| Divulgação | MDH Entretenimento |
• Por Alisson Santos
Em um mundo marcado por crises, notícias preocupantes e incertezas políticas, encontrar motivos para continuar pode parecer cada vez mais difícil. É justamente a partir dessa realidade que o cineasta iraniano Ali Asgari constrói Um Pouco de Esperança, filme que aborda a capacidade de encontrar significado nas coisas mais simples da vida. Em entrevista à MDH Entretenimento e Igor do Ó durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o diretor falou sobre a dimensão universal da história, a relação entre vida e tragédia e a importância de preservar a esperança mesmo diante das adversidades.
O longa acompanha um médico que perde a esperança após ser preso e impedido de exercer sua profissão. Embora a narrativa parta de uma realidade específica, Asgari procurou construir uma história capaz de dialogar com espectadores de diferentes países e culturas.
“Desde o processo de escrita, eu tinha a ideia de contar uma história iraniana, mas, ao mesmo tempo, pensava em capturar momentos com os quais todos pudessem se conectar”, explicou o cineasta. Para ele, temas como família, maternidade e solidariedade ultrapassam fronteiras e permitem que o público reconheça sentimentos e experiências compartilhados.
“Você pode ser local e, ao mesmo tempo, universal, conversando também com um público universal”, afirmou.
A IMPORTÂNCIA DAS PEQUENAS COISAS
O título adotado no Brasil, Um Pouco de Esperança, ajuda a sintetizar uma das principais ideias do filme; a possibilidade de encontrar esperança em experiências cotidianas que frequentemente passam despercebidas. Ao comentar a proposta da obra, Asgari destacou que os pequenos gestos e as relações pessoais podem adquirir um significado fundamental em períodos difíceis.
“O que eu queria abordar no filme é exatamente essas coisas pequenas e simples, que são realmente importantes em nossas vidas”, disse.
O diretor observa que a exposição constante a notícias ruins e a uma sucessão de problemas pode fazer com que as pessoas deixem de perceber aquilo que ainda oferece sentido à existência. Muitas dessas experiências, segundo ele, estão disponíveis no cotidiano, mas nem sempre reconhecemos seu valor.
“Estamos cercados o tempo todo por más notícias, muitos problemas e tantas coisas acontecendo. E estamos nos esquecendo das coisas importantes da vida, que estão sempre ao nosso alcance”, afirmou.
Para Asgari, são justamente esses momentos aparentemente insignificantes que podem transformar a maneira como alguém enfrenta a realidade. O protagonista de Um Pouco de Esperança também passa por esse processo ao reencontrar aspectos da vida que havia deixado de enxergar.
“Sem essas coisas simples do dia a dia, a vida não teria significado”, declarou o cineasta.
A abordagem não ignora o sofrimento vivido pelo personagem. Em vez disso, sugere que a existência pode comportar dor e beleza simultaneamente, sem que uma dimensão necessariamente anule a outra.
VIDA E TRAGÉDIA NO MESMO ENQUADRAMENTO
A convivência entre sofrimento e cotidiano também está relacionada à maneira como Asgari enxerga a realidade iraniana. O diretor explicou que queria retratar a presença constante das tragédias em seu país sem permitir que elas dominassem completamente a representação da sociedade.
“Para mim, era muito importante mostrar a vida e a tragédia ao mesmo tempo, porque somos um país que vive constantemente entre tragédias”, afirmou.
Essa intenção aparece, segundo o cineasta, em elementos visuais distribuídos ao longo do filme. Plantas, animais, luzes e outros sinais de vida convivem com as dificuldades enfrentadas pelos personagens, criando um contraste que reforça a persistência da existência mesmo em circunstâncias adversas.
“Em cada plano do filme, você vê um sinal de vida”, explicou.
A escolha estética funciona como uma forma de resistência à ideia de que uma sociedade em crise pode ser definida exclusivamente por seu sofrimento. Para Asgari, é fundamental reconhecer que, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis, ainda existem sinais de continuidade e possibilidades de transformação.
“Apesar de vivermos neste período, a centelha de luz continua existindo, e precisamos estar atentos a ela”, declarou.
A RECEPÇÃO BRASILEIRA EMOCIONOU O DIRETOR
A participação na Mostra de São Paulo também proporcionou ao cineasta a oportunidade de observar como diferentes públicos reagem à mesma história. Depois de apresentar o filme em Veneza, Asgari encontrou no Brasil uma resposta que o surpreendeu pela intensidade emocional.
