(MOSTRA SP) Crítica | O Golpe - Faz o espectador experimentar o desconforto de permanecer perto demais de uma intimidade marcada pela violência.

Divulgação | Charadas

• Por Alisson Santos 

O Golpe, primeiro longa-metragem de ficção de Julien Gaspar-Oliveri, parte de um reencontro familiar para investigar as marcas deixadas pela violência e a dificuldade de romper com relações que confundem afeto, medo e dependência. Selecionado para a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme acompanha dois irmãos que precisam lidar com o retorno de um pai cuja presença reabre feridas que nunca chegaram a cicatrizar.

Enzo (Diego Murgia), de 19 anos, e Carla (Romane Fringeli), de 20, vivem por conta própria há anos quando Anthony (Bastien Bouillon) sai da prisão. Enquanto o rapaz enxerga no retorno do pai uma possibilidade de reconstruir a família, a irmã rejeita categoricamente essa aproximação. A divergência entre os dois estabelece o principal conflito do longa; diante de experiências dolorosas compartilhadas, cada um desenvolve uma maneira distinta de sobreviver ao passado.

O mérito de Gaspar-Oliveri está em compreender que o trauma não se manifesta apenas em lembranças ou revelações, mas também na maneira como as pessoas se relacionam no presente. Enzo parece disposto a aceitar qualquer coisa em troca da possibilidade de pertencer novamente a uma família. Sua insistência em recuperar o vínculo paterno revela uma necessidade de afeto tão profunda que o impede de reconhecer, com clareza, os perigos dessa reaproximação. Carla, por sua vez, demonstra uma resistência que pode parecer excessiva aos olhos do irmão, mas que nasce de uma percepção mais lúcida sobre aquilo que o retorno de Anthony representa. O filme encontra nessa oposição um retrato doloroso das diferentes respostas à violência intrafamiliar.

Essa contradição ganha força por meio de uma direção que privilegia os corpos em vez das explicações. A câmera de Martin Rit aproxima-se dos rostos, acompanha movimentos bruscos e transforma pequenos gestos em manifestações de sentimentos difíceis de verbalizar. Os enquadramentos fechados produzem uma sensação constante de sufocamento, como se os personagens não encontrassem espaço suficiente para escapar da própria história. A opção por uma estética naturalista, com câmera na mão e uma proximidade quase documental, não serve apenas para conferir realismo às situações; ela faz o espectador experimentar o desconforto de permanecer perto demais de uma intimidade marcada pela violência.

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O silêncio também desempenha um papel fundamental. Em vez de transformar o passado em uma sucessão de explicações, o diretor permite que os traumas apareçam gradualmente nas reações dos irmãos, nas conversas interrompidas e nos momentos em que a aparente normalidade esconde algo perturbador. É uma escolha coerente com a natureza da história, sobretudo porque a violência familiar frequentemente se sustenta justamente na dificuldade de nomear o que aconteceu. Ao evitar o espetáculo explícito, o filme preserva a dignidade de suas vítimas e concentra a atenção nas consequências emocionais dos abusos.

As interpretações são decisivas para que essa abordagem funcione. Diego Murgia constrói Enzo como um jovem cuja aparente disposição para seguir em frente esconde uma fragilidade profunda. Há algo de inquietante em sua tentativa de manter uma imagem positiva do pai, como se a esperança de reconstruir a família fosse também uma maneira de evitar o confronto com a própria dor. Romane Fringeli, por outro lado, confere a Carla uma intensidade que não depende de grandes discursos. Sua postura defensiva carrega a exaustão de quem parece compreender que algumas reconciliações exigem um preço alto demais. Já Bastien Bouillon faz de Anthony uma presença ameaçadora sem precisar recorrer constantemente a demonstrações ostensivas de brutalidade. Seu personagem assusta justamente porque consegue ocupar o espaço familiar com uma naturalidade desconcertante.

Apesar da força dessas escolhas, O Golpe nem sempre encontra o equilíbrio ideal entre contenção e desenvolvimento dramático. A insistência nos silêncios e na proximidade física, embora coerente com a proposta estética, pode tornar algumas passagens repetitivas. Além disso, a natureza dos conflitos é perceptível relativamente cedo, o que reduz parte do impacto das revelações posteriores. Quando a atmosfera já estabeleceu o sofrimento dos personagens com tanta clareza, prolongar o desconforto nem sempre significa aprofundá-lo. Há momentos em que a encenação parece confiar excessivamente na intensidade do tema, como se a gravidade da situação bastasse para sustentar todas as cenas.

Ainda assim, o longa demonstra sensibilidade ao abordar a violência não como um acontecimento isolado, mas como uma força capaz de contaminar os vínculos afetivos e distorcer a percepção que as vítimas têm de si mesmas. A questão central não é simplesmente se Enzo e Carla conseguirão superar o passado, mas se será possível construir alguma forma de futuro enquanto a figura responsável por suas feridas continua ocupando um lugar tão importante em suas vidas.

O Golpe não é um filme fácil de acompanhar, tampouco inteiramente livre de excessos em sua insistência no sofrimento. Mas é justamente na observação das contradições de seus personagens que encontra seus momentos mais fortes. Em vez de oferecer uma reconciliação simples ou uma resposta reconfortante, Gaspar-Oliveri investiga o quanto o desejo de ser amado pode manter alguém preso à pessoa que mais deveria temer. E essa é uma das constatações mais dolorosas de seu filme.

O Golpe está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 8/10

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