Dallan Shovlin revela como uma conversa de Natal inspirou a comédia criminal "Você Não Vai Acreditar Quem Morreu"
| Divulgação | MDH Entretenimento |
• Por Alisson Santos
Uma conversa em família durante o Natal foi o ponto de partida para a criação de Você Não Vai Acreditar Quem Morreu, comédia criminal dirigida pelo cineasta irlandês Dallan Shovlin. Em entrevista à MDH Entretenimento e Igor do Ó, realizada durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o diretor contou como uma situação cotidiana acabou se transformando na premissa de um filme que mistura humor, conflitos familiares e questionamentos sobre o capitalismo.
A ideia surgiu em 2018, quando Shovlin estava reunido com seus familiares. Durante a conversa, eles comentaram um caso real envolvendo criminosos que teriam utilizado informações sobre funerais para identificar o momento mais oportuno para invadir uma residência. O episódio provocou uma discussão inesperada à mesa de Natal.
“Meu pai disse que algo assim nunca poderia acontecer conosco. Então, começamos a pensar que, na verdade, poderia acontecer, sim. Cada um assumiu o papel de um ladrão e apresentou sua proposta de como invadiríamos nossa própria casa”, relembrou o diretor.
A brincadeira acabou se tornando a semente do roteiro. Dois anos depois, durante a pandemia de Covid-19, Shovlin decidiu desenvolver a ideia. Sem dinheiro para investir no projeto, ele aproveitou o período de isolamento para começar a escrever o longa-metragem, utilizando um programa de roteiro que oferecia 30 dias de teste gratuito.
“Escrevi o primeiro rascunho do filme nesses 30 dias. Depois, perdi o acesso ao programa até conseguir um trabalho e ter condições de voltar a mexer no roteiro”, contou. O desenvolvimento continuou por aproximadamente três anos, período em que o cineasta revisou a história até chegar à versão que seria levada à pré-produção.
DEZ ANOS NOS BASTIDORES ATÉ A CADEIRA DE DIREÇÃO
Antes de assumir o comando de seu primeiro longa-metragem, Shovlin trabalhou durante uma década na indústria cinematográfica como assistente de direção. A experiência permitiu que ele acompanhasse de perto o funcionamento de uma produção e observasse diferentes cineastas trabalhando com atores e equipes técnicas.
Para o diretor, essa trajetória funcionou como uma espécie de aprendizado que o preparou gradualmente para assumir a responsabilidade de conduzir um filme.
“Eu sempre amei histórias e sempre fui um contador de histórias. Trabalhei por dez anos na indústria cinematográfica como assistente de direção, cuidando do elenco e da logística no set. Assisti a muitos diretores incríveis trabalhando e também trabalhei com diversos atores”, explicou.
Shovlin afirmou que não houve um momento específico em que decidiu abandonar os bastidores para se tornar diretor. A oportunidade surgiu à medida que o roteiro começou a ganhar reconhecimento entre as pessoas com quem compartilhava o material.
Primeiro, outros profissionais demonstraram interesse pela história. Depois, os atores começaram a se envolver com o projeto, e a produção avançou até se tornar realidade.
“Você nunca sabe realmente se vai conseguir fazer um filme até estar no set e dizer ‘ação’. É nesse momento que tem certeza de que está fazendo cinema”, afirmou.
ENTRE "PARASITA", "SUCCESSION" E AS CONTRADIÇÕES FAMILIARES
A construção dos personagens também foi influenciada por obras que exploram disputas de poder, ambição e relações familiares deterioradas. Entre as referências citadas por Shovlin estão o filme sul-coreano "Parasita", de Bong Joon-ho, e a série "Succession".
Embora a estrutura da família retratada no longa tenha surgido de experiências pessoais do diretor, ele fez questão de esclarecer que os personagens são inteiramente ficcionais. A intenção não era reproduzir seus parentes na tela, mas imaginar que tipo de pessoas realmente seria capaz de levar adiante um plano criminoso concebido durante uma conversa familiar.
“Eu sabia que estava lidando com personagens fictícios. Eles não são minha família e não são boas pessoas”, destacou.
