(MOSTRA SP) Crítica | Rochas Vermelhas - É um filme que me agrada especialmente por não tentar tornar a infância mais bonita ou mais simples do que ela realmente é.

Divulgação | Luxbox Films

• Por Alisson Santos 

Em Rochas Vermelhas, Bruno Dumont encontra na infância um universo tão fascinante quanto imprevisível, no qual a descoberta dos primeiros sentimentos convive com a necessidade de pertencimento, as disputas por afeto e a vontade de desafiar os próprios limites. Ambientado na Riviera Francesa, o longa acompanha dois grupos de crianças que disputam território e prestígio por meio de uma brincadeira perigosa, saltando dos rochedos em direção ao Mediterrâneo. Nesse cenário, Géo, um menino de apenas cinco anos, começa a descobrir que as relações humanas são muito mais complicadas do que parecem. 

O que mais me encanta em Rochas Vermelhas é a maneira como Dumont observa a infância sem recorrer à idealização habitual desse período da vida. Aqui, ser criança não significa estar protegido das contradições do mundo adulto, mas experimentar essas contradições de maneira instintiva, direta e, muitas vezes, brutal. As rivalidades surgem com uma intensidade que pode parecer desproporcional a quem observa de fora, mas que faz sentido dentro da lógica particular daquele pequeno universo. A necessidade de conquistar a atenção de alguém, afirmar a própria posição no grupo ou demonstrar coragem transforma brincadeiras aparentemente banais em disputas carregadas de consequências emocionais.

O diretor demonstra compreender que, para as crianças, o mundo não é uma versão reduzida da realidade adulta. É uma realidade completa, com códigos próprios, hierarquias rigorosas e conflitos que podem adquirir dimensões gigantescas. Dumont não precisa explicar excessivamente os sentimentos de seus personagens nem traduzir cada gesto em uma mensagem evidente. Seu olhar encontra força justamente na observação, permitindo que as atitudes dos pequenos revelem mais do que qualquer diálogo explicativo conseguiria transmitir.

A escolha da Riviera Francesa como cenário é fundamental para essa experiência. A fotografia de Carlos Alfonso Corral explora a luminosidade intensa, as cores vibrantes e a imponência dos rochedos, construindo um contraste instigante entre a beleza natural e a sensação permanente de perigo. O Mediterrâneo, geralmente associado ao descanso e à tranquilidade, assume uma presença quase ameaçadora. As crianças parecem pequenas diante da vastidão da paisagem, mas, ao mesmo tempo, comportam-se como se aquele território lhes pertencesse inteiramente. A câmera alterna a contemplação dos espaços com a proximidade dos corpos, valorizando a espontaneidade dos movimentos e a imprevisibilidade dos gestos.

Também gosto da maneira como o longa aproxima o primeiro amor da rivalidade. A relação entre Géo e Ève não é tratada como um romance infantil açucarado, mas como uma descoberta ainda sem vocabulário, na qual o desejo de proximidade se mistura ao ciúme, à competição e à dificuldade de compreender os próprios sentimentos. A afetividade surge de forma desajeitada, quase selvagem, como se os personagens estivessem aprendendo simultaneamente a reconhecer o outro e a lidar com aquilo que despertam nele. Dumont encontra nessa dinâmica uma oportunidade para observar como as relações de poder começam a se formar muito antes de compreendermos plenamente o seu significado.

Divulgação | Luxbox Films

Há, ainda, algo de primitivo na maneira como o diretor constrói esse universo. As brincadeiras perigosas, os enfrentamentos entre os grupos e a relação física com a paisagem conferem à narrativa uma dimensão que ultrapassa o simples retrato de um verão. Os rochedos deixam de ser apenas um lugar para se divertir e passam a representar um espaço de provação, onde coragem, medo e necessidade de reconhecimento se confundem. A possibilidade de queda está sempre presente, mesmo quando as crianças parecem agir como se fossem invulneráveis. É uma imagem poderosa para uma idade em que os limites ainda estão sendo descobertos, muitas vezes pela experiência direta do risco.

Essa dimensão quase mitológica não impede o filme de preservar uma intimidade surpreendente. Pelo contrário, é justamente a combinação entre a vastidão da paisagem e a pequenez dos conflitos que torna Rochas Vermelhas tão envolvente. O mundo pode ser imenso, o mar pode parecer infinito e os penhascos podem adquirir proporções monumentais, mas tudo isso é percebido a partir de experiências afetivas extremamente concretas. Para aquelas crianças, uma disputa pode representar o fim do mundo, enquanto um encontro inesperado pode transformar completamente o verão. Dumont compreende essa diferença de escala e faz dela uma das principais forças de sua encenação.

O resultado é um filme que me agrada especialmente por não tentar tornar a infância mais bonita ou mais simples do que ela realmente é. Há delicadeza, mas também crueldade; existe liberdade, mas ela vem acompanhada de perigos; há a descoberta do amor, mas também a dificuldade de aceitar que o outro não nos pertence. Essa ambivalência confere densidade à narrativa e impede que o longa se transforme em uma lembrança nostálgica e idealizada de um período supostamente inocente.

Rochas Vermelhas reafirma, assim, a singularidade de Bruno Dumont, um realizador interessado em encontrar o extraordinário nos comportamentos mais elementares. Ao deslocar seu universo cinematográfico para a luminosidade da Riviera Francesa, o diretor encontra novas possibilidades visuais sem abandonar sua curiosidade pela estranheza humana. O filme pode parecer simples à primeira vista, mas sua força está na maneira como transforma brincadeiras, disputas e descobertas sentimentais em uma experiência cinematográfica de grande potência visual e sensorial.

Rochas Vermelhas está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 8/10

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