Crítica | Ponto Sem Retorno - Encontra esperança em um mundo devastado, mas perde altitude quando troca o luto pelo espetáculo.
| Divulgação | 20th Century Studios |
• Por Alisson Santos
Há algo curiosamente sereno no fim do mundo imaginado por Ridley Scott em Ponto Sem Retorno. Embora apresente uma humanidade dizimada por uma pandemia e sobreviventes obrigados a conviver com a violência, o diretor não transforma o apocalipse em um cenário permanentemente cinzento. Pelo contrário; montanhas imponentes, florestas cobertas pela neblina e longos horizontes vistos do alto conferem uma beleza quase contraditória a esse universo. O mundo acabou, mas a natureza continua indiferente — e talvez mais viva do que nunca.
É nesse espaço que Hig, interpretado por Jacob Elordi, tenta reconstruir alguma espécie de rotina. Piloto e mecânico, ele divide um campo de aviação abandonado com Bangley, vivido por Josh Brolin, um homem que reduziu a existência a uma regra bastante simples; identificar ameaças antes que elas tenham a oportunidade de atacar. Enquanto Bangley protege o perímetro com armas e desconfiança, Hig ainda procura motivos para ultrapassá-lo. A oposição entre os dois estabelece a pergunta central do filme; depois que alguém aprende a sobreviver, o que ainda pode fazê-lo querer viver?
Para Bangley, continuar respirando parece suficiente. Hig, porém, precisa de algo que vá além da manutenção do próprio corpo. Ele perdeu a esposa durante a pandemia e carrega um vazio que não pode ser combatido com munição, comida armazenada ou cercas reforçadas. Seus voos não funcionam apenas como deslocamentos, mas como tentativas silenciosas de encontrar um sentido que talvez já não exista. Em determinados momentos, Hig desliga o motor do pequeno avião e permite que a aeronave simplesmente flutue. A ausência do ruído transforma o céu em um lugar de paz e, simultaneamente, de perigo. Não sabemos se ele procura alguns segundos de tranquilidade ou se está testando até onde consegue se aproximar do abismo.
Scott encontra nessa ambiguidade algumas das imagens mais fortes do longa. Com a fotografia de Erik Messerschmidt e a trilha atmosférica de Harry Gregson-Williams, as sequências aéreas assumem uma dimensão quase espiritual. O avião amarelo, pequeno diante das montanhas, traduz visualmente a fragilidade de Hig; um homem ainda em movimento, mas aparentemente sem destino. O cineasta prioriza locações reais e utiliza os efeitos digitais com contenção, permitindo que a paisagem tenha textura, peso e presença. É um pós-apocalipse menos interessado em ruínas monumentais do que no silêncio deixado por quem desapareceu.
Jasper, o cachorro que acompanha Hig, é fundamental para essa construção. Ele não está no filme somente para conquistar a simpatia do público, mas para representar o último vínculo verdadeiramente afetivo do protagonista. O animal é companhia, responsabilidade e uma razão concreta para retornar de cada viagem. O mesmo cuidado aparece quando Hig entrega mantimentos a uma comunidade menonita e leva refrigerantes para as crianças. O detalhe é pequeno, mas revela que, apesar de tudo, ele ainda acredita na importância de preservar alguma alegria em um mundo que ofereceu muito pouco a quem nasceu depois da catástrofe.
Jacob Elordi compreende a natureza reprimida do personagem e evita transformar seu sofrimento em uma sucessão de grandes discursos. Sua atuação está nos gestos, nas pausas e na maneira como Hig observa lugares que parecem maiores do que ele. Josh Brolin, por sua vez, encontra em Bangley um tipo que conhece bem; o sobrevivente endurecido, prático e permanentemente preparado para o pior. Ainda assim, o ator impede que o personagem se torne apenas uma caricatura militarizada. A brutalidade de Bangley nasce de uma lógica defensiva, como se qualquer demonstração de esperança pudesse comprometer o pouco que ele conseguiu preservar.
| Divulgação | 20th Century Studios |
A captação de uma transmissão de rádio conduz Hig até Cima, interpretada por Margaret Qualley, e seu pai, Pops, vivido por Guy Pearce. O encontro poderia transformar a personagem feminina em uma recompensa emocional para o herói, mas o filme acerta ao apresentar Cima como alguém atravessada por perdas próprias. A aproximação entre os dois não apaga o passado nem oferece uma solução instantânea para o luto. Existe culpa no desejo de recomeçar, como se permitir uma nova felicidade significasse abandonar definitivamente aqueles que morreram.
É justamente quando observa essas pessoas tentando abrir pequenas frestas em suas defesas emocionais que Ponto Sem Retorno encontra sua identidade. O filme é vendido como uma grande aventura pós-apocalíptica, mas funciona melhor como um drama contemplativo sobre indivíduos que sobreviveram fisicamente e ainda não sabem o que fazer com essa vitória. Há ação e tensão, mas Scott parece mais interessado nos intervalos; o silêncio de um voo, uma conversa hesitante, a presença de um cachorro no banco do copiloto ou a possibilidade de confiar novamente em alguém.
O problema é que o longa não sustenta essa delicadeza até o fim. Em seu último ato, a narrativa abandona parte da melancolia e se entrega a conflitos mais convencionais. Grupos de sobreviventes violentos, tiroteios e ameaças pouco desenvolvidas aproximam a produção de tantos outros títulos sobre o colapso da civilização. Os antagonistas permanecem genéricos, definidos quase exclusivamente pela selvageria, e nunca carregam a complexidade concedida aos protagonistas. Algumas sequências assumem uma energia exagerada e quase cartunesca, destoando do filme intimista construído até então.
Essa mudança não apenas compromete o ritmo, mas enfraquece o impacto da jornada. Depois de sugerir que o maior perigo enfrentado por Hig seria a ausência de razões para continuar, o roteiro busca uma ameaça externa mais simples, barulhenta e facilmente identificável. É como se o filme deixasse de confiar em seu conflito mais interessante e recorresse às convenções do gênero para produzir um clímax. A aterrissagem turbulenta não apaga a beleza do voo, mas impede que a obra alcance toda a força emocional prometida por seus melhores momentos.
Mesmo quando trabalha no piloto automático, Ridley Scott permanece capaz de criar imagens de enorme poder. Aqui, porém, existe mais do que simples competência técnica. Sob a estrutura familiar, percebe-se um cineasta interessado na proximidade da morte, na solidão e na necessidade humana de encontrar novos destinos quando todos os caminhos conhecidos desapareceram. O olhar é melancólico, mas surpreendentemente otimista; seguir adiante não significa superar completamente a perda, e sim aprender a carregar os mortos sem permitir que eles determinem o fim da viagem.
Ponto Sem Retorno estreia quinta-feira nos cinemas.
Avaliação - 6/10
Muito bom.
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