Crítica | Ana, En Passant - Fernanda Salgado demonstra uma compreensão inventiva das possibilidades da animação, utilizando diferentes técnicas para materializar o luto, a memória e a busca por identidade.

Divulgação | Embaúba Filmes

• Por Alisson Santos 

Em Ana, En Passant, primeiro longa-metragem de animação dirigido por Fernanda Salgado, a busca pelas próprias origens se transforma em uma investigação delicada sobre aquilo que herdamos das pessoas que amamos. Misturando luto, identidade, ancestralidade e pertencimento, o filme encontra sua maior força na construção visual, que utiliza diferentes técnicas de animação para expressar sentimentos que nem sempre podem ser traduzidos em palavras.

A história acompanha Ana, uma jovem negra franco-brasileira que vive em Paris e perde a avó Alice, figura fundamental em sua vida. Após a morte, uma caixa com cartas, fotografias, chaves e um endereço em Belo Horizonte abre caminho para uma viagem ao Brasil. O que começa como uma tentativa de compreender o passado familiar se transforma em uma jornada de autodescoberta, especialmente quando Ana encontra outra mulher chamada Alice, que guarda uma semelhança impressionante com ela e vive no apartamento relacionado à sua avó.

Fernanda Salgado não trata essa coincidência como um simples mecanismo de mistério. Pelo contrário, utiliza o encontro para questionar o quanto realmente conhecemos nossas origens e até que ponto a identidade é construída pelas histórias que recebemos de outras gerações. A relação entre as duas mulheres se desenvolve em uma zona de incerteza que permite diferentes interpretações, aproximando o filme de uma reflexão sobre os caminhos que poderiam ter sido seguidos e as possibilidades de existência que permanecem escondidas dentro de cada pessoa.

O luto, nesse contexto, não aparece apenas como a dor provocada pela ausência. Ele também representa a ruptura de uma estrutura afetiva que ajudava Ana a compreender seu lugar no mundo. Ao retornar à cidade de origem de sua família, a protagonista precisa lidar com uma herança que não se resume a documentos, lembranças ou relatos, mas envolve experiências, vínculos e aspectos de sua identidade que não podem ser recuperados de maneira objetiva.

O aspecto mais fascinante de Ana, En Passant está na maneira como a linguagem visual se torna parte essencial da narrativa. Em vez de recorrer a uma animação convencional, Fernanda Salgado aposta em uma combinação de técnicas que fazem o mundo parecer simultaneamente concreto e imaginado. O longa utiliza rotoscopia, animação 2D desenhada à mão, colagens, stop-motion e animação termossensível, criando uma estética artesanal que desafia as fronteiras entre o real e o fantástico.

A rotoscopia é a base dessa construção. O processo consiste em filmar interpretações de atores e desenhar sobre as imagens captadas, preservando características dos movimentos e das expressões humanas. Aqui, a técnica confere aos personagens uma aparência que oscila entre o familiar e o estranho, como se fossem figuras retiradas da realidade e reconstruídas a partir de lembranças incompletas. A escolha é especialmente significativa diante da semelhança entre Ana e Alice, interpretadas pela mesma atriz, Jéssica Pierina. A identidade visual das duas reforça a sensação de que suas existências estão conectadas por algo que ultrapassa o acaso.

Já as colagens e os recortes transformam os cenários em superfícies vivas, nas quais fotografias, desenhos, texturas e materiais cotidianos se misturam. Belo Horizonte deixa de ser apenas o destino geográfico da protagonista e passa a funcionar como uma representação de sua experiência emocional. A cidade parece se reorganizar conforme Ana descobre novos fragmentos de sua história. Em determinados momentos, objetos e paisagens se transformam de maneiras inesperadas, tornando visível a ideia de que a memória nunca é uma reprodução fiel do passado, mas uma reconstrução constante.

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O stop-motion também participa dessa exploração espacial, utilizando objetos e materiais alternativos para destacar a geografia e os ambientes. A animação 2D, por sua vez, aparece pontualmente, acompanhando situações de maior intensidade emocional, enquanto a técnica termossensível, que utiliza calor para produzir imagens e cores em papel especial, amplia o caráter experimental da obra. Não se trata apenas de reunir diferentes estilos para produzir um resultado visualmente curioso; cada recurso contribui para construir uma realidade instável, atravessada pelas inquietações das personagens.

Essa liberdade formal é acompanhada por uma abordagem sonora que merece atenção. A música do grupo Metá Metá incorpora influências afro-brasileiras e elementos do jazz, contribuindo para uma atmosfera que mistura melancolia, estranhamento e afeto. A dança, associada à história familiar e à experiência corporal das personagens, também assume importância na maneira como o filme articula passado e presente. O corpo passa a ser outro território de memória, capaz de preservar experiências que não foram transmitidas verbalmente.

Apesar da força estética, o longa nem sempre consegue fazer com que sua narrativa alcance a mesma inventividade de suas imagens. A investigação conduzida por Ana cria expectativas em torno dos segredos familiares e da relação entre as duas mulheres, mas algumas dessas questões perdem força ao longo do percurso. Em certos momentos, o ritmo contemplativo se prolonga além do necessário, e a trama parece menos interessada em desenvolver as próprias perguntas do que em permanecer na atmosfera poética que construiu.

Essa escolha não compromete inteiramente a experiência, mas evidencia uma diferença entre a potência visual e a progressão dramática. Enquanto as técnicas de animação oferecem novas possibilidades para representar sentimentos, o roteiro ocasionalmente se apoia em diálogos explicativos e situações que não aprofundam suficientemente os conflitos apresentados. O filme encontra seus momentos mais interessantes quando permite que as imagens expressem aquilo que as personagens não conseguem compreender por completo.

Há, ainda, uma dimensão importante na maneira como a obra aborda a experiência de mulheres negras. A busca por pertencimento não está dissociada da ancestralidade, das ausências históricas e da dificuldade de estabelecer vínculos com uma origem que, embora faça parte da identidade, nem sempre foi vivenciada diretamente. Ana retorna ao Brasil tentando encontrar respostas sobre a família, mas descobre que conhecer o passado não significa necessariamente recuperar tudo o que foi perdido. O que permanece pode ser reconstruído a partir de encontros inesperados e de novas formas de afeto.

O próprio título sugere essa ideia de deslocamento. En Passant remete a uma jogada específica do xadrez, mas também evoca aquilo que acontece de passagem, os encontros aparentemente breves e os caminhos que se cruzam sem que possamos prever suas consequências. A narrativa trabalha justamente com essas possibilidades, sugerindo que nossas vidas são constituídas tanto pelas escolhas que fazemos quanto pelos vínculos que descobrimos ao longo do caminho.

No fim, Ana, En Passant é mais interessante quando abandona a necessidade de solucionar todos os seus mistérios e abraça a possibilidade de transformar sentimentos em imagens. Fernanda Salgado demonstra uma compreensão inventiva das possibilidades da animação, utilizando diferentes técnicas para materializar o luto, a memória e a busca por identidade. Embora o roteiro apresente oscilações de ritmo e nem sempre desenvolva suas ideias com a mesma precisão visual, o filme se destaca pela personalidade estética e pela sensibilidade com que aborda as heranças afetivas.

Ana, En Passant estreia em 5 de novembro nos cinemas.

Avaliação - 8/10

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