A abordagem também orientou o trabalho com o elenco. Segundo Shovlin, ele propôs duas perspectivas diferentes para as interpretações: em uma, os personagens deveriam parecer figuras divertidas e carismáticas, capazes de conquistar a simpatia do público; na outra, deveriam revelar seu lado mais desagradável, egoísta e incapaz de ouvir os próprios familiares.
O contraste entre essas duas possibilidades ajudou a encontrar o tom da narrativa.
“Entre essas duas realidades, eu e esse elenco incrível, maravilhosamente talentoso, encontramos a verdadeira história”, explicou.
A INSEGURANÇA FINANCEIRA COMO JUSTIFICATIVA PARA O CRIME
Além da comédia, Você Não Vai Acreditar Quem Morreu explora a maneira como dificuldades financeiras podem servir de justificativa para decisões moralmente questionáveis. Os protagonistas enfrentam problemas econômicos, mas seus objetivos também revelam ambições individuais e desejos que nem sempre correspondem às necessidades reais.
Para Shovlin, o público precisa compreender as motivações dos personagens sem necessariamente concordar com suas escolhas. A proposta é criar uma identificação inicial e, aos poucos, fazer com que os espectadores questionem o próprio apoio à jornada dos protagonistas.
“Entendemos a situação deles e conseguimos nos enxergar nesses personagens. Mas até onde eles estão dispostos a ir para conseguir o que querem? Essa é a pergunta que o filme faz”, afirmou.
O cineasta também chamou atenção para a contradição entre a percepção que os personagens têm de suas dificuldades e as condições que ainda possuem. Apesar dos problemas financeiros, eles têm uma casa, uma família e a possibilidade de compartilhar uma refeição durante o Natal. Ainda assim, nada disso parece suficiente.
“Eles estão passando por dificuldades na opinião deles, mas é a opinião deles. Eles têm uma casa, têm uma família e estão sentados à mesa aproveitando o Natal. Isso não é suficiente? Para essas pessoas, não”, refletiu.
A crítica ao consumismo e à busca incessante por dinheiro se mistura, portanto, à dinâmica familiar. O filme questiona até que ponto a ambição pode transformar problemas cotidianos em justificativas para comportamentos extremos, especialmente quando os indivíduos passam a enxergar o sucesso material como uma medida de realização pessoal.
Shovlin também considera que a dificuldade de comunicação entre os parentes é um elemento central da narrativa. Para ele, o modo como as famílias evitam conversas difíceis, disputam espaço e tentam impor suas próprias vontades é uma experiência que pode ser reconhecida por espectadores de diferentes culturas.
UM TÍTULO COM RAÍZES IRLANDESAS QUE ENCONTRA IDENTIFICAÇÃO INTERNACIONAL
O título Você Não Vai Acreditar Quem Morreu também carrega uma referência cultural importante. Segundo Shovlin, a expressão remete a uma maneira familiar de compartilhar notícias sobre falecimentos na Irlanda, especialmente durante conversas telefônicas entre parentes.
O diretor explicou que, depois das perguntas habituais sobre como cada pessoa está, uma pausa pode anteceder a revelação de que alguém morreu. A frase funciona como uma introdução para as notícias que circularam entre familiares e conhecidos.
Apesar dessa origem específica, o cineasta acredita que a expressão possui um apelo universal. A morte e as notícias sobre pessoas conhecidas são assuntos que atravessam fronteiras, criando uma identificação imediata com o público.
“Isso chama a atenção das pessoas, independentemente de onde elas sejam. Também cria uma pergunta implícita: quem morreu?”, comentou.
A recepção internacional tem sido positiva. Shovlin mencionou a passagem do filme pelo Hamptons International Film Festival, em Nova York, e pelo Newport Beach Film Festival, na Califórnia, antes de sua participação na Mostra de São Paulo. Segundo ele, as sessões registraram salas cheias, uma resposta que considera especialmente animadora para a trajetória da produção.
“Estamos tendo uma sequência incrível de sessões com o público lotando as salas. Não conseguimos acreditar. Tudo está se encaixando e as pessoas estão respondendo muito bem ao filme”, afirmou.
Ao final da entrevista, Shovlin deixou um convite ao público brasileiro para conferir a produção. “Venham assistir a Você Não Vai Acreditar Quem Morreu. Vocês não vão acreditar”, brincou o cineasta.
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