O Oscar© não premia o melhor filme, premia a melhor narrativa

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Tabatha Oliveira

Existe uma crença confortável, quase ritualística, de que o Oscar© representa o 
ápice do mérito artístico no cinema. Uma noite em que, supostamente, o “melhor
filme do ano” é reconhecido entre seus pares. Essa crença, no entanto, se desfaz
rapidamente quando confrontada com a própria história da premiação. O Oscar©
nunca foi um tribunal estético neutro. Ele é, antes de tudo, um dispositivo narrativo
da indústria cinematográfica. Ao premiar um filme, a Academia não está apenas avaliando uma obra, está escolhendo qual história quer contar sobre si mesma naquele momento histórico e essa história envolve discurso, timing, bastidores, política institucional e percepção pública. Ou seja, o cinema é o ponto de partida, mas raramente o ponto final.
 
A própria estrutura da premiação deixa isso claro. O sistema de votação para 
Melhor Filme não busca excelência absoluta, mas consenso. Não vence necessariamente o filme mais amado, nem o mais radical, nem o mais inovador, vence aquele que consegue atravessar diferentes grupos de votantes sem gerar rejeição significativa. O Oscar©, nesse sentido, não recompensa ruptura, apenas recompensa aceitação ampla e essa aceitação ampla é uma categoria profundamente narrativa. Esse modelo explica por que tantos filmes hoje considerados obras-primas não foram reconhecidos em seu tempo, como por exemplo Cidadão Kane, Um Corpo que Cai, Taxi Driver, A Rede Social, Brokeback Mountain. Em retrospecto, parecem escolhas óbvias, não é mesmo? Mas no presente em que competiram, eram filmes incômodos, disruptivos ou desalinhados com a narrativa institucional que a Academia precisava sustentar naquele momento. Porque o Oscar© não responde à pergunta “qual é o melhor filme?”. Ele responde a outra, muito mais estratégica: qual filme faz mais sentido premiar agora? Essa pergunta carrega múltiplas camadas. Faz sentido politicamente? Culturalmente? Geracionalmente? Faz sentido para a imagem da indústria? Para os valores que ela deseja reafirmar ou corrigir? Para o público que ela quer alcançar ou reconquistar? É por isso que a temporada de premiações é, na prática, uma temporada de construção narrativa, onde os filmes não concorrem sozinhos, mas concorrerem com seus discursos, suas trajetórias, seus bastidores e suas histórias de legitimação. Um filme pode ser vendido como “necessário”, “urgente”, “representativo”, “reparador”, “histórico” e esses adjetivos muitas vezes pesam tanto quanto fotografia, direção ou roteiro. Do ponto de vista psicológico, isso não é surpreendente, já que humanos tomam decisões baseados em histórias. A neurociência e a psicologia cognitiva mostram que narrativas ativam empatia, memória e identificação emocional com muito mais força do que dados técnicos isolados. Quando membros da Academia votam, não estão operando como críticos imparciais, mas como sujeitos inseridos em um contexto social, emocional e simbólico. Eles votam como pessoas e pessoas são profundamente influenciadas por significado.
 
O Oscar©, portanto, funciona como um palco onde o cinema se transforma em 
metáfora cultural na qual o filme premiado não é apenas “bom”, mas “representa
algo”, representa uma virada, um pedido de desculpas histórico, uma resposta a
críticas passadas, um alinhamento com debates contemporâneos. Às vezes,
representa até mesmo uma tentativa de redenção institucional. Isso ajuda a entender por que certas vitórias envelhecem mal, enquanto certas derrotas se tornam lendárias. O prêmio resolve uma narrativa imediata, mas não controla o tempo. E o tempo, esse sim, é o crítico mais implacável pois o que permanece relevante décadas depois nem sempre é o que venceu. Mas o Oscar© nunca se propôs a ser um oráculo do futuro, ele é um retrato do presente. Há também um aspecto mercadológico inescapável. O Oscar© não é apenas um reconhecimento simbólico, é uma ferramenta econômica poderosa, ele impulsiona bilheterias, valoriza catálogos, reposiciona carreiras e legitima investimentos. Premiar um filme é, também, investir em uma narrativa que pode ser explorada comercialmente. Isso não invalida a arte, mas a insere em um ecossistema onde estética, discurso e mercado coexistem, nem sempre em equilíbrio.

O erro do público é esperar do Oscar© aquilo que ele nunca prometeu formalmente entregar: justiça artística absoluta. A frustração nasce dessa expectativa
equivocada. Quando entendemos que o prêmio opera como um mecanismo de
narrativa institucional, muitas “injustiças” deixam de parecer erros e passam a ser
decisões coerentes com a lógica do sistema. Isso não significa que o Oscar© seja irrelevante, pelo contrário, ele é extremamente relevante justamente porque revela como a indústria se enxerga e como deseja ser vista, ele mostra quais histórias ganham megafone e quais permanecem à margem, expõe tensões entre tradição e mudança, entre risco e conforto, entre inovação e consenso. 

Talvez a pergunta mais interessante não seja “por que esse filme ganhou?”, mas 
“por que era importante que ele ganhasse naquele ano?” e a resposta quase nunca
está apenas na tela. No fim, compreender o Oscar© como narrativa e não como ranking de qualidade é um exercício de maturidade cinéfila. Isso não diminui o amor pelo cinema, apenas amplia, porque nos permite assistir aos filmes sem depender da validação dourada e, ao mesmo tempo, analisar a premiação como um objeto cultural complexo, cheio de camadas, contradições e significados. O Oscar© não diz quais filmes são melhores, diz quais histórias a indústria escolheu contar sobre si mesma em determinado momento da história e essa escolha, gostemos ou não, diz muito mais sobre nós do que sobre o cinema em si.

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