecnicamente, o curta é um deslumbramento nostálgico. Em vez de recorrer exclusivamente ao digital limpo e polido, a equipe da The Line optou por recriar — e, em certos casos, literalmente refazer — processos da Era de Ouro da animação. Acetatos reais foram pintados à mão para servir de referência aos desenhos digitais, preservando rachaduras, falhas e quebras de linha típicas da xerografia em celuloide. Em tempos de remasterizações em 4K que eliminam grãos e imperfeições, o filme abraça o ruído como textura emocional.
Os cenários em aquarela seguem a mesma lógica híbrida; pinturas físicas com tintas Nicker, as mesmas utilizadas pelo Studio Ghibli, foram digitalizadas e refinadas posteriormente. O resultado é uma profundidade cromática que nenhum filtro consegue simular. A água se espalha no papel, o pigmento respira, e essa respiração permanece visível na versão final.
O uso de efeitos práticos também reforça o caráter artesanal do projeto. Um livro real, confeccionado especialmente para o filme, abre-se sozinho diante da câmera; uma esfera de poliestireno recebe a projeção de uma Terra pintada à mão; fumaça real envolve a lente. Há algo quase teatral nessa encenação — como se o curta estivesse consciente de sua materialidade.
Mesmo as sequências mais dinâmicas carregam humanidade. Para animar os movimentos iniciais de Noodle explorando a selva, Max Taylor filmou o próprio filho atravessando obstáculos improvisados. Pequenos desequilíbrios, hesitações e impulsos infantis foram incorporados à animação, acrescentando uma camada de autenticidade que a rotoscopia tradicional talvez não captasse com tanta espontaneidade. O gesto artesanal se estende até a observação do corpo em movimento.
Dentro da trajetória audiovisual do Gorillaz — que já experimentou do 2D clássico ao 3D estilizado em fases como Cracker Island — este curta representa um retorno às raízes gráficas que consolidaram a identidade do projeto. Mas não se trata de nostalgia gratuita. A estética retrô funciona como espelho temático; falar de reencarnação e memória através de técnicas que remetem ao passado cria um diálogo entre forma e conteúdo.
The Mountain, The Moon Cave & The Sad God não é apenas um videoclipe expandido. É um pequeno épico sensorial que reafirma o potencial da animação como linguagem filosófica. Entre a selva febril de guerra interior e a delicadeza aquarelada de um conto infantil, o Gorillaz encontra um ponto de maturidade raro; aquele em que a experimentação formal não serve ao espetáculo, mas ao sentimento.
Assista ao curta animado completo no YouTube
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