(MOSTRA SP) Crítica | A Providência e a Guitarra - O resultado é um filme de personalidade evidente, mas cuja inventividade não se traduz necessariamente em uma experiência envolvente.

Divulgação | Shellac Films

• Por Alisson Santos 

Em A Providência e a Guitarra, João Nicolau transforma as dificuldades da vida artística em uma comédia de costumes que mistura diferentes épocas, teatralidade e situações absurdas. O longa português parte de um conto de Robert Louis Stevenson para acompanhar dois artistas itinerantes, Léon e Elvira, que enfrentam a hostilidade das autoridades enquanto tentam sobreviver de suas apresentações. A narrativa também se aventura pelo século XXI, aproximando as inquietações dos protagonistas dos conflitos de uma banda de rock contemporânea.

O resultado é um filme de personalidade evidente, mas cuja inventividade não se traduz necessariamente em uma experiência envolvente. Nicolau demonstra interesse em brincar com as convenções narrativas e explorar o caráter artificial de sua encenação, mas a sensação é de que o longa está mais interessado em exibir suas próprias peculiaridades do que em construir uma história capaz de sustentar o interesse durante toda a projeção.

Essa escolha estética é parte central da proposta. O filme aposta em uma encenação deliberadamente teatral, com figurinos de época, enquadramentos frontais e uma fotografia que reforça a artificialidade daquele universo. Em vez de tentar recriar o passado com realismo, o diretor assume o faz de conta e utiliza o absurdo como ferramenta para discutir a relação entre arte, trabalho e sobrevivência. Há algo interessante nessa abordagem, especialmente quando Léon e Elvira precisam lidar com autoridades que parecem mais preocupadas em controlar suas apresentações do que em compreender o valor do que fazem.

O problema é que a inventividade formal nem sempre vem acompanhada de uma narrativa igualmente estimulante. A alternância entre o passado e o presente oferece possibilidades para aproximar diferentes gerações de artistas, mas essa estrutura também fragmenta a experiência. Os momentos contemporâneos, envolvendo a banda Desgraça e os conflitos em torno da criação artística, nem sempre acrescentam a profundidade esperada, funcionando, em alguns trechos, como interrupções de uma história que já encontra dificuldades para manter o ritmo. A ideia de aproximar as duas épocas é válida, mas sua execução carece de maior equilíbrio.

Divulgação | Shellac Films

Com 2 horas e 5 minutos de duração, A Providência e a Guitarra também exige uma disponibilidade considerável para acompanhar suas digressões, canções e situações excêntricas. O humor depende muito do gosto do espectador por diálogos peculiares e personagens que parecem existir segundo uma lógica própria. Quando essa comicidade funciona, o filme encontra momentos de leveza e ironia; quando não, a insistência em suas próprias excentricidades torna a experiência repetitiva. A sensação é de que algumas ideias poderiam ser desenvolvidas com mais concisão, sem que isso necessariamente comprometesse a personalidade da obra.

Ainda assim, Pedro Inês e Clara Riedenstein oferecem carisma aos protagonistas e ajudam a sustentar o interesse pelo cotidiano instável dos artistas. A dupla transmite uma cumplicidade que combina com a proposta do diretor, enquanto a música ocupa um espaço importante na construção da identidade do longa. Existe uma compreensão genuína de que fazer arte também significa insistir em uma atividade que nem sempre encontra reconhecimento ou condições dignas de sobrevivência. O filme, porém, parece confiar tanto na força dessa ideia que nem sempre consegue transformá-la em algo emocionalmente marcante.

No fim, A Providência e a Guitarra é um filme que reconheço como uma experiência autoral, com escolhas estéticas particulares e uma proposta temática interessante, mas que não me conquistou por completo. João Nicolau demonstra personalidade ao misturar épocas, linguagens e referências, embora essa liberdade criativa nem sempre resulte em uma narrativa coesa ou envolvente. A defesa da arte como forma de resistência tem seu valor, mas a repetição de recursos e o ritmo irregular impedem que a obra alcance todo o potencial sugerido por suas ideias. É um trabalho mediano, com qualidades perceptíveis, mas cuja inventividade acaba sendo mais interessante no conceito do que na experiência proporcionada ao espectador.

A Providência e a Guitarra está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 5/10

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