(MOSTRA SP) Crítica | Leite em Pó - Carlos Segundo encontra beleza no desconforto e humor em circunstâncias que poderiam facilmente se tornar excessivamente pesadas.
| Divulgação | Vitrine Filmes |
• Por Alisson Santos
Em Leite em Pó, Carlos Segundo parte de uma tragédia familiar para construir um retrato pouco convencional do luto, da estagnação e da dificuldade de seguir em frente. Exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa acompanha Vicente, um músico obcecado por rock que vive em Natal com a avó e parece incapaz de transformar suas aspirações em algo concreto. Quando uma perda devastadora rompe a rotina do protagonista, ele se vê obrigado a encarar uma realidade da qual vinha tentando escapar.
Interpretado por Vinícius de Oliveira, o personagem é apresentado como alguém que permanece suspenso entre aquilo que gostaria de ser e a vida que efetivamente consegue levar. A música funciona menos como uma expressão de realização artística do que como uma espécie de refúgio, uma fantasia à qual ele se agarra enquanto adia o enfrentamento de suas próprias frustrações. Vicente não é exatamente um protagonista fácil de acompanhar, e o filme tampouco tenta torná-lo imediatamente simpático. Seu comportamento errático, sua apatia e suas decisões questionáveis fazem parte de um retrato que prefere explorar as contradições humanas a oferecer explicações confortáveis.
A força do filme está justamente na maneira como Carlos Segundo se recusa a transformar essa trajetória em um drama convencional de superação. Em vez de organizar os acontecimentos em torno de uma transformação claramente definida, o cineasta permite que a narrativa avance por desvios, encontros inesperados e situações que frequentemente beiram o absurdo. O resultado é um filme que encontra na imprevisibilidade uma forma de expressar o estado emocional de seu protagonista, como se a própria estrutura narrativa reproduzisse a dificuldade de Vicente em compreender a realidade ao seu redor.
O que torna Leite em Pó particularmente interessante é a maneira como o humor emerge de situações que, em outro contexto, seriam tratadas exclusivamente pelo drama. A morte, a precariedade financeira e a incapacidade de estabelecer vínculos afetivos não são elementos isolados, mas partes de uma existência marcada pelo desconforto. Em vez de buscar uma solenidade constante, Carlos Segundo permite que o ridículo e o trágico coexistam, revelando como as pessoas podem reagir de maneiras inesperadas diante de experiências extremas.
Essa combinação impede que o filme se acomode em um registro emocional previsível. Há algo de provocador na naturalidade com que o cineasta conduz determinados acontecimentos, recusando-se a sinalizar continuamente quando o espectador deve sentir tristeza, rir ou se incomodar. O absurdo não aparece apenas como recurso para surpreender, mas como uma maneira de expor o descompasso entre a gravidade das circunstâncias e a incapacidade dos personagens de lidar com elas.
A cidade de Natal também desempenha um papel importante nessa construção. Os deslocamentos de Vicente ampliam o universo do protagonista, que passa a encontrar pessoas cujas experiências revelam outras formas de solidão e insatisfação. O trabalho que o obriga a percorrer a cidade funciona como um dispositivo narrativo para aproximá-lo de realidades que antes permaneciam fora de seu campo de visão. São encontros que nem sempre produzem mudanças evidentes, mas ajudam a transformar a percepção que ele tem de si mesmo e dos outros.
Nesse sentido, o filme encontra uma de suas ideias mais humanas na possibilidade de que a transformação não aconteça por meio de grandes revelações, mas de contatos breves e circunstanciais. As pessoas cruzam o caminho de Vicente sem necessariamente oferecer respostas para seus problemas. A vida, afinal, não costuma organizar seus encontros em função de um aprendizado específico. Algumas relações terminam antes de adquirir profundidade, enquanto outras deixam marcas que só podem ser compreendidas posteriormente.
A interpretação de Vinícius de Oliveira é fundamental para sustentar essa abordagem. Conhecido por "Central do Brasil", o ator constrói Vicente sem recorrer a uma expressividade excessiva, trabalhando com gestos contidos, olhares e momentos de aparente indiferença. Seu personagem parece estar constantemente atrasado em relação à própria vida, como se ainda não tivesse encontrado uma maneira de participar efetivamente dela.
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Essa escolha combina com a direção de Carlos Segundo, que privilegia uma observação mais distante em vez de transformar cada conflito em uma oportunidade para intensificar a emoção. O espectador precisa observar o protagonista, interpretar suas reações e conviver com suas contradições. Nem sempre é possível compreender imediatamente o que Vicente sente, e essa opacidade contribui para o retrato de alguém que tampouco parece compreender a si mesmo.
Também merece atenção a presença de Antônio Pitanga e Zezita Matos, cujos personagens ajudam a estabelecer as dimensões afetivas e geracionais da narrativa. A história não se limita à crise de um homem diante da morte, mas abre espaço para que a existência daqueles que vieram antes dele seja reconsiderada. O passado familiar deixa de ser apenas uma lembrança e passa a funcionar como uma experiência que Vicente precisa reinterpretar para compreender melhor o presente. Há, ainda, um significado particular na participação de Titina Medeiros, que interpreta Jane em seu último trabalho no cinema. Sua presença acrescenta uma dimensão comovente à experiência do filme, embora seu valor não dependa exclusivamente dessa circunstância.
A principal aposta de Leite em Pó está em sua recusa às estruturas convencionais de narrativa. Carlos Segundo não parece interessado em conduzir Vicente por uma trajetória perfeitamente organizada, com conflitos apresentados, resolvidos e transformados em lições. O filme prefere as lacunas, os desvios e as situações que parecem surgir de maneira inesperada.
Essa liberdade é também seu maior risco. Ao privilegiar a atmosfera e a imprevisibilidade, a narrativa pode transmitir a sensação de que algumas passagens existem mais pela estranheza que provocam do que pela profundidade que acrescentam ao protagonista. Nem todos os encontros possuem a mesma força, e a sucessão de acontecimentos insólitos pode criar certa distância entre a experiência emocional de Vicente e a do público.
Ainda assim, o filme encontra maneiras de fazer com que suas escolhas formais dialoguem com o conteúdo. A desorientação do personagem não é apenas descrita pelo roteiro, mas incorporada à própria progressão da história. Em vez de oferecer uma explicação definitiva para a condição de Vicente, Carlos Segundo constrói uma narrativa na qual compreender a vida significa aceitar que nem tudo se encaixa perfeitamente.
O título também ganha força quando relacionado à existência cotidiana do protagonista e à sua busca por alguma forma de conforto. A imagem do leite em pó remete a algo básico, doméstico e associado à nutrição, mas assume contornos menos reconfortantes dentro de uma narrativa marcada pela apatia e por comportamentos compulsivos. Existe uma contradição entre a promessa de sustento evocada pelo título e a dificuldade do personagem de encontrar algo que realmente o alimente emocionalmente.
Ao final, Leite em Pó se revela um filme sobre pessoas que continuam vivendo mesmo quando não sabem exatamente como fazê-lo. Carlos Segundo encontra beleza no desconforto e humor em circunstâncias que poderiam facilmente se tornar excessivamente pesadas. Sua abordagem não elimina as fragilidades da narrativa, mas demonstra uma disposição admirável para explorar caminhos menos previsíveis dentro do cinema brasileiro contemporâneo.
Leite em Pó está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Avaliação - 7/10
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