O diretor explicou que a experiência dos festivais varia de acordo com a composição do público e as particularidades culturais de cada lugar. Em São Paulo, porém, a reação dos espectadores foi especialmente marcante.
“Recebi uma reação realmente ótima do público brasileiro. Muitas pessoas reagiram ao filme de maneira muito emocional, e algumas chegaram a chorar um pouco”, contou.
Asgari estabeleceu um paralelo entre a recepção brasileira e a iraniana, identificando uma sensibilidade semelhante entre os espectadores dos dois países.
“Senti que os brasileiros são pessoas muito emotivas, assim como os iranianos. Quando os iranianos assistiram ao filme, percebi que estavam muito emocionados, e ontem vi reações semelhantes aqui no Brasil”, afirmou.
A identificação entre públicos de contextos culturais distintos reforça uma das ambições centrais do projeto; mostrar que uma história enraizada em uma realidade nacional pode alcançar espectadores que enfrentam suas próprias dificuldades, mas reconhecem sentimentos comuns na experiência dos personagens.
O CINEMA EM TEMPOS DIFÍCEIS
Durante a entrevista, a conversa também abordou os desafios de produzir filmes em períodos de instabilidade política e social. A partir da experiência de assistir à obra, Igor, da MDH Entretenimento, comentou como a narrativa o levou a prestar mais atenção aos pequenos aspectos da vida em meio às preocupações com o futuro e as ameaças à democracia.
Ao responder sobre como jovens cineastas podem retratar tempos tão complexos, Asgari retomou a mensagem central de seu trabalho; continuar, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis.
“Para mim, a mensagem do filme é considerar e enxergar esses momentos muito pequenos, os momentos simples da vida. Se alguém conseguir encontrá-los, isso é muito importante para mim”, afirmou.
O diretor também aproveitou a oportunidade para falar sobre as dificuldades práticas da realização cinematográfica. Diferentemente de outras manifestações artísticas, o cinema depende de recursos financeiros e do envolvimento de diferentes profissionais, o que torna a produção um desafio constante, especialmente para quem está começando.
“Fazer cinema é algo realmente difícil, porque é uma arte que precisa de dinheiro. Não é algo que você possa fazer sozinho”, explicou.
Diante desse cenário, Asgari aconselhou os jovens realizadores a compreenderem as limitações da profissão e encontrarem maneiras de viabilizar seus projetos sem perder de vista aquilo que desejam expressar artisticamente.
Mais do que buscar reproduzir fórmulas já estabelecidas, o cineasta considera essencial desenvolver uma identidade própria.
“Muitos jovens cineastas querem fazer filmes semelhantes aos de outras pessoas. Por isso, é muito importante encontrar o caminho que você quer seguir, descobrir que tipo de cinema deseja fazer e encontrar seu próprio gosto”, declarou.
A recomendação dialoga com a própria proposta de Um Pouco de Esperança, que parte de uma realidade particular para construir uma reflexão mais ampla sobre a condição humana. Ao valorizar os detalhes cotidianos, o filme sugere que a arte pode ajudar a reconhecer aquilo que permanece quando as certezas desaparecem.
UM CONVITE AO PÚBLICO BRASILEIRO
Ao final da entrevista, Asgari deixou um convite aos espectadores brasileiros e manifestou a esperança de que o longa tenha novas oportunidades de exibição no país.
“Espero que haja mais sessões e que o filme seja lançado no Brasil em breve. Espero que vocês assistam ao filme. Talvez possam encontrar esses pequenos momentos de esperança e de vida”, concluiu.
Em sua passagem pela 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Um Pouco de Esperança apresenta uma reflexão que não depende de respostas grandiosas para produzir impacto. Ao acompanhar um personagem confrontado com a perda e a impossibilidade de exercer sua profissão, Ali Asgari procura revelar como os vínculos humanos e os gestos cotidianos podem recuperar um sentido que parecia perdido.
A proposta não é negar a gravidade das crises, mas reconhecer que a vida continua acontecendo dentro delas. Em tempos nos quais o sofrimento frequentemente ocupa todo o espaço, o filme convida o espectador a olhar novamente para aquilo que ainda resiste — e que, justamente por parecer pequeno, corre o risco de passar despercebido.
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