Crítica | Ato Noturno - Reolon e Matzembacher constroem um filme que olha para o Brasil não como um país em crise apenas institucional, mas como uma nação que exige performances constantes de seus sujeitos — e pune aqueles que ousam falhar.

Divulgação | Vitrine Filmes

• Por Alisson Santos 

Ato Noturno não se oferece ao espectador como um filme confortável. Ele seduz, provoca, exaure e, sobretudo, confronta. O novo trabalho de Márcio Reolon e Filipe Matzembacher confirma a maturidade de uma filmografia interessada menos em contar histórias lineares e mais em expor fraturas; do sujeito, da política, da sexualidade e da própria ideia de sucesso no Brasil contemporâneo. Se em Tinta Bruta o desejo surgia como resistência íntima, aqui ele assume contornos mais perigosos — passa a ser também espetáculo, risco e armadilha.

À primeira vista, Ato Noturno parece flertar com o thriller político e erótico, com o noir urbano e com o drama queer romântico. Mas essa impressão inicial é deliberadamente enganosa. O filme opera como um corpo híbrido, que se recusa a se estabilizar em um gênero específico, porque seus personagens também não conseguem se fixar em identidades únicas. Essa instabilidade é o motor da narrativa; tudo é transitório, performático, provisório — da carreira política à masculinidade exibida em público, do amor vivido às escondidas ao desejo que exige ser visto.

Matias e Rafael não são apenas um casal improvável; são símbolos de dois campos de poder que se retroalimentam. O ator em ascensão e o político em campanha compartilham o mesmo vício; a visibilidade. Ambos dependem do olhar do outro para existir, seja o olhar da plateia, do eleitor ou do voyeur anônimo que observa seus encontros noturnos. O sexo em espaços públicos não surge como simples provocação estética, mas como um gesto político involuntário — um curto-circuito entre aquilo que deve permanecer oculto e aquilo que insiste em emergir.

É nesse ponto que Ato Noturno se distancia de uma leitura simplista sobre repressão ou hipocrisia. O filme não se contenta em denunciar um sistema que exige máscaras; ele investiga o fascínio que essas máscaras exercem. Rafael não é apenas vítima de um projeto de poder que o obriga a esconder quem é — ele também se beneficia dele. Sua fala sobre trocar de máscara conforme a demanda revela um pragmatismo quase cínico, típico de uma lógica neoliberal em que o sujeito se adapta continuamente para sobreviver. Matias, por outro lado, encarna a dúvida, o atrito, a pergunta incômoda; até quando é possível sustentar um personagem sem desaparecer por completo?

Nesse sentido, Ato Noturno alcança seus momentos mais potentes quando se afasta do impacto imediato do erotismo e se dedica a investigar a relação entre Matias e Rafael como um jogo de encenação contínua. O filme cresce quando observa esses dois homens atuando — não apenas no teatro, na política ou na vida pública, mas também na intimidade — como se estivessem presos a um palco permanente, ensaiando gestos, falas e posturas para sobreviver ao olhar do outro. O erotismo, embora presente e relevante, nunca é o fim em si mesmo; quando ocupa o centro da cena, corre o risco de reduzir a complexidade do conflito. Já quando o desejo é atravessado pela consciência de que ambos performam papéis impostos, Ato Noturno se torna mais afiado, mais inquietante e mais cruel, revelando que o verdadeiro tesão do filme está menos no corpo exposto e mais na tensão entre quem se é, quem se finge ser e o preço cobrado por sustentar essa farsa.

Formalmente, o longa traduz essas tensões com precisão. A fotografia evita o centro, desloca corpos, recorta rostos, como se o enquadramento nunca conseguisse capturar plenamente seus personagens. A iluminação em neon, saturada e pulsante, transforma Porto Alegre em um espaço ao mesmo tempo real e artificial — uma cidade que parece existir apenas à noite, quando as regras do dia perdem força. Esse “neon noir” não é mero artifício estético; ele expressa um Brasil onde o desejo ferve sob uma superfície moral rígida, prestes a rachar.

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A trilha sonora e a montagem trabalham em sintonia com esse movimento. Há uma cadência quase hipnótica, que aproxima o espectador da condição voyeurística que o filme constantemente denuncia. Somos convidados a observar, a sentir o risco. E quando a narrativa desacelera, não é para aliviar a tensão, mas para torná-la mais incômoda — como se o silêncio também fosse uma forma de exposição.

Um dos aspectos mais instigantes de Ato Noturno é sua recusa ao discurso redentor. Não há promessa de libertação plena, nem a ilusão de que assumir o desejo basta para escapar das engrenagens do poder. O filme sugere algo mais ambíguo e, talvez por isso, mais honesto; o desejo é uma necessidade vital, mas também pode ser destrutivo. Ele impulsiona, mas cobra um preço. Quanto mais alto se sobe — social, política ou simbolicamente — maior é o risco da queda. A evocação mítica que permeia o desfecho não funciona como moral da história, e sim como aviso tardio.

A quebra da quarta parede reforça essa dimensão trágica e cíclica. Quando os personagens encaram o público, não pedem cumplicidade nem absolvição. Eles parecem dizer que sabem exatamente o que está em jogo — e ainda assim seguem adiante. O perigo não está em desconhecer as regras, mas em aceitá-las conscientemente, acreditando que será possível controlá-las até o fim.

No contexto do cinema brasileiro recente, Ato Noturno se destaca por não buscar consenso. Ele incomoda tanto quem espera uma denúncia direta quanto quem deseja apenas erotização vazia. Sua força está justamente nesse lugar instável, onde política e corpo, prazer e cálculo, ética e sobrevivência se chocam sem produzir respostas fáceis. Reolon e Matzembacher constroem um filme que olha para o Brasil não como um país em crise apenas institucional, mas como uma nação que exige performances constantes de seus sujeitos — e pune aqueles que ousam falhar.

Ao final, o cansaço que o filme provoca não é desgaste, mas efeito catártico. Ato Noturno deixa a sensação de que sobreviver, hoje, é também um ato de encenação — e que desejar, apesar de tudo, ainda é uma forma radical de existir. Não como promessa de salvação, mas como afirmação teimosa de que, enquanto houver corpo e pulsão, ainda há espaço para confrontar a lógica que tenta nos reduzir a personagens funcionais.

O filme estreia no dia 15 de janeiro nos cinemas.

Avaliação - 7/10

Comentários

  1. Fernando Ramboli9/1/26

    Assisti na Mostra. Baita Thriller, bem completo. E parabéns pelo texto, um dos melhores que vi sobre o filme.

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